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materia nº 70/2004

Tipo Projeto de Lei Ordinária
Número / Ano 70 / 2004
Date 2004-06-23
EmentaRedenomina Estádio Municipal de Futebol e demais instalações anexas de Estádio Municipal Governador Leonel de Moura Brizola e revoga a lei municipal nº 1222, de 14 de junho de 1993.
native_id11854

Autoria

Tramitação (latest 1)

DateStatusTurnoTexto
2009-01-05 Arquivado F Arquivado. Conforme determina o artigo 28, inciso XII, do Regimento Interno desta Casa de Leis este projeto de lei foi arquivado.

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status: extracted · method: native · backend: pypdfium2 · confidence: 1.00 · pages: 43

Estado do Paraná 
ASSESSORIA JURÍDICA 
PARECER AO PROJETO DE LEI Nº 070/2004 
Busca o ilustre Vereador subscritor do Projeto de Lei em epígrafe, obter o 
apoio do douto Plenário desta Casa de Leis para redenominar Estádio 
Municipal de Futebol e demais instalações anexas, de "Estádio Municipal 
Governador Leonel de Moura Brizola" e criar Museu Fotográfico, 
Histórico e Bibliográfico. 
A proposição está acompanhada de justificativa firmada pelo autor 
contendo a biografia do homenageado, porém não contém a anuência 
(concordância), de no mínimo, dois terços dos moradores ou 
domiciliados no logradouro , conforme exigência contida no artigo 6° da 
Lei Municipal nº 2.347, de 15 de junho de 2004, que estabelece critérios 
para a denominação de próprios e logradouros públicos do Município de 
Pato Branco, devendo ser promovida consulta nesse sentido. 
Quanto a criação de museu fotográfico, histórico e bibliográfico 
relacionado ao esporte municipal e a história política do homenageado, 
necessário verificar se há previsão orçamentária para suportar as despesas 
pertinentes a tal pretensão, competindo a Comisão de Finanças e 
Orçamentos promover diligencias necessárias. 
Após cumpridas as formalidades legais, estará a proposição em condições 
de ser apreciada pelo douto plenário desta Casa Legislativa. 
É o parecer, SALVO MELHOR JUÍZO. 
Pato Branco, 18 de agosto de 2004. 
) ~ Q_ , ~ 
··---- ~ --·~,.-Q., ..--~ 
Rua Arar·1gbóia, 491 Telefax: (46) 224-2243 85505-030 
E mail: legislativo@whiteduck.com.br 
Pato Branco Paraná 
Estado do Paraná 
Exmo. Sr. 
Dirceu Dimas Pereira 
DD. Presidente da Câmara Municipal de Pato Branco 
O Vereador infra-assinado, GILSON MARCONDES - PV, no uso de suas 
prerrogativas legais e regimentais, apresenta, para a apreciação do douto plenário 
desta Casa de Leis, o seguinte Projeto de Lei: 
PROJETO DE LEI Nº 70/2004 
Súmula: Redenomina Estádio Municipal de 
Futebol e demais instalações anexas, de "Estádio 
Municipal Governador LEONEL DE MOURA 
BRIZOLA", cria MUSEU FOTOGRÁFICO, 
HISTÓRICO E BIBLIOGRÁFICO e revoga a lei 
municipal nº 1222/93, de 14 de junho de 1993. 
Art. 1°. Fica redenominado o Estádio Municipal de Futebol de Pato 
Branco, de "GOVERNADOR LEONEL DE MOURA BRIZOLA" a edificação e 
anexos contidos na quadra 576, com área de 48.400,oom2 (quarenta e oito mil e 
quatrocentos metros quadrados), matriculada sob nº 9.408 junto ao Cartório do 
1° Ofício do Registro de Imóveis da Comarca de Pato Branco, de propriedade do 
Município. 
Art. 2°. O Executivo Municipal emplacará o referido próprio, contendo 
sua denominação, consignada no artigo anterior, no prazo de 30 (trint di s 
contados da publicação da presente Lei. 
Rua Ararigbóia, 491 Telefax: (46) 224-2243 85505-030 
E mail: legislativo@whiteduck.com.br 
Pato Branco Paraná 
Estado do Paraná 
Art. 3°. O Executivo homenageará os pioneiros do futebol pato￾branquense, instalando, em sala própria, MUSEU FOTOGRÁFICO, 
HISTÓRICO E BIBLIOGRÁFICO relativo ao esporte municipal, bem como a 
história política do homenageado, Governador Leonel de Moura Brizola. 
Art. 4 °. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as 
disposições em contrário especialmente a lei municipal nº 1222/93, de 14 de 
junho de 1993· 
Nestes termos, pede deferimento. 
Pato Branco, 23 de junho de 200 . 
APOIO: 
Antonio Urbano da Silva - PL Clóvis Gresele - PP 
; -
Dirceu ~~(fe N ereira - PPS Enio Ruaro - PP 
Laurinha Luiza Dall'Igna - PP Nelson Bertani- PDT 
Nereu Faustino Ceni - PC do B Silvio Hasse - PDT 
Valmir Tasca - PFL Vilmar Maccari - PDT Vilson Dala Costa- PMDB 
Rua Ararigbóia, 491 Telefax: (46) 224-2243 85505-030 Pato Branco Paraná 
Email: legislativo@whiteduck.com.br 
Atai natura 
Brizola: o homem que fez e marcou a história brasileira - IV 
No último artigo abordando o luminoso caminho de Brizola, 
ilustre homem público, falamos sobre o tributo que pagou por 
defender idéias próprias e do interesse da Pátria: um exílio de 15 
anos. 
Foi um vazio doloroso na sua vida política. Uma ausência do 
maior vulto histórico. Certamente, se não houvesse esse interregno, 
Brizola certamente chegaria ao topo de sua vida política, como pre￾sidente do Brasil. De volta do exílio, em 1989, teve seu ponto alto na 
vida política do Brasil quando candidatou-se à Presidência, chegan￾do a liderar as pesquisas em grande parte da campanha .. Somente 
não se elegeu devido à oposição das classes privilegiadas, das clas￾ses dominantes e da mídia, que foi implacável, e tantos outros 
interesses que atravancaram seu itinerário político. 
Durante o golpe de 64 e nos seus 20 anos seguintes, o nome de 
Brizola foi proibido de ser mencionado em qualquer órgão ou meio 
de comunicação de massa. Foi um anátema que pairou sobre sua 
cabeça durante todo esse tempo. Seu nome foi posto no "índex", 
assim como o nome de d. Bider, Arraes e dos demais líderes opositores 
do golpe. Apesar de tudo, Brizola sobreviveu e continuou a fazer a 
história do Brasil. 
Após seu refúgio no Uruguai, graças à intervenção do presi- · 
dente Jimmy Carter, o defensor dos direitos humanos, recebeu a 
autorização para ir aos EUA, em 1977, passando pela Argentina, 
tendo em vista que foi expulso do Uruguai com prazo de cinco dias 
para buscar outro abrigo ... 
Em 1978/1979, fixou-se em Portugal, a convite de seu amigo 
Mário Soares. Teve a oportunidade de participar ativamente de . 
encontros mundiais da Internacional Socialista, quando estreitou 
suas relações com <li.versos lídêres mundiais: François Mitterand, 
· Willy Brandt, Felipe Gonzalés, Carlos Andrés Perez e outros; além 
deMário Soares. 
Era, na época, a referência máxima de Brasil democrático, que 
: tentava segurar a liberdade neste país. Com sua.influência, forçou a 
' redemocràtização do Brasil. Em 1979, com o movimento pela Anis￾tia, lutou incansavelmente pelo encontro dos trabalhistas no Brasil e 
em Lisboa. Tinha uma meta: restaurar o velho PTB de Getúlio Vargas, 
cassado. pelo golpe. 
Em 1979, no dia 6 de setenibro,regressou ao Brasil.beneficia￾do pela anistia, através do aeroporto de Foz do'Iguaçu, rumando em 
seguida par!l Porto Alegre'. Após; fixou residência no centro do 
poder de fato, oRio de Janeiro, para resgatar.a sigla do PTB e outros 
interesses políticos. 
Mas, devido à pressão dos conservadores é d.as Forças Arma￾das, a sigla foi conferida à filha de Getúlio, !vete Vargas. 
Com esse fato, obrigou-se a ressuscitar o trabalhismo através 
da fundação de um novo partido, o PDT, em 1981. Foi o fruto de 
longos e demorados debates. 
Assim mesmo, com o registro da nova sigla, seu partido sofreu 
sérias restrições. Em 1982 lançou-se candidato a governador do 
Rio de Janeiro com a nova sigla. 
Com a preferência inicial de 3%, acabou sendo eleito governa￾dor com 34% do eleitorado carioca. A contagem dos votos foi frau￾dada e manuseada na tentativa de impedir sua eleição. Seus votos 
estavam sendo depositados nos outros partidos. Brizola obrigou-se 
a "chamar" uma comissão internacional para acompanhar a 
escrutinação dos votos. Valeu a presençade seus amigos europeus. 
Com a presença dos observadores estrangeiros, misteriosa￾menté os votos de Brizola apareceram e d<;tí em diante ponteou a 
eleição como futuro governador do Rio de Janeiro. 
Assumiu o governo do Rio e ressurgiu; novamente, a sua 
liderança. Em 1990, foi reeleito governador dos cariocas. 
Os seus inimigos políticos, principalmente a mídia e as pesqui￾sas encomendadas sem controle legal, desativaram sua marcha rumo 
ao Planalto, onde chegaria, naturalmente, devido à sua liderança. 
Não podemos esquecer que a perda da sigla do PTB, por interesses 
escusos, também atravancou seu caminho rumo ao Planalto. 
O PTB, sigla de seu coração, que o elegeu deputado estadual, 
federal, prefeito de Porto Alegre e governador dos gaúchos, não 
pôde acompanhá-lo até o fim. Como bom gaúcho, encilhou outro 
"pingo", o PDT (Partido Democrático Trabalhista), para assim po￾der prosseguir na sua brilhante carreira política. 
Apesar disso, não esmoreceu seu idealismo político de ver um 
Brasil mais humano, mais justo e sem corrupção. 
São pessoas desse calibre, itlealistas e honradas como Brizola, 
que marcaram sua presença na história como: Che Guevara, Ghandi, 
Marx, Lincon. 
Podemos dizer que Brizola foi o político brasileiro do século 
XX, o homem que fez e marcou a história do Brasil. 
Genírio João Fávero 
Professor da Faculdade Mater Dei e do Cefet 
DIARIO DO POVO 
ANO XIX EDIÇÃ03327 PATO BRANCO, SEXTA-FEIRA, 23 DE JULHO DE 2004 
Memorial Brlzola . Porto Alegre (ABr) - O governador do Rio Grande do 
Sul, Germano Rigotto, assinou decreto criando a comis￾são que vai apresentar o projeto do Memorial Leonel , 
Brizola rio Estado. Representantes da Assembléia 
Legislativa e do governo gaúcho ficarão encarregados de 
definir o local da construção, a elaboração do projeto e as 
parcerias que vão participar do financiamento das obras, 
"Leonel Brizola tem a sua trajetória não apenas como ex￾governador, como homem público que honrou a história 
gaúcha, mas também como uma liderança nacional. É im￾portante para o Rio Grande do Sul um memorfal com acer￾vo sobre a sua vida", afirmou o governador. 
DIARIO DO POVO 
ANO XIX EDIÇÃO 3324 PATO BRANCO, TERÇA-FEIRA, 20 DE JULHO DE 2004 
Homenagem. a .Brizola 
A direção nacional do PDT reúne, nesta quarta•feira, 
dirigentes dos 27 Estados brasileiros para missa de 30º dia 
da morte de seu grande líder Leonel Brizola, a realizar-se na. 
igreja do Rosário, situada na rua Uruguaiana, centro do Rio 
de Janeiro, a partir das l lh. Em seguida,.às 14'1, terá lugar a 
reunião com os dirigentes estaduais na sede nacional do 
partido, avenida Marechal Câmara, 160, também no centro 
do Rio. O senador Osmar Dias, que preside o PDT no Paraná, 
confirmou que estará presente acompanhado de integrantes 
da direção partidária estadual. 
DIARIO DO POVO ta wrma• =no MW'RF771 
ANO XIX EDIÇÃO 3322 PATO BRANCO, SEXTA-FEIRA, 16 DE JULHO DE 2004 
O último' maragato · 
Logo após a morte de Leonel Brizola, ocorrida dia 21 passado, 
um amigo telefona da capital e diz: "Perdemos o último guerreiro, 
. somente resta um semelhante, porém em posii;:ão contrária, que éo 
Antonio Carlos Magalhães, com uma diferença fundamental, en￾quanto Brizola amava o povo, ACM ama o poder que detém sobre o 
povo da Bahia". Isso sintetiza tudo sobre os dois personagens, sem, 
enveredar para as conotações ideológicas, de di.reita ou esquerda. 
Brizolajamais amou o poder, buscou-o sempre, é verdade, mas 
como instrumento de realização do bem-estar do povo. Não fosse 
assim, estaria acomodado, indicando correligionários e amigos para 
· ocuparem cargos públicos em troca do apoio político. Perseguiu, 
porém, caminho diverso, resistiu como pôde à ditadura militar, ali￾nhou-se à oposição a todos governos que a sucederam, denuncian-. 
do sempre os descaminhos e traições ao interesse dos brasileiros, 
principalmente dos trabalhadores. 
"Brizola, guerreiro do povo brasileiro", gritavam os populares 
em seu velório. Líder popular inconteste, longe de ser caudilho, 
Bri.zola era estadista respeitado internacionalmente. Seu nome e sua 
luta ficarão marcados indelevelmente na história brasileira; com cer￾teza cometeu erros e equívocos, muito mais estratégicos que ideoló￾gicos, quem sabe que se estes não ocorressem a recente história 
política do Brasil tivesse outro rumo. 
É bom lembrar que o lenço colorado usado por Brlzola nos 
comícios e aparições públicas não constituía meta alegoria, mas 1 ~·/_rN 
representava bem sua origem: seu pai fora assassinado, em 1923, 
em decorrência de seqüelas da Revolução Federalista de 1893. O 
nome Leonel é umáhomenagem ao revolucionário maragato Leonel 
Rocha. A revolução de 1893, ou guerra civil, como dizem alguns 
historiadores, foi a única que não teve causas econômicas, maragatos 
e chimangos lutaram por motivos de natureza política e ideológica, 
ressentimentos recíprocos. Os maragatos ou federalistas defendiam 
maior predominância do poder federal sobre o estadual, queriam um 
sistema unitário e centralizador, ao passo que ·os chimangos ou 
republicanos defendiam um sistema federativo com ampla autono￾mia dos Estados. A eleição do republicano Julio de Castilhos ao 
governo do Rio Grande do Sul e sua constituição positivista consti￾tuem-se no pólo principal de divergência para deflagrar a revolução 
de 1893. Outra distinção, conhecida até hoje, é que os maragatos 
usavam o lenço vermelho ao pescoço, enquanto o chimangos, por￾tavam o lenço branco. 
Tal qual um autêntico maragato, Brizola foi sempre centralizador, 
lutou até o fim por idéias e convicções, nunca cedendo espaço a 
conveniências ou interesses pessoais. Gumercindo Saraiva, Saldanha 
da Gama e outros valentes revolucionários federalistas, com júbilo, 
devem receber na eternidade, quiçá, o último rnaragato. 
Javert Prado Martins Filho 
· Ex-presidente do Diretório Municipal do PDTde Pato Branco 
DIARIOD POVO 
ANO XIX EDIÇÃO 3320 PATO BRANCO, QUARTA-FEIRA, 14 DE JULHO DE 2004 
Brizola, o homem que fez e marcou a história brasileira :... Ili 
Como referido nos artigos a,nteriores, a figura de Brizola 
marcou a história nacional até o último dia de sua vida: o 
seu nacionalismo, amor à pátria, respeito à coisa pública e à 
cidadania de cada brasileiro calaram fundo na alma brasi￾leira. 
Após João Goulart, popularmente conhecido como 
Jango, ter sido reconduzido à Presidência do Brasil por meio 
do Plebiscito, não perdeu a sua vontade social de transfor￾mar o Brasil, emperrado pela elite conservadora, possuido￾ra de todos os privilégios e, por isso, continuou a pregar as 
reformas de base e a reforma !lgrária. Diante de suas teses, as 
classes dominantes fugiam "como o diabo foge da água 
benta". 
Carlos Lacerda foi o chefe do exorcismo sobre as refor￾mas de base e a reforma agrária. Jango teve a infeliz idéia de . 
fazer comícios envolvendo integrantes das Forças Armadas, 
o qqe cheirou, para as elites, como uma rebelião comanda￾da pela autoridade máxima. · 
Estava em andamento, em todo o Brasil, uma onda de 
anticomunismo, pois Jango era tomado como líder comu￾nista; Os quartéis fervilhavam de grupos conjurando a de￾posição do governo de Jango. Isso durante muito tempo, 
tendo em vista que a esquadra norte-americana estava junto 
ao litoral da Guanabara, dando "cobertura" a um possível 
fracasso da "revolução". Os interesses eram internacionais, 
para que o Brasil, com suas ligas camponesas, comandadas 
pelo deputado Julião e que faziam sucesso no Nordeste e 
outras partes do território, não se convertesse em uma "nova 
Cuba" ... 
Em 30 de março, o Brasil ficou surpreso com o deslo￾camento dê' troPllS ·que partiram de Minas Gerais, sob o co￾mando dogeiieral Mourão, em direção ao Rio de Janeiro. 
Com os fatosem marcha, em 31 de março aconteceu o Gol￾pe Militar· de 64i Após foi feita uma doação de ouro, jóias, 
diamantes, etc •• para um fundo de salvação. do Bra~iL Mui￾tos valores foram "jogados" nesse fundo, que era tão fundo, 
que ninguém soube o destino.dos mesmos, até hoje. 
Enquanto isso, o br~v<)·Brizo!a, dep1,1tado federal pelo 
Rio de Janeiro com 300.nül V,otqs, a maforvotação obtida 
por um deputado brasiléito\~té aquela data,. tentou resistir .. ~· ,- .. ··.. _-,/-. 
ao golpe. Foi a Porto Alegre buscar os microfones da Cam￾panha da Legalidade, lembrando que o governador dos gaú￾chos era o sr. Ildo Meneguetti, adversário de Brizola. 
O governador, aconselhado pelos seus partidários, fu￾giu para Passo Fundo, que se tornou capital provisória dos 
gaúchos. Dizia-se naquela época, no Rio Grande do Sul, 
que o governador teria tomado um táxi dando a seguinte 
ordem: "Pé no fundo", o que o taxista teria entendido "Pas￾so Fundo" ... 
Brizola foi dissuadido diante da posição contrária do 
próprio Jango e demais líderes que se opunham ao golpe. 
Era procurado, vivo ou morto,. como um troféu para o 
golpe, em andamento. 
. Permaneceu ainda no Brasil por dois meses. Em abril, 
desapareceu misteriosamente do país, embora procurado 
diuturnamente por todo o Exército. Quando souberam de 
seu paradeiro, descobriram que se encontrava no Uruguai. 
Por entendimento entre os governos, no início do exílio 
era vigiado, para depois se transformar em confinamento no 
balneário uruguaio de Atiâ.ntida. Somente em 1970 o go￾verno uruguaio relaxou c:sse ·isolamento. Brizola foi morar 
em Montevidéu, restabeleêendo contatos com seus amigos 
do Brasil. Mas em 1977 foi expulso do .Uruguai~ devendo 
deixar o país em cinco dias. ('.om •a autorização direta. do 
então presidente Jimmy Cárter, '.foi para os Estados Unidos. 
No ano seguinte, fixou-se ern Portugal, onde. fez ami￾zades com todos os líde~es socialis~as da Europa. Após a 
saída de Brizola, ninguém conseguia explicar o mistério de 
· sua fuga, embora todo o Exército estivesse à sua procura. 
Há poucos anos, Brizola, depois de muita insistência, ex￾plicou: teria se vestido de alto oficial da Brigada Militar, 
com o devido acompanhamento, e teria seguido até a praia 
de Tramandaí, onde ter-se-ia escondido entre as dunas, para ' 
aguardar o "teco-teco" enviado por seu cunhado Jango. Após, 
sobrevoando a praia gaúcha, adentrou no vizinho Uruguai. 
(segue) 
Genírio João Fávero 
Professor na Faculdade Mater Dei e Cefet 
Filósofo. teólogo e advogado. / 
-- ___________ _. ____ __:-.__ _ __::_:____".:_ __ .._._._:::__.· ·--------··-··-· -·-· ·_, '._.·' -~:_'.:_.:~'- ·-'-~---~----- --
. ,,-5-030 PATO BRANCO PR 
JORNAL DA ASSEMBLÉIA Óq~ão de divulgação da Assembléia Legislativa do Paraná Ano 1 - Nº 4 - Curitiba, 28 de junho a 4 de julho de 2004 
"Nós o amávamos! 
Ele nos dava 
a noção do Brasi 
profundo 
e o amor 
pelo Brasil. 
Foi um 
guardião 
dos interesses 
mais profundos 
da nacionalidade." 
Projeto prevê obrigatoriedade do uso 
de GNV no transporte coletivo 
(Pági11a 4) 
1 
"Leonel Brizola foi líder 
político de uma geração 
que fez da luta pela 
democracia sua bandeira 
permanente. A sua morte 
representa a abertura de 
uma lacuna na vida 
política do País, que 
aprendeu a reconhecer 
coerência na defesa 
intransigente que Brizola 
fazia de seus ideais." 
"Era um grande 
homem e, acima 
de tudo, um 
grande opositor. 
Leal aos seus 
princípios 
políticos, Brizola 
sempre 
esteve acima 
de qualquer 
suspeita." 
"Brizola é uma 
das figuras mais 
importantes da política 
nacional e deve 
ser reconhecido 
por seus feitos, 
que não foram poucos. 
Perdem o Brasil 
e a democracia 
com a morte 
de Brizola." 
"Brizolafoi um dos grandes 
políticos dessa nação, 
trilhando uma história 
política jamais vista ou 
vivida por outro partido, 
sendo eleito governador em 
dois Estados. Brizola também 
sempre foi e será elogiado 
por sua conduta, tanto na 
vida público como na vida 
política, por brasileiros e por 
líderes estrangeiros." 
Projeto normatiza venda e reciclagem 
de produtos que contém metais pesados 
(Página 2) 
Curitiba, 28 de junho a 4 de julho de 2004 3 JORNALDAÁsSEMBLÉIA i 
Tributo a Leonel Brizola 
Leonel Brizola nasceu em 22 de 
janeiro de 1922 no povoado de Cru￾zinha, antes pertencente ao muni￾cípio de Passo Fundo-RS, e hoje a 
Carazinho. Filho mais novo de agri￾cultores, seu pai o lavrador José de 
Oliveira Brizola, morreu na Revo￾lução Federalista de 1923, lutando 
nas tropas de Joaquim Francisco 
de Assis Brasil. 
Augustinho Zucchi Alfabetizado por sua mãe, Oni￾via de Moura Brizola, iniciou seus 
estudos na escola primária de Passo Fundo em 1931. Em 1936 matriculou￾se no Instituto Agrícola de Viamão, formando-se técnico rural em 1939. Em 
1940 mudou-se para Porto Alegre, onde concluiu o supletivo e trabalhou 
como funcionário público na prefeitura da capital. Formou-se em engenha￾ria civil na Universidade do Rio Grande do Sul, em 1949. 
Simpatizante do presidente Getúlio Vargas, Brizola ingressou no PTB 
em agosto de 1945, integrando o primeiro núcleo gaúcho do novo partido. 
Em 1947, ainda estudante do curso de engenharia, elegeu-se Deputado 
Estadual, com participação decisiva na elaboração da Constituição gaúcha e 
participou da instituição do regime parlamentarista no Estado. 
Em 1 ºde março de 1950, tendo como padrinho, Getulio Vargas, 
casa-se com Neusa Goulart irmã de seu colega de Bancada João Gou￾lart a quem conhecera como militante do PTB em Porto Alegre, e dessa 
união de muito amor nasceram três filhos Neusinha Brizola, José Vi￾cente Brizola e João Otávio Brizola. 
Em outubro de 1950 reelege-se deputado estadual, assumindo a lideran￾ça da bancada, firmando-se como uma das mais expressivas lideranças po￾líticas do PTB na Assembléia Legislativa, em 1952 convidado pelo gover￾nador Ernesto Dornelles (PTB), assume a Secretaria de Obras idealizando 
e executando inúmeras obras de relevante importância para o Estado, dando 
inicio a construção de grande número de Escolas Públicas, pois acreditava 
que o futuro da nação dependia do aprimoramento 
do conhecimento de seu povo. No pleito de 1954 
elege-se deputado federal, com a maior votação re￾gistrada até então no Estado do Rio Grande do Sul, 
tornando-se um dos mais duros adversários dos se￾tores retrógrados e golpistas. Contesta Carlos La￾cerda, já no ato de juramento deste, ao aparte-ardis￾se: "este vai ser um juramento falso Sr. Presidente 
porque ele esta pregando o golpe lá fora, e vem jurar 
a constituição aqui dentro". Foi um dos Deputados 
que mais lutou pelo cumprimento da Constituição, e 
em especial do calendário eleitoral tendo contribuído 
para a posse de Juscelino e Jango, respectivamente 
presidente e vice. 
Eleito prefeito de Porto Alegre em 1955, sua 
gestão foi marcada pelo trabalho incansável na área 
da educação pública, criando o slogan "nenhuma cri￾ança sem escola". A nova experiência administrativa 
bem sucedida, na terceira maior cidade do País na 
época, reforçou sua marca empreendedora, dando 
continuidade na Capital ao projeto iniciado na sua passagem pela Secretaria 
de Obras do Governo Estadual. 
Elegeu-se Governador do Rio Grande do Sul aos 36 anos com amplo 
respaldo popular, obtendo mais de 670 mil votos. Realiza uma histórica 
administração, instituindo a Caixa Econômica Estadual e o Banco Regional 
de Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, incrementando a Política de 
Desenvolvimento dos três Estados do Sul. Cria o Instituto Gaúcho de 
Reforma Agrária - IGRA, com a entrega de 14 mil títulos a agricultores sem 
terra, dando início à conscientização da justa distribuição de terras para 
incremento da economia e geração de empregos no campo. 
Conclui nesse mandato o programa iniciado antes como Secretário reali￾zando o maior investimento em educação pública, com a construção de 5.902 
escolas primárias, 278 escolas técnicas e 131 ginásios, abrindo 700 mil novas 
matriculas e contratando 42 mil novos professores, eliminando o déficit escolar. 
No plano político inicia seu governo queimando os arquivos do DOPS 
- Departamento de Ordem Política e Social, eliminando a máquina existente 
de repressão no interior do governo estadual. Introduz um programa rádio￾telefônico semanal e pioneiro no País, todas as sextas-feiras a noite, de 
prestação de contas e esclarecimento sobre a administração estadual. 
Inicia e coordena o movimento da Legalidade, sustando o plano que 
visava o impedimento da posse do Vice-Presidente constitucional João Gou￾lart, em ação política inédita, que garantiu o respeito à Constituição Nacional. 
Em 1962 elegeu-se deputado federal pelo Estado da Guanabara 
com quase 300 mil votos, maior votação alcançada até então por um 
parlamentar na história brasileira , que representou um terço dos vo￾tos do Estado da Guanabara. 
Com marcada atuação em favor das reformas de base e da profunda 
reformulação da política econômica e social, constituindo-se em um dos 
maiores líderes nacionais por esses avanços, é incluído na primeira lista 
de cassados pelo golpe de 1964. Tenta resistir em Porto Alegre,. em 
nome da Ordem Constitucional, mas é dissuadido diante da posição 
diversa do Presidente João Goulart. Diante da impossibilidade de per￾manecer no país, com atuação pública, sendo procurado vivo ou morto, 
exila-se em maio, no Uruguai. 
Permanece no exílio por 15 anos, passando pelo Uruguai, Estados Uni￾dos e Europa. Neste último estreitou relações com lideranças tais como Fran￾çois Mitterrand, Felipe Gonzáles, Carlos Andrés Peres e Mario Soares, no 
momento de crescimento do movimento pela anistia, promove o encontro de 
trabalhistas no Brasil e no exílio em Lisboa com o objetívo de reorganizar o 
PTB no Brasil. É de lá que sai a Carta de Lisboa a principal peça de constitui￾ção daquilo que viria a ser o PDT - Partido Democrático Trabalhista. Retoma 
ao Brasil em 1979 mais de 15 anos depois de ter saído, ingressa em território 
nacional pelo aeroporto de Foz do Iguaçu, Estado do Paraná, segue para 
Porto Alegre, mas fixa residência no Rio de Janeiro Capital. 
Em novembro de 1981, Leonel Brizola registra no TSE o PDT, o qual 
permaneceu até o fim e seus dias. Foi eleito Governador do Rio de Janeiro 
com 34% do eleitorado, onde realizou inúmeras obras, instituindo um 
plano educacional inovador, com a introdução dos CIEPs (Centros Inte￾grados de Educação Pública), com turnos integrais, completando a entrega 
de mais de 200 unidades. Participou ativamente da campanha pelas Dire￾tas, sendo que depois de frustrada essa possibilidade, apoiou a candidatu￾ra de Tancredo Neves, que faleceu antes de assumir o mandado de Presi￾dente da República. Candidato à Presidência em 1989, pelo voto direto, 
não obteve êxito no pleito, sendo eleito mais tarde, no ano de 1990, 
Governador do Rio de Janeiro pela segunda vez. 
Membro efetivo da Internacional Socialista, Leonel de Moura Brizola, 
foi em vida a maior expressão política do trabalhismo nacional, defensor da 
classes menos favorecidas, acreditava que a educa￾ção e o trabalho digno era direito de todos. Pela sua 
trajetória na vida pública, e pela sua ilibada conduta 
é que viemos prestar esta justa homenagem a este 
honrado brasileiro. 
Muitos podem até discordar das opiniões de 
Leonel de Moura Brizola. Mas, certamente um ho￾mem que até os 82 anos de idade, sessenta dos 
quais permaneceu na vida pública, não restou dos 
cargos que ocupou nenhuma dúvida com relação a 
honestidade, ao seu princípio sólido em defesa da 
população, ao caráter que carregou sempre retilí￾neo e, principalmente a sua coragem de defender as 
posições nas quais acreditava e pelas quais lutava. 
Brizola certamente será um dos marcos im￾portantes da política brasileira. E muitas vezes 
nós, quem sabe, tenhamos que reverenciar figuras 
como Getúlio Vargas, João Goulart e, por último, 
Leonel Brizola, para dizer que o trabalhismo bra￾sileiro encontrou nessa gente a vertente de uma 
luta em defesa da grande maioria da população. 
No sudoeste do Paraná, nós que acompanhamos de perto a história 
política de Brizola, que vivenciamos a coragem deste líder destemido, que 
aprendemos a admirar a conduta ética e moral deste brasileiro que nunca se 
curvou, o sudoeste do Paraná, região que orgulhosamente eu represento 
aqui, está de luto e tenho absoluta certeza vai, ao longo dos tempos, reve￾renciar este grande patriota que foi um servidor do nosso Brasil. Já ainda no 
exílio, quando eu aqui estudante, nós fazíamos uma comissão para visitá-lo 
no Uruguai, ele de lá, de outro país coordenava a resistência brasileira, junto 
com outros partidos, como é o caso do PMDB que naquela época encampa￾va a anistia ampla, geral e irrestrita. 
O Brizola para nós é muito mais do que um político que passou incólu￾me nos cargos públicos que ocupou, é muito mais que um político que 
assumiu o governo de dois estados diferentes da Federa~ão e tão distintos 
como é o Rio Grande do Sul e o estado do Rio de Janeiro. E mais do que isto. 
É uma referência que nos cabe a encampar sempre as suas idéias, das escolas 
que construiu quando o Rio Grande engatinhava, até os CIEP'S que se 
tornou uma proposta universal do ensino público e gratuito neste Brasil. 
Deixo aqui registrado em nome do PDT do Paraná a nossa mais 
sincera homenagem a este ilustre brasileiro que serve de referência a 
todos nós, não apenas aqueles que seguem seus passos políticos, mas 
a todos aqueles que entendem que deveremos ser intransigentes na 
defesa da soberania do povo brasileiro. 
Augustinho Zucchi é filiado ao PDT de Leonel Brizola 
DIARIO DO POVO 
ANO XIX EDIÇÃO 3317 PATO BRANCO, SEXTA-FEIRA, 9 DE JULHO DE 2004 
. . . 
, A homenagem ·do povo a Leonel Brizola 
Foi grande a repercussão do falecimento do meu. 
avô, 6 à-governador Leonel Brizola, que no dia 21 
. de junho, por problemas de coração, acabou falecen￾do. A luta contínua e tenaz que empreendeu nesses 60 
anos de vida pública, dedicando-se ao Brasil e em es￾pecial às crianças, certamente exigiu muito do seu co￾ração. No cortejo que levou seu corpo, do Palácio . 
Guanabara ao aeroporto Santos Dumont, milhares de 
pessoas saíram às ruas no último adeus ao grande líder 
trabalhista. A homenagem prestada pelo povo brasi￾leiro significou a redenção e o reconhecimento da luta 
de Leonel Brizola, por todo o seu empenho em colo￾car as crianças em uma escola digna e de horário inte￾gral. Era visível a emoção das pessoas, grande parte 
vinda de camadas humildes, agradecidas por algo que 
ele fez em seus dois governos. A sua óbra, em especial 
no Rio de Janeiro, teve significado muito grande para 
as poptdações marginalizadas da capital e do interior, 
porque governava visando. melhorar as condições de 
vida dos moradores da periferia e das favelas. Quantas 
mães de família receberam o título de posse da sua 
casa. das mãos do meu avô? O fim dos despejos das 
comunidades pobres que ocorriam em governos ante￾riores, li construção de 500 Cieps, carinhosamente chit￾mados de "brizolões" pelo povo carioca, a criação da 
Secretaria Estadual de Defesa das Populações Negras, 
a construção do sambódromo, tudo feito para recu￾perar a auto-estima e a dignidade dos afro-descen￾dentes. Nos seus governos houve grande preocupa￾ção para conter ações abusivas das polícias Civil e 
Militar, para que respeitassem os direitos dos mora￾dores das regiões pobres da mesma forma que devem 
respeitar os que moramhas regiões nobres da cidade. 
Tanto lutou pelos humildes que foi acusado, até a sua 
morte, de ser amigo de bandidos. As elites brasileiras 
. nunca aceitaram a idéia de um governo construir es￾colas de qualidade e bonitas para crianças pobres, 
nunca aceitaram o governo atuou a favor das comu￾nidades pobres. As elites, à frente a Rede Globo, sem￾pre tentaram convencê-lo a não construir escolas e 
ele nunca se dobrou para esses inimigos do povo. Ten￾taram inclusive responsabilizá-lo pelo aumento da 
criminalidade no Rio, quando as próprias estatísticas 
confiáveis provam o contrário. Mal sabem essas pes￾soas que a verdadeira causa da violência urbana nos 
dias de hoje é a pobreza e a miséria em que afunda￾ram o nosso povão. Esse triste episódio do faleci￾mento .de Leonel Brizola serviu para que muita gente 
acordasse para a importância de salvarmos as nossas 
crianças, de recuperitrmos a dignidade das nossas fa￾mílias através das ações. do Estado, em especial na . 
área da educação, e ajudarmos na organização da so￾dedade civil. A maior homenagem que podemos pres￾tar ao meu avô é continuarmos lutando e honrando a 
sua memória e história. Defender o seu legado e as 
suas obras é o principal caminho em defesa do povo 
brasileiro. Eu não poderia deixar de agradecer, atra￾vés deste artigo, a todos que de· uma forma ou. de 
outra prestaram homenagem ao meu avô. 
Brizola Neto. 25. estudante de Direito. é neto do ex￾governador Leonel Brizola. vice-presidente nacional da 
Juventude do PDT e candidato a vereador no município do 
' Rio de Janeiro. 
PUBLICADO 
Jer .. 1 do.. ~onQ.i -ºfi 
N.• t.;2 4G DatalJ:./.siii.J 
Attlnat1ra 
Câmara suspende votações 
e faz homenagem a Brizola 
O presidente nacional 
do PDT e líder trabalhis￾ta brasileiro, Leonel Bri￾zola, não resistiu a uma 
parada cardíaca e mor￾reu ontem às 21h29, aos 
82 anos de idade. Ex-go￾vernador do Rio de Ja￾neiro e do Rio Grande do 
Sul, deputado federal 
eleito em 1962 e cassado 
pelo regime militar em 
1964, Brizola foi um dos 
personagens mais impor￾tantes do cenário políti￾co brasileiro dos últimos 
50 anos. No Parlamento, 
Brizola se tornou o líder 
das esquerdas e o princi￾pal coordenador do gru￾po de pressão sobre o go￾verno de João Goulart na 
consecução das reformas de 
base, principalmente a re￾forma agrária, que a seu ver 
devia ser feita "na lei ou na 
FLÁVIO PAHECO 
marra". O presidente da 
Câmara, deputado João 
Paulo Cunha, tão logo sou￾be da morte do presidente 
do PDT suspendeu as vo￾tações marcadas para hoje 
e transformou a sessão 
em homenagem ao ex￾governador. João Paulo 
afirmou que Leonel Bri￾zola era uma ligação en￾tre o passado e o futuro 
e que a morte dele repre￾senta uma perda políti￾ca para aqueles que que￾rem construir um país 
melhor. 
O corpo do ex-gover￾nador está sendo velado 
no Palácio Guanabara, 
sede do governo flumi￾nense. Amanhã seguirá 
para Porto Alegre (RS) 
e será velado no Palácio 
Piratini. Brizola será se￾pultado na quinta-feira, 
em São Borja, Rio Grande 
do Sul, seu estado natal. O 
presidente da República, 
Luiz Inácio Lula da Silva, 
anunciou luto oficial por 
três dias. 
'. 
Leonel Brizola, . A . • 
coragem e. coerencia · L~O DE ALMEIDA N~ES 
Leonel Brizola, o menino engraxate que ~e formou engenheiro civil, jamais será esque￾cido por ter pautado sua existência pela coragem cívica, coerência na luta pelos ideais 
nacionalistas, obsessão pelas soluçoes ~o campo da educação e pelo seu total devota￾mento à política e aos interesses do povo brasileiro. 
Prefeito eleito de Porto Alegre aos 33 anos e gover￾nador gaúcho aos 36 anos, coube-lhe protagonizar;o · episódio épico, único da história brasileira, em que uma liderança civil derrotou ministros militares golpis￾tas, em agosto/setembro de 1961, após a renúncia.do 
presidente Jânio Quadros. Os ministros Grum Mos$ 
(Marinha), Silvio Heck (Aeronáutica) e Odylo Denys 
(Exército) estavam vetando a posse do vice-presiden￾te João Goulart, que estava na China comunista de 
Mao-Tse-tung, e proibiram seu. retomo ao Brasil, sob 
pena de prisão. 
Brizola montou seu quartel-general no Palácio 
Píratíni, instalou a Cadeia da Legalidade (rádios do 
Rio Grande do Sul e progressivamente de todo o país), convocou o povo a agrupar-se e deu o brado de guer- ra em favor da Carta Magna e da sucessão pelo vice￾presidente. Com destemor, arriscou a carreira política e a própria vida, mas venceu com a adesão à tese 
democrática do General Machado Lopes, comandante 
do.3.0 Exército. . Nacionalista, conseguiu que a Petrobrás construíS' se a refinaria Alberto Pasqualini, próxima a Porto 
Alegre, porém seu gesto de maior repercussão foi a encampação das subsidiárias das companhias norte￾amerieanas. de telefonia (ITT) e cie energia elétrica. 
(Amforp), com pagamento pelo valor histórico do 
investimento, resultando em.conflito com o governo 
estadunidense que se prolongou pelo governo João 
Go1.llart e só teve epílogo no regime milita.r. 
Na chefia do Executivo gaúcho, Leonel Brizola 
doou terras herdadas de seu 50gro, Vicente Go1.llart, 
para projeto de reforma agrária, executando algun$ 
programas bem-sucedidos, com criteriosa seleção dos. 
agricultores sem-terra, que receberam assistência téc￾nica e sementes selecionadas, assistidos por patrulhas 
moto-mecanizadas para preparo do solo e colheita, 
contando ainda com financiamento de custeio da 
então Carteira de Crédito Agrícola e Industrial (Creai) 
do Banco do Brasil. 
A grande marca administrativa de Leonel Brizola 
foi na educação, quando cobriu o déficit de todas as regiões gaúchas, edificando 6.302 escolas e aprimo￾rando a fortnação do professorado. 
Consagrando-se em 1962 deputado federal (PTB) 
mais votado do Brasil pelo Rio de Janeiro, empenhou 
todas suas energias na aprovação das reformas de 
base propostas pefo> presidente João Go1.llart. O golpe 
de 1. 0 de abril de 1964, obrigou-o ao exílio no Uruguai, 
de onde tentou infrutiferamente organiia.r movimen￾tos para· derrubar a ditadura. Os militares brasileiros 
exigiram que o governo uruguaio o confinasse e, 
depois, que fosse expulso do pais. Ele partiu para os 
Estados Unidos, contatando dirigentes do Partido 
Democrata pregando o fim do discricionarismo no Brasil, seguiu para a Europa fixando residência e se 
articulando com os principais líderes socialistas e da 
social democracia, sendo escolhido vice-presidente da 
Internacional Socialista, função que exercéu até sua morte. 
Refundou o Partido Trabalhista Brasileiro no Encontro de Lisboa, em setembro de 1979, que reuniu 
exilados e trabalhistas daqui. Voltou do eXílio, organi- zou o PTB em todos os estados, todavia perdeu a sigla 
para a ex-deputada federal !vete Vargas, em manobra 
urdida pelo general Golbery do Couto e Silva, o mago 
da ditadura. Revelando tenacidade, força e voz de 
comando, organizou o PDT em 1980 e se elegeu gover￾nador do Rio de Janeiro por duas vezes, ein 1982 e 1990. 
Sua principal obta foi a construção de 500 Centros 
Integrados de Educação Pública (Cieps), projeto do 
arquiteto Oscar Niemeyer, execução do engenheiro 
José Carlos Sussekind e concepção educacional do 
antropólogo Darcy Ribeiro, fundador da Untversidade 
de Brasília. 
Escola de temp() integral, proporciona aos alunos 
excepcional qualidade de ensino, apoio ao esporte e atividades recreativas e culturais, além de fornecer￾lhes o café da ml;Ulhã, almoço é lanche à tarde. Seu 
sonho ao candidatar-se a Presidência da República era . espalhar os Cieps por todo o Brasil, não deixando 
meninos na rua e crianças sem escola. 
Outra obra marcante de Brizola foi o Sambódromo no Rio de Janeiró, novamente projeto de Niemeyer e engenharia de José Carlos $ussekind. todo ano se repete a mais esfuziante festa popular do mundo, ajun￾tamento de pobres e ricos e inigualável atração turís￾tica. A construção da Via Vermelha, ligando o Ae￾roporto Internacional do Galeão ao centro do Rio de 
Janeiro é outra realização de reiµce do governo pede￾tista. 
Mais que tudo, o líder e estadista Leonel de Moura · Brizola, exclusivo personagem que governou pelo voto 
dois importantes estados da Federação, sempre será 
lembrado pela sua coerência, probidade e defesa infa. . tigável dos princípios nacionalistas e do trabalhismo 
de Vargas, Golllart e Pasqualini, que objetiva alcançar o fim da miséria e das desigualdades sociais e a trans￾formação do Brasil em potência mundial. 
.., LÉO DE ALMEIDA N~ t U:-D&PUTADO nDEllAL EU:• 
DIRBTOR DO Buco DO BRAslL. Au'l'oR DOS LIVROS 
~DEsn:lro DO ~ Pcr.ràcJA MUBDJAL", E.Dm>u. 
GRAAL, RJ, 1995, !- "Vl'Vbcu. DE FATOS 11Jsr6mcos", 
/ ................. SI! ..... 
DIARIO DO POVO 
ANO XIX EDIÇÃO 3311 PATO BRANCO, QUINTA-FEIRA, 1° DE JULHO DE 2004 
Brizola, o homem que fez e ~arcou a história brasileira · 1 
Sem Brizola, o Brasil não seria o mesmo. Tive a felicidade de 
acompanhar a luminosa trajetória desse destemido político nas suas 
lutas em favor dos operários, dos pobres e das causas sociais. 
Em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou o gover￾no, o Brasil murchou: ele era o homem cujo símbolo era uma vas-
, soura e que veio para varrer a corrupção, como fizera na prefeitura, 
e no governo de São Paulo. 
Ele era a esperança de um novo Brasil sem corrupção em busca 
de paz e da justiça social. Acabou "morrendo na praia" com esse 
gesto, talvez impensado. Deixou de "passar a limpo" o Brasil de￾pois de receber uma consagradora votação. 
, .·· •. .ij~c,erta oportunidade, pelo ano de 1980, tive a grata satisfa￾çãQ,potocasião de uma visita ao Colégio Paranaense de Curitiba, 
'pé '~fazer sala" ao Ilustre visitante Jânio Quadros e sua esposa, sra. 
Eloá~ Nesse colégio, Jânio fez seus estudos de ginásio e científico 
como interno. Viera matar saudades do velho educandário. Fiz-lhe a 
seguinte pergunte: "Quando de sua renúncia, Vossa Excelência, não 
teve a intenção de ir para o Rio Grande do Sul e voltar nos braços do 
povo, como fez Getúlio Vargas para voltar e transformar o Brasil?" 
Repentinamente, voltou-se para mim com ares de grande sur￾presa (eu era um simples professor de História e Geografia nesse 
famoso colégio, onde haviam estudado, além do ex-presidente, Ney 
Braga, Paulo Pimentel e outros ilustres homens públicos). Não 
saberia objetivar o pensamento do ex-presidente com essa reação.· 
Mas, se a idéia de Jânio fora essa, tudo acabou quando seu · 
"jatinho presidencial" foi detido pelo Exército em Cumbica, rotei￾ro de viagem para o Sul. Ali deve ter acabado seu sonho de fazer 
ampla reforma política, passar a limpo este país e acabar com a 
máquina emperrada do conservadorismo e corrupção que grassava 
em todo Brasil. 
Quem deveria assumir o governo brasileiro, pela Constituição, 
deveria.ser João Goulart, popularmente conhecido como Jango, 
então vice-presidente da República, na época em viagem pela China, 
lá onde o presidente Lula também foi ver os "negócios da China''. 
Jango era fazendeiro e filho "adotivo" de Getúlio Vargas. Aparente￾mente, era um homem calmo e bonachão. 
A classe dominante ~a época o associara às lutas de classes 
aos proletários, "ligas camponesas" e como "líder comunista", 
devido seu populismo. · 
O arauto do anticomunismo fora Carlos Lacerda, que pro￾pagou essa visão esquerdista em relação ao vice-presidente e 
seus amigos. 
Era cunhado de Leonel de Moura Brizola, pois este se casara 
com dona Neuza, irmã do vice-presidente. A renúncia ecoou pelo 
Brasil afora, como um estopim de pólvora. O medo do comunismo 
e mais o sucesso de Fidel Castro em Cuba, associado ao mito de 
Che Guevara, alvoroçaram o Brasil em todos os quadrantes: as 
classes conservadoras e retrógradas, o Exército Brasileiro, cuja ori￾entação era pró-norte-americana, o movimento das mulheres e da 
igreja conservadora levantaram-se numa só voz para impedir a to￾mada de posse do vice-presidente do Brasil, que então se encontra￾va num grande país comunista . 
. Leonel Brizola encarnou o nacionalismo e a legalidade, exigin￾do a tomada de posse de João Goulart, conforme a Constituição. 
Brizola era governador do Rio Grande do Sul, onde obtivera ex￾pressiva votação. 
Sem Exército, sem armamento, usando apenas o microfone das 
rádios Farroupilha e Guaíba, qual gigante impávido, iniciou a "Cam￾panha da Legalidade" pela posse de J ango como sucessor de Jânio 
Quadros. 
Dos porões do Palácio do Piratini, sede do governo dos gaú￾chos, sacudiu o Brasil inteiro e pôs de pé a nação brasileira em favor 
do vice-presidente como o legal substituto do renunciante. 
Brizola dormia junto ao microfone quando vencido pelo sono, 
sem deixar um segundo as emissoras fora do ar, graças aos seus 
correligionários. · 
Conseguiu a adesão de toda a gloriosa Brigada Militar do Rio 
Grande do Sul, e após a adesão do.Terceiro Exército Brasileiro, com 
sede em Porto Alegre, erttão sob o comandó do general Machado 
Lopes. 
Aos· poucos o Brasil inteiro foi se convertendo para a idéia da 
legalidade: Mi,nas Gerais, Pernambuco e outros Estados. Enquanto 
isso, as forças conservadoras que se opunham à posse de Jango 
fortaleciam suas bases. com novas adesões. O Brasil· estava em 
estado de guerra iminente. O nervosismo perpassava toda a alma 
brasileira durante toda a etapa da campanha. 
O Palácio do Piratini foi cercado pelo Terceiro Exército e a 
Brigada Militar para garantia da "Campanha da Legalidade". En￾quanto isso, de Florianópolis, a Força da Aeronáutica ameaçava a 
todo momento bombardear o Palácio do Governo para silenciar a 
voz de Brizola, que estava ameaçando incendiar o Brasil inteiro. 
As ameaças vinham de Brasília e de todos os pontos opostos à 
tomada de posse do vice-presidente. , 
Nessa oportunidade, eu estudava em Porto Alegre. Nessas se￾manas, tivemos a oportunidade de vivenciar um estado de guerra. 
Não podíamos transitar pelo centro de Porto Alegre, pois estava 
prestes a ser bombardeada. ' 
Da capital gaúcha partiram os tanques, os trens, abarrotados de 
armas, militares e caminhões recrutados para o movimento de guet￾ra que estava a.caminho de Brasília. Ouvia-se pelas calçadas da 
capital o choro das famílias cujos filhos estavam partindo para guet￾ra,, e enquanto isso as rádios tocavam marchas de guerra e hinos 
conclamando o povo para a defesa da legalidade. 
Porto Alegre era uma praça de guerra. Ali passando, nossos 
cabelos arrepiavam-se, com a perspectiva de uma guerra e tendo em 
vista que as n<;>ssas famílias residiam no interior do E~tado, também 
passando por temores semelhantes. 
Você sabe como tudo acabou? (segue) 
Genírio Fávéro. 
Professor. filósofo, teó/oao e advogado. 
DIARIO DO POVO 
ANO XIX EDIÇÃ03315 PATO BRANCO, QUARTA-FEIRA, 7 DE JULHO DE 2004 
Brizola, o homem. que fez e ma~co.u a história brasileira - li 
·Por ter sido político e concorrido com o dr. Pedro Ribas 
Mendes à Prefeitura de Palmas, PR, como ano~ei no artigo 
anterior, fui designado pela direção dó CÔlégio :f>aranaense 
para acompanhar o sr. Jânio Quadros em sua visita a esse 
educandário, onde o ex-presidente estudara. 
Talvez seja um dos poucos felizardos contemplado com 
uma saudação de próprio punho do presidente Jânio Qua￾dros, consoante.lemos no quadro abaixo: "ao prof. Fávero, 
com amizade de!. Quadros - 23 - VI-' 80." 
f>... . Assim como tive oportu- · 
.. :/ nidade de acompanhar a tra￾jetória de Jânio Quadros, 
acompanhei, também, a vida 
e obras de Leonel Brizola. 
Com ª·proibição feita 
pelas Forças Armadas, em 
conluio com as elites de en￾tão, vetando a tomada de pos~ 
se João Goulart, a que tinha . t 
direito, com ·a renúncia de 
Jânio, por ser vice-presiden￾te do Bra1>il, a nação brasileira entrou em pé de guerra. 
Brizola, com seu microfone em mãos qual rastilho de pól￾vora, incendiou o Brasil todo com a Campanha da Legali￾dade. ·. . 
Brizola era governador do Rio Grande do Sul. O povo 
gaúcho, a Brigada Militar e o Terceiro Exército, que com￾preende também o Paraná e Santa Catarina, na.época repre￾sentando 50% das Forças Armadas do Brasil, ergueram-se 
altivos em defesa.da legalidade:. JoãoGoulart deveria, con￾forme a Constituição, assumir a Presidência do Brasil, por 
direito e por eleição. 
A trama do Exército e demais forças conservadoras não 
poderia prevalecer sobre o que consta na Constituição Bra￾sileira: o candidato natural, com a renúncia de Jânio, deve￾ria ser João Goulart. Infelizmente, por tradição nunca dele- · 
gada, as Forças Armadas arrogaram a si o direito do antigo 
poder moderador do Império, de serem os árbitros da políti￾ca brasileira. 
O povo brasileiro, por tradição, também acostumara-se 
Genírio João Fávero 
Professor na Faculdade Mater Dei e Cefet. 
Filósofo. teóloao e advogado. 
Assinatura 
Um líder chamado Leonel 
CLOTILDE DE LOURDES BRANCO GERMINIANI . . 
Quem olhar o mapa do Rio.Grande do-Sul ou buscar informações sobre São Borja e 
Carazinh() terá dificuldades para entender que· misteriosos fluidos deram origem, em· 
lugares tão pequenos e aparentemente inexpressivos, a três grandes líderes políticos 
brasileiros do século 20. 
Dr. Getiílio Vargas e Dr. João Goulart eram nascidos 
em São Borja e Dr. Leonel Brizola nasceu em Carazinho, 
mas muito cedo estabeleceu ligações com São Borja. 
Certamente, o passado heróico dos gaúchos e todas as 
suas tradições libertárias influíram na formação desses 
três políticos e na sua inconteste projeção no cenário . politico nacional. . · ._ · · 
O . falecil:nento do Dr. Leonel Brizola mostra . a 
extraordinária importância desse homem. Até meSD;lO 
seus adversários politicos foram aos jornais e Tevês elo￾giar sua atuação; Os pontos altos rui sua perS<>naJidade, 
norteando. toda sua carreira de homem público, foram 
seu amor à liberdade, seu comportamento ético e a seilie￾dade de seus propc)sitos. · . . 
· Ao voltar de 15 anos de exílio disse, em um pron~­
ciamento histórico, retomar à sua tem "gomo cora.Ção . cheio de saudadeS1 mas limpo de ódios." E preciso m'lli￾ta grandeza de alma. paradiieruma frase deSsas e para 
retoman vida sem ressentimentos. Foi esta disposição 
que lhe deu condições de reiniciar sua carreira política 
e atingir postos da maior relevância. No plano pesscl!ll, 
esta, capacidade de esquecer as mágoas deve ter sido 
responsável, em grande parte, por sua longevidade e 
uma longevidade com extraordinária lucidez-privilégio 
de Jl()UCOS. Se ficasse mastigando tristeza.Se arquitetán, 
do vinganças teria se. consumido, deixado de atuar e se 
tomado um homem amargurado e improdutivo. 
Por uma incável coincidêncià, cerca de seis anos 
atrás, tive oportunidade de conversar com Dr. Leonel 
Brizola. Voltava eu de uma reunião no Uruguai e o a.Ca￾so nos reuniu, em um vôo da Varig, no trecho 
Montevidéu-Porto Alegre. O avião tinha duas carreiras 
de três poltronas e não estava lotado. Meu lugar era na 
janela da terceira ou quarta fileira e o Dr. Brizola esta￾va na mesma fileira, do lado oposto, também na janela; · as demais poltronas vizinhas a ele e a mim estavam .· desocupadas. Logo que o aviãolevantou vôo e se esta￾l>filzóu, começou uma romaria com vários_passageirOs, 
em momentos alternados, vindo cumprimentar noSso · ilustre politico. Ele dava atenção a todos, ouvindo; emi￾tindo opiniões ou trocando impressões. Em todos os 
momentos seu sorriso e seu olhar direto traduziam o 
bom humor de um homem em Pa.zconsigo mesmo e coni 
o mundo. Acabei largando a revista de bordo que folh~- . va e entrei na conversa. Cessada a peregrinação <!,os 
demais passageiros mantivemos o diálogo. Deixanios 
nossas poltronas nas janelas e mudamos para jUnto do 
corredor. Um amigo e. colega de meu pai, também meu 
amigo querido, professor na Universidade Federal do Rio 
Grande do Sul, havià me contado que fora professor de 
Leonel Brizola quando este foi aluno (brilhante) de UlJla 
Escola Rural em Vuunão (RS). Foi um ponto de partil:la 
para. uma longa troca de idéias pois ambos tínhariios 
uma admiração incóndicional pelo professor., . · . Os elementos quç me pareceram marcantes ne5se 
,encontro ocasional com Dr. Brizo1a foram suafisionomià 
inteligente, os olhos vivos encarando de frente o interlo- · cutor e sua capacidade de falar com clareza, exprinlindo 
suas opiniões com simplicidade. Falava com o belo sota￾que do Rio Grande, com a pronúncià muito especial e 
musical da letra L. Sua argumeµtação era muito lógica 
e as idéias desfilaYéllll com uma nitidez impressionante. 
Fícou fácil entender de onde vinha seu carisma e por que 
recebeu, em difei:entes ocasiões, uma votação~ 
Dr. Leonel Brizola deixou um exemplo para tQdos os 
brasileiros: foi um homem fiel às suas idéias e ~u 
propagá-las por onde passou. .· · 
Leonel Brizolacresceu no seio de umaJa.mílm pobre, 
tendo ficàdo órfão de pai muito novo, Foi alfabetiza:do . pela: mãe. A seguir foi alun() da escola agricoJa; Em Uni 
·momento seguinté foi para Porto Alegre tendo trabalbâ￾do até como engraxate, mas soube perseguir seus obje-. 
tivos e fez o.curso de Engenharia na Universidade do Rio 
Grande do Sul. Na Faculdade começou a se interessar 
pela política e aí encontrou a paixão que o impulsionou 
por toda a vida. ' 
Como prefeito ·de Porto Alegre, como governador do 
Rio Grande do Sul e do Rio deJaneiro sempre col1struiu 
escolas, talvez lembrando suas próprias-dificuldades 
·para estudar. Foi um idealista e parecia um perso~ 
saído das páginas de Érico Veríssimo: um gaúcho lftm5i￾co disposto e defender seus propc)sitos, Teve a felicidade 
de chegar aos 82 anos acreditando nos seus sonhos e bri￾gando por eles-isto explica seu carisma em um mundo 
dominado pelo imediàtismo e com falta de sonhadores. 
O povo desfilando diante de seu esquife ou acompa￾nhando o cortejo fúnebre mostrou que as sementes plan￾tadas pelo Dr.- Brizola devem ter germinado. Não teve 
medo do tempo: dois diàs antes de morrer estava reuni￾do com alguns çorreligionários traçando planos para o 
futuro. 
· As paradas do cortejo em um Ciep e no Sambódro"; 
mo, duas de suas obras para o povo d.Q Rio deJaneiro, · · 
foram momentos de emoção. Na chegada a Porto 
Alegre, "O laçador", estátua símbolo do Rio Grande, ti-
. nha nas niãos a bandeira do PDT e no peito uma faixa 
de luto. Poucos homens em nossa Histórià terão sido . 
h~os<ie fürmatãó sigtíificativa. . . · Seu corpo descansa elll paz. no ~mitério de São 
J3<jrjâ, mas sua ilnagem vai 8obreviver e sua vida será · · · 
lembrada com respeito quando se-falar na HiStória. 
Política do Brasil no século 20. 
·. _ ,.. Çi.oTD.DB DE Lo1JllDl!S BJlAm:o GBPmwa, 
É l'llOtEssoU ntoL4Jl (~) DA tJFPR, llBllBllO DO 
CEBmo DE LETRAs DO PAllAifA;. DA ACADàiaA P.Au.AD!la DE MEDlc:mAVE'l'Elll1'ÁllJA,.DO bsmoTo ~ lt 
GllOGRÁFICO DO ·PARARÁ E DA ACADEMIA Bvasrr !!l!t• D11 
MimJClllA VET&RlllAJuA. 
·PINGNFQ'GQ:i 
Recriação da 
Sudene 
Átila Lins (PPS-AM) apelou ao 
presidente João Paulo Cunha 
para que coloque em votação, 
até o dia 8 de julho, quando 
deverá iniciar o recesso 
~arlamentar, a proposta de 
recriação da Sudene, já 
aprovada em comissão 
especial. Segundo o deputado, 
se a matéria não for votada 
antes do recesso, dificilmente a 
recriação da instituição 
acontecerá antes do final do 
ano, por causa da àusência 
dos parlamentares envolvidos 
com as eleições municipais. 
Acidente na 
Johnson & Johnson 
Babá (PA) denunciou o 
acidente ocorrido na fábrica 
Johnson & Johnson, em São 
José dos Campos (SP), em 
que três pessoas foram 
queimadas e uma trabalhadora 
da limpeza morreu em 
conseqüência do contato que 
teve com fluídos qulmicos 
liberados pela empresa. Babá 
afirmou ainda que a empresa 
está fazendo uso da Polícia 
Militar para ameaçar os 
trabalhadores e dirigentes 
sindicais do Sindicato dos 
Qulmicos do Vale do Paralba, 
que protestam contra as 
condições de trabalho. Babá 
solicitou audiência com os 
ministros do Trabalho, da 
Saúde e da Justiça para cobrar 
providências com relação aos 
"h11sos oue estão sendo 
Brasília, 25 de junho de 2004 
o 
~ ·<( 
z 
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-' e... 
Devemos aproveitar as oportunidades do 
comércio exterior, negociar o acesso aos mercados dos 
países desenvolvidos e conquistar novos mercados 
Claúdio Magrão avalia alteração 
no processo produtivo 
Ao fazer comentá rios sobre a 
11 ª Reunião Quadrianual da 
Conferência das Nações Unidas 
para o Comércio ,e o Desenvolvi￾mento (Unctad), rea1izada. em 
São Paulo, o deputado Cláudio 
Magrão (PPS-SP) afirmou que o 
momento atual é marcado por 
mudanças no sistema produtivo 
que provocam transformações 
econômicas profundas e significa￾tivas. Para ele, é necessário um 
debate aberto e solidário entre os 
governos dos países membros e a 
sociedad~ civi] ~rganiwda para a 
elaboração de princípios que de￾verão nortear as estratégias das 
Nações Unida; e dos países mem￾bros para os próximos quatro 
anos. ''/\s Nações Unidas e suas 
agências, como a Unctad, consi￾deram a intervenção pública, nos 
países em desenvolvimento, ne￾cessária aos debat,es sobre ques￾tões de crescimento e desenvol￾vimento econômico", disse. 
O parlamentar paulista cha￾mou a atenção para a precariza￾ção do mundo do trabalho que, 
em sua análise,·tem contribuído 
-
para o crescimentb da instabilida￾de dos trabalhadores. Segundo 
Cláudio Magrão, aqueles que es￾tão no mercado de trabalho, com 
medo de perderem seus empregos, 
abrem mão de um convívio famili￾ar para se qualificarem cada vez 
mais. Já a falta de experiência e a 
baixa escolaridade acabam preju￾dicando a entrada dos jovens no 
mercado de trabalho, o que aumen￾ta o desemprego e o desalento. 
''A nova lógica das cadeias 
produtivas introduzidas com a 
internacionalização der proces-
. so.produtivd resultou", nessas 
:'duas últimas décadas, nestas 
értqrrries mudanças no mercado 
de trabalho mundial, em espe-
·•SiáJnq~ países_periféricos, ace-
. •·. lêrándo a defasagem teé!Íológiea 
com rapidez alucinante que en￾curta a vida -útil dos equipamen￾tos e das pessoas", frisouo depu￾tado por São Paulo.:Í\Ja suaqpinião, 
apenas uma forte ação governa￾mental que vise à recuperação da 
taxa de investimento em setores de 
infu.-estrutura pode reverter essa si￾tuação, "Devemos aproveitar as 
qportunidades do comércio exteri￾or, negociar o acesso aos mercados 
dos países desenvolvidos e conquis￾tar novos mercados. Mas, sobretu￾do, precisamos ampliar o mercado 
consumidor interno, permitindo 
que os nossos trabalhadores te￾nham emprego", enfatizou. 
Brasília, 25 de junho de 2004 
Percebi a forma convicta com que lutava por suas idéias, e 
aquilo ficou gravado em minha memória, porque homens 
como ele dão à vida pública outro significado Julio Lopes 
Parlamentares prestam últimas 
homenagens a Leonel Brizola 
O corpo do ex-governador 
do Rio de Janeiro e do Rio 
Grande do Sul, Leonel Brizola, 
foi sepultado ontem no cemité￾rio Jardim da Paz, em São Bor￾ja, a 600 quilômetros da capi￾tal gaúcha, onde também estão 
enterrados sua esposa, Neuza 
Goulart Brizola, e os ex-presi￾dentes João Goulart e Getúlio 
Vargas. Antes do enterro, Bri￾zola foi velado no Palácio do 
Piratini, em Porto Alegre, e 
transladado em avião do gover￾no do estado para São Borja. O 
presidente da Câmara, João 
Paulo Cunha, participou das 
últimas homenagens a Brizola 
no Rio Grande do Sul. 
Na Câmara dos Deputados, 
diversos parlamentares também 
destacaram a vida e as ações do 
ex-governador. O deputado J ulio 
Lopes (PP-RJ) registrou seu agra￾decimento a Leonel Brizola pelo 
significado que teve em sua car￾reira política. O parlamentar dis￾se que, mesmo nunca tendo vo￾tado ou concordado com Brizo￾la, ficou impressionado ao conhe￾cê-lo, durante a campanha para 
governador em 1982. "Percebi a 
forma convicta com que lutava 
por suas idéias, e aquilo ficou gra￾vado em minha memória, por￾que homens como ele dão à vida 
pública outro sienificado", rela￾tou. 
O deputado Costa Ferreira 
(PSC-MA) afirmou que, apesar 
da dor pela perda de um líder 
que conscientizou o País de que 
é necessário lutar para conquis￾tar a soberania, esse luto não 
VICTOR SOARES-ABR 
durará para sempre. "A luta de 
Brizola servirá de exemplo de 
como construir uma pátria res￾peitada", disse. Para o deputa￾do Zé. Lima (PP-PA), o País per￾deu seu legítimo líder trabalhis￾ta. "Muitos podem até se intitu￾lar líderes trabalhistas, mas nem 
o presidente Lula, que carregou 
essa bandeira a vida inteira, de￾monstrou isso claramente na 
prática depois de chegar à Pre￾sidência da República", afirmou. 
•· 
É VIDAI 
Problemas para alcªnçar 
ou manter a ereçao? 
Problemas para controlar 
a ejaculação precoce? 
o Boston Medical Group pode aiudá-lo! 
A Disfunção Erétil (DE} pode afetar homens 
de todas as idades, ainda que a tendência 
mais comum seja atingir homens coin mais de 
40 anos. É correto que, até 52% dos homens 
entre 40 e 70 anos experimentam certo grau 
de (DE) e em torno de 20% destes homens 
não podem ao menos ter uma ereção. 
A Ejaculação Precoce (EP} é definida pelo 
Manual de Estatística e Diagnóstico da 
Associação Médica Ameíicana (D.S.M.) 
como a "ejaculação persistente com minima 
estimulação sexual que ocorre, durante ou 
imediatamente após a penetração, e antes 
que a pessoa deseje". 
A/;)isfunção Erétil e a Ejaculação Precoce 
podem ser tratadas? 
Sim! Qúanto mais rápido forem diagnosticadas 
e tratadas; os resultados serão nitidamente 
melhores. Se não forem tratadas, as opções e 
as probabllidades de êXlto ·serão limitadas. Um 
tratamento Completo e um. diagnóstico rapido 
prévinem a deterioração irreversível que muitas 
vezes encontramos em casos atendidos. 
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ME D l C A l 'GROU p' 
Leonel Brizola 
O Diretório Regional do PDT no Rio 
Grande do Sul.-deputados estaduais e 
federais, prefeitos e vereadores, sur￾preendidos com a matéria publicada 
pela revista VEJA. edição 1 860, de 30 
de junho de. 2004, sob o título "As mor￾tes de Brizola", páginas 52, 53 e 54, de 
autoria de Mario Sabino, lamentam 
com pesar o desrespeito com aquele 
que foi considerado pela maioria da 
imprensa brasileira "o maior líder re￾publicano do século XX". Através de 
um relato preconceituoso e desrespei￾toso com a história brasileira, episó￾dios i.:ontemporfmeos liderados pelo 
ex-governador Leonel Brizola foram 
contados como se fizessem· parte de 
uma anedota, e não das páginas de nos￾sa história. Que VEJA o considerasse 
morto é um fato que não nos causa es￾tranheza; que o escrevenle despreze o 
povo brasileiro e sua reverência aos lí￾deres que souberam honrar sua con￾fiança e a ele dedicaram sua vida, tam￾um dos últimos símbolos do naciona￾lismo latino-americano. 
!Ylmheus Schmidr 
Presidente regional do PDT 
Giovwzi Cherini 
Deputado e líder da bancuda do PDT 
Nereu D'Avilu 
Vereador e presidente do Diretório 
Metropolitano do PDT 
Porto Alegre. RS 
Seguramente não encontrarão paralelo. 
na imprensa séria, imJeperidente e res￾ponsável deste país. as três páginas 
com que VEJA registrou. cm sua edi￾ção de 30 de junho, o dt:sapari:cimemo 
dessa extraordinária personalidade da 
política brasileira que foi Leonel Bri￾zola. Ofensiva, a infoliz reportagem ..! 
um compêndio de inverdades explíci￾tas, ao associar o grande estadista à as￾censão do tráfico de drmrns; um ma- nual de incompreensão histórica, ao 
descrever uma prestigiosa figura inter￾nacional do trabalhismo como um mor￾bém não estra￾nhamos. Ainda 
consternados com 
a perda do nosso 
líder político, es￾peramos que a re￾vista conteste as 
publicações es￾Irangeiras que re￾conheceram a im￾portância de Leo￾nel Brizola para a 
história do Brasil: 
segundo o ameri￾cano New York Ti￾mes, foi "uma das 
figuras mais im￾p~names da polí￾tica brasileira"; 
"o veemente líder 
esquerdista". con￾fo1me o \Vi:1slzi11g￾ron Post; "uma 
Correspondência da semana 
to politkmuenle; 
um breviário de 
agravos, ao defi￾ni-lo como "um 
anacronismo que 
esperneava" . . ··~~~Q1~;1{· .':·'.,; .. ,J;>r.: :r>::)is01 · Vieira du C1111/w 
(PD1:RS) 
Depurado e 
presidente da 
•Cartas 205 
.J'f~i( 
Total 1744 Assembkia 
Legislativa do 
Est:i<lo do Rio 
Grande do Sul 
Assuntos mais comentados 
, •üC>n~l B~izola(· Memória\>> : 74 .· "-"'"·:.e.: .. ;_'.·~...:. ;i._·_.'.·-~'--· : . .'._,,._:: :.-. -•. .,_,_,_. ___ .,,.~..;.._._ -~--·~,__:,.,,_~:,, __ , --·-: Pono Alegre. RS 
t Talento (capa) 45 
Algum dia, al￾guém ainda vui 
~screver um livro 
sobre os homens 
que mais fizeram 
mal ao Brasil. e 
;.f~i~ l.~ff{~()riiê!'.~e ~jst~).;>: \ l~t: 
• DiogoMainardi 31 
)'))~~n.~JtrínaKCA'l'l~r~léls) ,. l4)ii 
das mais carismáticas e polêmicas figu￾ras políticas de esquerda dos últimos 
cinqlienia anos", de acon.lo com o jor￾nal inglês The Cuardian; desraquc para 
a construção do Sambódromo em seu 
primeiro mandato como governador do 
Rio de Janeiro, lembrou o Indepen￾dent: também os jornais franceses Le 
Monde e Libération reconheceram sua 
liderança: "No fim da vida, Leonel Bri￾zola denunciou a traição de seu amigo 
aliado, o presidente Lula. ao se subme￾ter aos ditames do FMI", escreveu o Li￾bération. Para o E! País espanhol, Bri￾zola foi o "velho leão da esquerda radi￾cal brnsileira, um radical apaixonado, 
polêmico e inconformista, sempre ao 
lado dos trabalhadores". O jornal ar￾gentino El C/arí11 disse que Brizola era 
lá certamente cs· 
tará o engenheiro Leonel Brizo!a. Polí-
'tico atra~ado, egocêntrico, xenófobo, 
personalista e populista, ele repeliu 
durante anos várias mcn1iras e criou 
outras. Martelou na menrc de uma po￾pulação que não gosta de (ou não sabe) 
ler vários conceitos errados em econo￾mia, tornou o Brasil pior ao investi￾menlo quando encampou a ITT, jogou 
seu fraco cunhado João Goulan para 
um radicalismo que acabou por tornar 
o golpe milítar inevitável, fez dos mor￾ros do Rio um lugar seguro p<1rn os lra￾ficantes, aliou-se ora com um ora com 
outro, ao sabor de seus interesses. En￾fim, era um bufão, mentiroso. péssimo 
administrador e com a ar!e <le encantar 
os inocentes e incautos. Passa da vida 
para a história e livra o Brasil de sc>us 
j )YWIN.f:>()stonmedi~a!group.com · 
J; .. ;=..·,:,,,·,,c:~;:o.;.;,,;,:;,;;;,:::,;,·,.;;··,L;·,;.C;.;,.,,;.;,;;.,;;.,;.,~~-"""';""''"'''3f<'™'": .. ;.,::~~:.:::1~,~~~''t':::i3íi'W'·o;;iiil'Ol\ii\.C:.>'1;1li(w;,~(;s~I;rl;lffi1''Wlillli"~"'1**'lll0'.f'.\;Tu',l:.;•:;;1;;;•,;ij'P+••i;;;·· 
r·~;-i;~;gÇ~c~.\ 1:-~:·~~~i 
í 1
• ·~·:o/;;1~1.~ki! O'í 1: 
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. ··:~w:n~~t~~r~;~o·Ãdeusr~"~Uf:i~biã~:; ·oradores e cronistas ·.::--_ -.::·::~"--:_;::-,,~'t··.:_::-:'\:.:';:\Jt:,Y ;-,~-:·:>·:-i:<:_ ~:.:~,_;,:_~:·~:._ . .._;",:,_;:: ... ~ , .. , -:.-:, .... ··- -. ,<: ... ~i~~-~·L: :_.-·:~~'~é~ :_,-,?,1;1;;.~- : '''<.,, .. , __ ;._~'.. .. ~·<~·<,.í;.1ij~,~p:i,~t·.-_;::~~ • / _ . 
J9rge Bafoeir;,ócd~~acei,;da1 .. aufor do liYJ.'oi()sidez..Br~is, semp~e<lig~.~~-ll~S·•grandes acontecimentos do nosso País, esteve em São BorJa para ver de perto 
: Q enterr() de Leónél'Brizol;a, O enterrofoi um'detalhéna vida cheià de•aconte'ci.nwnfüs, desafios e preg&ção de de brnsilid'ade do grande líder político, que 
· · .Jorge c,onhtecemuit9,b,r!Il· Pel;a riqu~!i]d~:informações condensadas neste texto, pode-se ver que Jorge poderia, soi'nente com o que ele conhece de 
... ·.·.. · .. ·' ·•· .. · ·· .. · .•.. ,, ,_:. Briiôfa,.escrevér'i.l:iáisumlivro. Vale.apena-ler e reler o que Baleeiro escreveu sobre Leo11al:Brizola. 
',,:Naí)foua}i~t;eibíJ:i;3i;~<ii .ti .· · .. ·· · · r ' · · · ·· ·· · ,, · ;; 
.de viagen~ de' es!uilo pór todd• ~· 
o Bras.il,•1l'ltball;io .de obs\illl'M 
çã<fe fervpr pajrl()t!Çci; âchek 
que, devérla -ir'. 'ao' 'e:n.tei:ro: d~~~- -'. 
Brizola, eiJ\ Sã() Borja, ·obje~ 
tivo que.alcancei com. a,.caro￾na. que me proporçió119u o 
casal. Nfiton P~zzini e .Lour• 
des ... ·. ·.·. . , . · .... e, A míngua de credencial da 
Assemblé.ia Legislativa, assis￾ti ao sepultamento do lado de 
fora do Cemitério Jardim da 
Paz, em São Borja, a 10 me￾tros do túmulo compartilhado 
pelos Goulart-Brizola. Via 
apenas parte do jazigo, mas 
ouvia bem os discursos. A ri~ 
gor. nenhum grande orador 
naquela tarde de 24 de junho, 
quinta-feir~. sem chuva~ que 
pela manhã ameaçava o cor· 
rejo ao campo-santo. 
Enquanto falavam, buscava 
na memória o discurso de 
Oswaldo Aranha à beira da 
sepultura de Getúlio Vargas, 
encimada pelo medalhão do 
general Manoel do Nasci￾mento Vargas, pai de Getú￾lio. Carecia o momento de fi￾guras do talento oratório de 
Aranha para esculpir no bron￾ze dos grandes textos lança￾dos à Rosa dos Ventos, ao Minuano; ao Pampeiro e ao Vento Norte para que as pla￾nuras do Rio Grande do Sul 
pudessem perpetuar as derra￾deiras palavras a Brizola. 
O momento propiciava que 
se cinzelasse um paralelo bio￾gráfico de Getúlio Vargas, 
Jango e Brizola, os três sepul￾tados naquele campo santo, 
relicário da Pátria. Três gaú￾chos. Dois deles fronteiriços: 
Getúlio e Jango, tendo Bri· 
zola, nascido a 300 km dali, 
nos fundos de Carazinho, en￾tão pertencente a Passo Fun￾do, a comunidade de São 
Bento, mais exatamente na 
minúscula Cruzinha. 
Esperei em vão que algum 
orador evocasse a manhã trá￾gica, em que o menino Itagi￾ba testemunhou a mãe Oliva, 
aos berros. gritar: ''Mata.ram 
o Zé'', quando viu a montaria 
em que saíra José Brizola no 
dia anterior aproximar-se da 
casa num passo quase lerdo, o 
cabresto a triscar o chão, os 
aperos frouxos e o câ\ialeiro 
ausente. Não bebia e montava 
bem. Seus gritos assust<l:ram o menino de dois anos que cor￾reu para agarrar-se na irmã 
mais velha. "Não chorei'', 
contou Brizola ao jornalista 
Flávio Tavares, seu amigo de 
décadas. Apavorou-se com os 
gritos da 111ãe, já com 5 filhos, 
a que se somariam mais 6 do 
segundo marido, também vi￾úvo. 
Naquele momento supremo 
de sua tragédia familiar, que 
lhe marcaria indelevelmente o 
destino, dando-lhe força eco￾ragem, obstinação e coerên￾cia, Brizola, por certo, rece￾beu os elementos para tempe￾rar o aço de seu caráter, as fer. 
ramentas de sua pugna, hoje 
postas na panóplia d'armas 
que a nação lhe dedica. O me￾nino ltagiba, que seria Leo￾nel mais tarde, no registro ofi￾cial, recebeu duro golpe da 
vida não entendido pela cri￾ança de dois anos, mas assi￾Enterro de Brizola, dia 24 de junho, em São Borja. 
(Foto de Jorge Baleeiro de Lacerda). Jorge Baleeiro de Lacerda, ao visitar o túmulo de Brizola, 
no dia seguinte ao sepultamento. 
milado pelo instinto do 
"guri" (como dizem os gaú￾chos), corajoso, que não 
chorava exteriormente, mas 
cujo coração começava a 
inundar-se do sangue.aman￾tíssimo da solidariedade aos 
mais pobres, aos despossuí￾dos, aos sem a luz do conhe￾cimento e sem o pão e o lei￾te necessários à existência 
biológica. 
~:;--~--i agora não dedicou um me￾morial. Aliás, Getúlio está na 
sepultura da Família, em que 
a figura de destaque é o ge￾neral Manoel do Nascimen-
. to Vargas, seu pai. Alí tam￾Grande do Sul. Não entende 
o Rio Grande do Sul quem 
não conhece bem a vida na 
Fronteira, daí a grande difi￾culdade de muitos na exege· 
se da biografia de Getúlio 
Vargas. Brizola vivenciou, 
símile modo, esse universo. 
Lembro-me da carta do 
Prefeito de Carazinho, lá pe￾los idos de 33 ou 34, apre￾sentando Brizola ao chefe￾de-estação de Carazinho, no 
afã, de obter-lhe passagem 
de 2' até Porto Alegre. Evo￾co a conversa que entretive ;om Mozart Pereira Soa￾res, amigo fraterno de Bri￾zola, tão familiar a ele que 
lembra-se da gravata que em￾prestou ao jovem estudante. A 
primeira que usara. Vida afora, 
mereceu a estima de Brizola. 
Já aos 80 anos, foi nomeado 
diretor da Bioblioteca Públi￾ca do Rio Grande do Sul (Por￾to Alegre) a pedido do velho 
amigo. Derradeira homenagem 
de Brizola a Mozart. 
Brizola, em sua estância, em São Borja, agosto de 1';)62, aos 40 anos de ídade. 
A coragem com que assumiu 
os desafios da vida, o berço 
pobre, a perda do pai, que 
mudou o seu destino, o amor 
ao Brasil, tudo isso daria ele￾mentos para uma oração fúne￾bre antológica, dessas que a 
posteridade guardaria porque 
nela perpetuar-se-iam momen-
\os singulares da nacionalida￾de como a resistência à Dita--
dura, a luta pela Legalidade, 
em 1961, os muitos momen￾tos em que Brizola veio à na￾ção dizer verdades, aqui e aco- lá havidas" como arcaicas, mas 
jamais rotuladas de insinceras. 
Sua vocação algo caudi￾lhesca, sim1 ninguém a nega. 
Também se lhe acoimava de 
certo apego ao poder. Parado￾xal também é esse suposto cau￾dilhismo porque priorizava a 
Educação, quando esta liber￾ta. Que tipo de caudilho é esse 
que deseja educar, abrir os 
olhos, instruir, aperfeiçoar, 
ampliar a visão dos seus "as￾seclas"? Caudilho que poten￾clnHti\ A~\u llmcelroa pi\ri\ Cl\ .. 
valgadas mais distantes que os 
levam a outros paradeiros na ~·campereada" da existência, 
na "recoluta" do destino? 
Paradoxal Brizola, capaz de 
ser ouvido horas a fio, pelo rá￾dio, como em 1961, sein can￾sar o ouvinte, como lembrou 
Moacyr Scilar, um dos gran￾des escritores deste país; con￾vincente a ponto de prender a. 
atenção de um Roberto Man￾gabeira Unger, professor em 
Harvard, nome reconhecido 
pela Academia no mundo in￾teiro. que disse em notável ar￾tigo à memória de Brizola: 
"Agora estamos todos nós, os 
inconformados, muito sós". 
Unger falava da ''natureza 
moral do indivíduo)>. Brizo￾Ja clamava por um Brasil "sui 
generis", um Brasil brasileiro. 
Talvez lhe faltasse conhecer 
melhor o Norte, mais profun￾damente o Nordeste, Talvez 
precisasse de mais cultura, 
mas sua intuição era cauda￾losa. 
Enquanto acompanhava o 
cortejo, em São Borja, pela rua 
Engenheiro Manoel Luíz Fa￾gundes, ao lado do dr. Viriato 
S. Vargas (sobrinho-neto de 
Getúlio Vargas) perqueria na 
memória os feitos maiores e 
menores dos que, no Cemité￾rio Jardim da paz, a menos 
de 50 metros de distância, lhe 
fariam companhia: Getúlio 
Vurgas, u quem a Nação até 
bém jaz dona Candoca, mãe 
amorosa, figura a quem Ge￾túlio devotava imenso amor 
filial. Com ele repousem Vi￾riato Vargas, Serafim D. 
Vargas e, perto, no jazigo 
dos Goulart·Brizola, repou￾sam João Goulart, simpló￾rio em estratégia política, a 
ponto de até ao meio-dia do 
dia 30 de março de 1964 ig￾norar o que se passava nos 
"Quartéis de Minas'', como 
lembrou, outro dia, Almino 
Affonso. Jango ficou rico no 
escambo de gado. "Já tinha 
100 mil cabeças de boi quan,-
do entrei na política", disse 
em carta a Serafim Dornelles 
Vargas, que li e copiei do ar￾quivo de Viriato S. Vargas. Se 
tivesse seguido "boiadeiro", 
"estancieiro" por certo seria 
um dos homens mais ricos do 
Brasil. AH também dorme o 
sono eterno Vicentina Mar￾ques Goulart, matriarca fron￾teiriça, mulher típica do Rio 
A suposta raiva dos milita￾res a Brizola, logo, logo diluir￾se-á. A análise, o estudo farão 
com que entendam que o na￾cionalismo desse grande polí￾tico se encontra, num ponto 
mais distante, com a discipli￾na, a coerência, a retidão que 
deve acrisolar cada militar para 
que alcance os fins colimados: 
servir à Pátria. 
BrizoJa. como um militar 
sem farda, vestia-se com o 
manto do patriotismo, usava 
as dragonas de fiel escudeiro 
dos bens pátrios quando 
combatia a exploração do 
Brasil. Seus inimigos ampli￾aram seu hipotético ódio aos 
militares, quando seu anseio 
se objetivava na libertação 
do Brasil de seus seculares 
opróbios. 
Elio Gaspari, grande talen￾to do jornalismo brasileiro, 
afirmou em artigo recente sem 
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Ele saiu da vida para 
entrar na história 
Brízola 
confirma 
a escrita: 
brasileiro 
odeia os 
políticos 1nas 
lhes reserva 
funerais 
L
. eonel Br. izola teve, nos fune￾rais, o que lhe fallou em vo￾tos nas últimas vezes em que 
disputou eleições. Na morte, reen￾controu as multidões, os elogios e 
as adesões que cada vez mais lhe 
iam escasseando em vida. Tudo 
lhe refluiu a favor. A personalida￾de autocemrada, que abria pouco 
espaço para o diálogo, virou ape￾nas um lado pitoresco, mais um, 
do conviva encantador. O tédio 
1nemoráveis pelo discurso repetitivo deu lugar 
ao louvor da coerência. E o velho 
chavão de que '·vai fazer falta" foi 
aplicado mesmo por quem, até horas antes, o tinha por 
político ultrapassado, atolado em alguma remota década 
do século passado. Curioso é o povo brasileiro. Odeia po￾líticos, como comprovam as pesquisas de opinião. E no 
entanto devota a eles funerais memoráveis. 
Lembremos de Tancredo Neves. Lembremos de Jus￾celino Kubítschek, acompanhado ao túmulo por coros de 
Peixe Vivo, em plena vigência de uma ditadura que já o 
sepultara em vida. Mesmo João GoLilart foi enterrado 
com surpreendente acompanhamemo, apesar de os mili￾tares terem imposto ao cortejo um roteiro estrito. distan￾ce dos grandes centros. Isso sem esquecer Getúlio Var￾gas, trágico arquiteto da grandiosidade da própria morte. 
para quem se armou um funeral como jamais se vira. Fi￾guras de menor porte, como o ministro Sergio Motia e o 
deputado Luís Eduardo Magalhães, para citar mortos dos 
últimos anos, também mereceram enterros prestigiosos. 
Nessa hora, o povo brasileiro não falta. 
Ou l'alta'? Jânio Quadros não mereceu enterro de ficar 
na lembrança. Dos generais-presidentes nem se fala. Eis￾nos diante da necessidade de uma correção. Não são to￾dos os políticos que merecem funerais consagradores. 
Há uma seleção. No enterro, o político se submete a um 
último veredicto popular. Alguns são aprovados, outros 
não. Claro que para tal julgamento sempre concorre, com 
forte carga emocional. o inesperado da morte, a apanhar 
a vítima em plena atividade. Foi o caso de Brizola. Con￾tribuem com igual carga as agonias prolongadas, que 
convidam a uma maratona de rezas e despertam compai￾xão. Foi o caso de Tancredo. Mas, em paralelo a esses fa￾tores, há, sim, um conteúdo político no enterro dos polí￾ticos. O de JK foi um ato de repúdio ao regime militar. O 
de Tancredo, as honrarias a alguém que encarnava a res￾tauração democrática. Brizola morreu num momento 
Ensaio · 
sem a tensão das ditaduras nem a esperança das auroras 
democráticas. Seu l"unera\, ainda que concorrido e visto￾so, 113.0 tinha o que apontar para a freme. A mensagem 
que continha não era destinada à política. Era à históiia. 
Brizola desempenhou muitos papéis. Foi prefeito de 
Porto Alegre, governador de dois Eswdos. condesrüvel 
de um regime (o de longo) e besrn-fera de outro (o mili￾tar). Nenhúm papel foi tão lembrndo nestes dias. no en￾tanto, quanto o que exerceu em seguid<1 à renúncia Lle 
Jfmio, em 1961, quando liderou a resistência ao golpe 
que pretendia impedir a posse de Jango. Aqueles eram 
tempos em que a trinca de cavalheiros fardados que ocu￾pava os ministérios militares determinava o que podia e 
o que não podia. A junta dos três, detentora de papéis 
tantas vezes lamentáveis, na história do Brasil, decidiu 
na ocasião que o vice-presidente, mesmo legitimamente 
eleito, não assumiria. Brizola entrincheirou-se na rede 
de rádios batizada de Cadeia da Legalidade e neutrali￾zou o golpe - pelo menos, neutralizou-o pela metade, 
uma vez que na outra metade se ofereceu aos d..:scontcn￾les a consolação do parlamentarismo. 
No funeral de Briz.ola, escolheu-se o papel em que :;e 
prefere tê-lo congelado na história. Nada de insísrír no 
mais que duvidoso desempenho como governador do Rio 
de Janeiro, ocasião em que inaugurou a estratégia de man￾ter a polícia afastada cios 111tmos e com isso deu bom im￾pulso à violência e ao caos urbano. EntetTou-se o paladi￾no da legalidade, não o autor de teses como a da prorroga￾ção do mandato do general Figueiredo, ou da defe:>a de 
Ferml!ldo Co\lor. Nada contra. O aro de l 96 l, pelo que te￾ve de coragem e de enfrentamenro da praga golpista que 
tanto assolou o país, pesa mais na balança do que os erros. 
O funeral apontava para a história também em fun￾ção dos cenários e da liturgia que o revesliram. O 'cló￾rio foi no Palácio Guanabara, onde morou Getúlio. O 
cortejo passou pelo Palácio do Catetc, onde Getúlio se 
matou. Por algumas horas. era o Rio de Janeiro de ou￾tros tempos que renascia das cinzas - <i capiwl federal, 
não a simples capital de uma das unidades federativas. 
Em Porto Alegre o esquife pousou no Palácio Piratini. 
que foi reduto de Brizola -·mas também de Getúlio. Ali 
teve música e tradições gaúchas, justa maneira de home￾nagear os retornados, depois da canseira de amarrar os 
cavalos no Obelisco da Avenida Rio Branco. O enterro 
foi em São Borja, no mesmo cemirério onde Getúlio es￾tá enterrado. Em cada um de seus passos, o funeral pres￾tou-se a um ritual de saudade. Até parecia que se enter￾rava o velho outra vez. Vai ver, foi isso mesmo o que, na 
cabeça de muitos, aconteceu. 
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1: L ... . .. . ~26 30 de junho, 2004 veja 
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Caudilhismo, populismo, nacionalismo: as 
idéias e os conceitos em que acreditava o 
político foram sepultados antes dele 
Mario Sabino 
E nquanto o engenheiro Leonel de 
Moura Brizola, líder do PDT, re￾cebia as últimas homenagens fú￾nebres, antes de ser enterrado no 
mesmo cemitério de Getúlio Vargas e 
· João Goulart, em São Borja, no Rio 
Grande do Sul, o presidente Luiz Inácio 
Lula da Silva estava em Nova York, no 
salão do Hotel Waldort-Astoria, falan￾do a uma platéia de investidores e em￾presários americanos. Lula estava ven￾dendo o Brasil - num sentido bem di-. 
ferente do que atribuía a esse verbo o 
gaúcho Leonel Brizola. Na distância 
que separa os dois sentidos, morreram 
três ismos que convulsionaram a histó￾ria brasileira: o caudilhismo, o populis￾mo, o nacionalismo. Todos eles sepulta￾dos bem antes do político que insistia 
em revivê-los - ou melhor, que os 
acreditava vivos. Todos eles sepultados 
pela racionalidade e pela modernidade. 
52 30 de junho, 2004 veja 
Um homem com idéias fora do lugar, 
ou fora de época, tanto faz, era assim o 
Brizola dos últimos dias, dos últimos 
anos, da última década, para falar o mí￾nimo. Um anacronismo que esperneava. 
Mas que isso não manche sua reputação 
pessoal. Brizola sempre esteve muitas 
notas acima das frugais médias de inteli￾gência e honestidade dos seus pares. A 
esse respeito, pode-se pegar emprestada 
uma frase da conservadora Margaret 
Thatcher, ex-primeira-ministra da Ingla￾terra, que comentou assim a morte de 
um líder trabalhista, antípoda seu: "Você 
pode estar totalmente errado em política, 
sem ser um tolo ou um canalha". 
A vivacidade de Brizola está bem 
ilustrada pelas frases corrosivas que di￾rigia a seus adversários (veja quadro). A 
acentuar essa mordacidade, havia a in￾flexão peculiar e os "eles" demasiada￾mente palatais (excessivos até para um 
gaúcho), que muitos brasileiros nasci￾dos nos anos 60 se compraziam em imi-

tar, tão logo se viram diante do Brizola 
recém-tomado ao palco político, depois 
da anistia de 1979. que o tirou do exílio 
no Uruguai. Aliás, para essa geração, 
hoje na faixa dos 40 anos, a volta à nor￾malidade institucional, com debates 
acalorados pela televisão, foi também 
uma sobreposição de sotaques, infle￾xões e vocabulários algo humorísticos. 
Havia Jânio Quadros. Havia Lula (há 
Lula). E havia B1izola. 
Ao m01Ter no último dia 21, ele 
contava 82 anos. Em 1998, aos 76, de￾pois de uma das várias derrotas eleito￾rais que sofreu, Biizola ouviu o conse￾lho para que se retirasse da política. 
"Serei como um cavalo inglês: só vou 
morrer na cancha'', respondeu. A pro￾messa foi cump1ida: antes de sofrer o 
infarto que o mataria, ele se preparava 
para anunciar sua candidatura à prefei￾tura do Rio de Janeiro. Biizola gover￾nou o Rio, o Estado, duas vezes, de 
1983 a 1987 e de 1991 a 1994. Foi no 
Rio, a cidade. que vingou com exube￾rância o adjetivo ··brizolista", um sub￾produto dos ismos citados no p1imeiro 
parágrafo, assim como "getulista" e 
"janguista". Foram biizolistas que vaia￾ram Lula no velório do líder do PDT. 
acusando-o de "traidor". Traidor do 
te-se de um fato inconteste: o alastra￾menta das favelas, inclusive no cartão￾postal da Zona Sul, e a ascensão dos 
traficantes de drogas durante o governo 
de Brizola. Não se trata de coincidên￾cia. O brizolismo nutriu-se diretamente 
dos bolsões de pobreza cariocas, por 
meio de duas medidas: o fim das remo￾ções de favelas e a proibição de que a 
polícia fizesse incursões nos morros fa￾velizados, sob a alegação de que os seus 
habitantes sofriam muito com a violên￾cia policial. Pois os pobres favelados 
deixaram de ser atormentados pela po￾lícia, para penar sob os traficantes. Sem 
repressão. em pouco tempo, os trafican￾tes armaram-se pesadamente e os mor￾ros se transfonnaram em fortalezas. 
Sem ameaça de remoção, as favelas in￾corporaram construções de alvenaiia e 
o 
quê? Dos tais ismos, evidentemente, ~ 
visto que Lula, na Presidência, não é o g 
fu mesmo da campanha de 1998, quando ~ 
tinha Brizola como vice de chapa. O 5 
g presidente perista segue uma política " 
monetária ortodoxa e 
prossegue no projeto 
de abertura econômica 
do país. 
Também no Rio, a 
cidade, floresceu o ad￾jetivo ··antibrizolista". 
O antibrizolista ressen￾Getúlio, entre 
Brizola e sua 
mulher, Neusa: 
o engenheiro. 
considerava-se 
herdeiro do "pai 
dos pobres" '"'' · 
54 30 de junho, 200.+ veja 
Goulart e Brizola, em 1961: 
a "Cadeia da Legalidade" 
garantiu a posse do primeiro 
multiplicaram-se. Quando Brizola assu￾miu o governo, em 1983. havia 377 fa￾velas no Rio de Janeiro - número que 
pulou para 520 ao fim do seu primeiro 
mandato. O brizolismo matou o urba￾nismo, para ganhar a simpatia imediata 
dos humildes. 
Alimentar-se da pobreza significa a 
necessidade de perpetuá-la. Getúlio 
Vargas - de quem Brizola se julgava 
herdeiro, numa linha de sucessão inter￾rompida por seu cunhado, João Goulart 
(herdeiro a contragosto) - era "o pai 
dos pobres". Mas como haveria Getúlio 
de continuar a ser pai se um dia não 
existissem mais pobres'? Tal é o veneno 
do caudilhismo, do populismo, do na￾cionalismo que impede a ventilação 
econômica, ideológica e intelectual. 
Eles são ismos que constituem uma trá￾gica versão latino-americana, ou mais 
precisamente platina, da qual os gaú￾chos receberam os bafejos por obra da 
geografia - uma trágica versão do uni￾versal, literária e politicamente, "é pre￾ciso que tudo mude para continuar co￾mo está". Os caudilhos, os populistas, 
os nacionalistas pregam a mudança, 
mas, para que se conservem, tudo deve 
permanecer como sempre foi. Ou pior, 
como mostra a gestão de Brizola no 
Rio de Janeiro. 
Não que Brizola fosse um cínico (ou 
tolo, ou canalha). Ele morreu 
acreditando piamente no seu 
ideário. Acreditava quando, 
entre 1959 e 1963, governou o 
Rio Grande do Sul, deixando a 
marca do incendiário que en￾campou empresas estrangeiras 
e promoveu invasões de terra. 
Acreditava mais no seu ideá1io 
do que propriamente em de￾mocracia quando, em 196 l, se 
entrincheirou na "Cadeia da 
Legalidade", para garantir a 
posse de João Goulart. depois 
da renúncia de Jânio Quadros. 
E também foi a crença no seu 
ideário que o levou a cometer 
erros descomunais no Rio. 
Leonel Brizolajamais descon￾fiou de que pudesse estar erra￾do. Manteve-se coerente até o 
fim. Numa coerência que se 
transformou em pecado e mor￾te. Morte política. • 
HISTÓRICO DO EX-GOVERNADOR 
LEONEL DE MOURA BRIZOLA 
"Nossos caminhos são pacíficos, 
nossos métodos democráticos, 
mas se nos intentam impedir só 
Deus sabe nossa obstinação." Leonel Brizola 
O MENINO ITAGIBA 
Brizola nasceu em 22 de janeiro de 1922, no povoado de Cruzinha, na época 
distrito de Passo Fundo, hoje município de Carazinho no Rio Grande do Sul. Filho caçula 
de uma família pobre de camponeses, que sequer tinham o título de propriedade da terra 
de que viviam. Seu pai, tropeiro e agricultor, José de Oliveira Brizola e sua mãe, 
professora primária, D. Oniva Moura Brizola, além de quatro irmãos. Não pode conviver 
com seu pai, por conta da guerra civil de 1923. O Rio Grande do Sul daqueles dias, vivia 
mais um conflito entre Ximangos, partidários do Presidente gaúcho Antônio Augusto 
Borges de Medeiros, e os Maragatos, federalistas da Aliança Libertadora, liderados por 
Joaquim Francisco de Assis Brasil. O pai de Brizola, alistou-se no exército maragato, sob 
o comando de Leonel Rocha. A guerra porém, não foi longa, terminando por um acordo 
mediado pelo Ministro da Guerra. Contudo, José Brizola, como camponês humilde, foi 
vítima das represálias que se seguiram, tendo sido aprisionado por tropas do governo, 
foi levado de sua casa para a execução sumária. Em homenagem ao comandante de seu 
pai, o menino Itagiba, passou meses depois a se chamar Leonel. Sua mãe, com cinco 
filhos para criar, tempos depois perdeu a posse daquele pedaço de terra e de sua casa na 
justiça. Com todas as dificuldades, D. Oniva alfabetizou todos os filhos e se casou 
novamente, com um colono, viúvo e pobre, pai de seis filhos. Juntos se mudaram para o 
povoado de São Bento, onde Brizola freqüentou sua primeira escola. Com o casamento 
de sua irmã mais velha, Brizola foi morar em Passo Fundo, onde cursou o segundo ano 
primário e trabalhou como entregador de carnes. Aos dez anos, retornou a Carazinho 
onde para sobreviver e continuar estudando, teve que trabalhar como lavador de pratos, 
engraxate, jornaleiro e bagageiro na estação ferroviária. Em 1933, foi acolhido por um 
pastor metodista, comovido com a vida de luta do garoto. Brizola passou a estudar no 
colégio da Igreja Metodista, concluindo o primário. No exame de admissão ao ginásio, 
Brizola passou em primeiro lugar, e obteve do prefeito de Carazinho, uma carta de 
recomendações ao diretor do Instituto Agrícola de Viamão e uma passagem de trem para 
Porto Alegre, onde chegou em fevereiro de 1936. Nesta época, com 14 anos, sem dinheiro 
para manter-se, trabalhou como trocador e ascensorista. Até 1939, morou na escola, 
quando então foi diplomado como Técnico Rural. Trabalhou numa refinaria em 
Gravataí. Já maior de idade, passou num concurso de fiscal do Ministério da Agricultura, 
mas preferiu ser jardineiro da Prefeitura de Porto Alegre, onde pode fazer o supletivo, 
terminando por ingressar na Escola de Engenharia da Universidade do Rio Grande do 
Sul em 1945. 
NASCE O POLÍTICO 
O Brasil vivia em plena efervescência política no pós-guerra, com o fim do Estado 
Novo, a redemocratização e a reorganização dos partidos políticos. Brizola tendo 
definida uma carreira profissional e num ambiente universitário, viu-se compelido a 
participar efetivamente da política, escolhendo entre os partidos da época o PTB. Junto 
com outros universitários e alguns sindicalistas, Brizola estrutura o primeiro núcleo 
gaúcho do PTB, colaborando ativamente com o PTB no RS. Criou a Mocidade 
Trabalhista, também conhecida como Ala Moça, tornando-se seu primeiro presidente. 
Em janeiro de 1947, veio a coroação, o PTB elegeu sua maior bancada na Assembléia 
Legislativa e Brizola foi um dos Deputados mais votados no Estado. Na Assembléia, se 
opôs contundentemente a cassação de três Deputados Comunistas. Formou-se em 
engenharia em 1949. Casou em março de 1950, com D. Neusa Goulart, sua companheira 
de vida, irmã do então futuro presidente João Goulart, tendo como padrinho de 
casamento Getúlio Vargas. Com D. Neusa, teve três filhos. Se reelegeu como o Deputado 
Trabalhista mais votado, assumindo a liderança da bancada. Concorreu à Prefeitura de 
Porto Alegre em 1951, perdendo a eleição por poucos votos. Aprendeu a lição. Em 1952, 
tornou-se Secretário de Obras do Governo Trabalhista do Estado, se destacando no 
cargo, a ponto de em 1954, logo após o suicídio de Getúlio Vargas, ser eleito Deputado 
Federal com mais de 100 mil votos. Em 1955, novamente tentou a Prefeitura de Porto 
Alegre, obtendo uma consagradora vitória, com 65% dos votos, usando o lema 
"Nenhuma criança sem escola". Diante do sucesso de sua gestão como Prefeito, Brizola é 
novamente consagrado em 1958, na disputa do Governo Estadual. Obtém 55% dos votos, 
vencendo em 90% dos municípios gaúchos. 
O GOVERNADOR BRIZOLA 
Iniciava-se o ano de 1959 e Brizola entrava no Palácio Piratini para fazer História, 
efetivando sua bandeira de educação popular e desenvolvimento econômico, proposta na 
campanha. Criou a Caixa Econômica Estadual e, junto aos Governadores de SC e PR, 
criou o Banco Regional de Desenvolvimento Econômico (BRDE), priorizando os 
investimentos na infra-estrutura do Estado, Educação e Reforma Agrária. No seu 
governo, Brizola construiu 6.302 Escolas, admitindo mais de 40 mil professores e 
abrindo cerca de 700 mil matrículas. Brizola foi pioneiro na Reforma Agrária no Brasil, 
desapropriando vastas áreas de terras improdutivas e criando o Instituto de Reforma 
Agrária, entregando 14.000 títulos de propriedade a colonos sem-terra. Todos os 
assentamentos, foram acompanhados de projetos de infra-estrutura sócio-econômica, 
para fixar aquelas comunidades, motivando o sucesso de sua iniciativa. 
A ENCAMPAÇÃO DAS MULTINACIONAIS 
Apesar de todas as realizações, o governo de Brizola ficou marcado na História, 
pelos episódios das encampações das multinacionais companhias prestadoras de 
serviços de luz e telefone. A Companhia de Energia Elétrica Rio-grandense era filial da 
Bond and Share, subsidiária da American and Foreign Power Company (Amforp). O 
governador Brizola tentou inúmeras vezes, negociar com a empresa novos investimentos 
no setor, diante do crescente déficit de qualidade dos serviços. Diante da intransigência, 
Brizola com amparo na legislação vigente, fez as contas e verificou que o Estado devia 
pagar a Bond and Share para sua encampação, não mais que um cruzeiro. E foi o que fez 
em 13 de maio de 1959, recebendo a imissão de posse pelo Poder Judiciário. Fato inédito 
no mundo, teve ampla repercussão internacional, com enormes pressões vindas de 
Washington. Mesmo assim, Brizola não se furtou de repetir o feito em 1962, 
encampando a Companhia Telefônica Rio-grandense, filial da International Telephone 
and Telegraph, a poderosa ITT. Situação similar, após dois anos de tentativas de 
negociação infrutíferas, o governador Brizola expropriou a empresa, pelo valor avaliado. 
O governo americano, na época do Presidente Kennedy protestou contra o ato, que 
novamente ganhou projeção internacional. Brizola foi tachado como "esquerdista 
agressivo", "radical" e até "comunista". No entanto, agiu na defesa do interesse público 
de seu povo, não por questão ideológica. Mas estes episódios, além de ter-lhe dado 
notoriedade internacional, fez com que se solidificasse suas convicções nacionalistas, 
aprofundando suas posições em defesa de nosso País. 
A REDE DA LEGALIDADE 
No entanto, ainda em 1961, um fato marcou Brizola na História do Brasil, como 
um líder de resistência, coerência e coragem: a Campanha da Legalidade. No dia 25 de 
agosto de 1961, o Presidente Jânio Quadros renunciou, para surpresa da nação, com uma 
enigmática justificativa de "forças ocultas". O Vice-Presidente João Goulart, encontrava￾se fora do País em viagem oficial à China comunista, de forma que a presidência foi 
assumida interinamente pelo Presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli. No 
entanto, os três ministros militares, da ala mais reacionária, reagiram contra a solução 
Constitucional, contrários a posse de João Goulart, a quem acusavam de comunista. 
Seria um golpe militar disfarçado, antecipando a ditadura que acabou por se estabelecer 
em 1964. Brizola como Governador do Rio Grande do Sul, requisitou uma rádio e 
formou a chamada "Rede" ou "Cadeia da Legalidade", mobilizando outras 104 rádios do 
RS, SC e PR, no esforço de denunciar o golpe dos militares e defender a Ordem 
Constitucional, garantindo a posse de João Goulart. O governo gaúcho distribuiu 
armamentos aos populares voluntários, que atendendo ao chamado de Brizola, vieram 
aos milhares lutar em defesa da legalidade. Brizola permaneceu por toda a crise, no 
Palácio Piratini, que foi cercado por barricadas e defendido pela Brigada Militar do RS e 
voluntários do povo. O comando militar em Brasília, deu ordens expressas para o 
comandante do III Exército, General Machado Lopes, marchar com todas as forças 
necessárias sobre o Palácio Piratini e silenciar Brizola, que discursava para a nação 
diariamente. A Força Aérea recebeu ordens para bombardear o Palácio Piratini se 
necessário. No dia 28 de agosto de 1961, diante da extrema gravidade da crise, Brizola 
fez o seu mais famoso e dramático pronunciamento, que ficou registrado para sempre 
em nossa História: 
O DISCURSO DA LEGALIDADE. 
Após este pronunciamento, Brizola recebeu o General Machado Lopes, que 
comunicou que todos os generais do III Exército, haviam decidido lutar pela Ordem 
Constitucional, não aceitando as ordens de Brasília. A decisão foi imediatamente 
transmitida por Brizola para a multidão de mais de 100 mil pessoas que se 
concentravam diante do Palácio Piratini. Com o apoio do III Exército a Campanha da 
Legalidade levantou o País e João Goulart pode, enfim, entrar no Brasil, chegando a 
Porto Alegre, via Montevidéu em 1° de Setembro de 1961. Inobstante as ameaças de 
confronto com o II Exército de S. Paulo e ataque da Marinha de Guerra, Brizola com o 
apoio do III Exército, já se propunha a avançar as tropas para Brasília, a fim de 
assegurar a posse do Presidente. Contudo, João Goulart preferiu aceitar o 
parlamentarismo, negociado como alternativa a Guerra Civil, tomando posse como 
Presidente em Brasília no dia 7 de setembro de 1961. A Campanha da Legalidade, 
dignifica as páginas de nossa História, como um dos maiores exemplos de coerência e 
coragem de um líder e vitória da luta democrática popular. 
O EXÍLIO 
Em outubro de 1962, Brizola é eleito o Deputado Federal mais votado no País -
269 mil - pelo antigo Estado da Guanabara. Brizola no Congresso, comandava a 
esquerda nacionalista, combatendo incessantemente o imperialismo norte-americano, 
defendendo o controle do capital estrangeiro e uma revisão completa nas relações com 
os EUA. Passa então a lutar pelas Reformas de Base, como meio para superação do 
subdesenvolvimento brasileiro, criando a Frente de Mobilização Popular. Diante da 
hesitação do governo Jango, Brizola é forçado a se opor ao cunhado. Diante do fracasso 
de sua política econômica, da insatisfação dos latifundiários e da Rebelião dos Sargentos 
(1963), o governo de João Goulart, começou a ser ameaçado pela direita golpista. Sem 
apoio popular, Jango decide finalmente em 1964, a iniciar as Reformas de Base, 
convocando um comício na Central do Brasil, Rio de Janeiro, para a assinatura de dois 
decretos, um da Reforma Agrária e outro da Encampação de refinarias de petróleo. No 
entanto, era tarde demais, os conspiradores já fortalecidos, mobilizam a opinião pública, 
com apoio da imprensa e da igreja, atingindo os quartéis, aguardando apenas a ordem da 
Casa Branca. No final de março de 1964, o Departamento de Estado americano acusa 
João Goulart de tolerar a infiltração comunista no governo, levando os jornais 
americanos a pedirem por um golpe, era o sinal que faltava para o golpe. Na manhã de 
31 de março, o governador de Minas Magalhães Pinto e o General Mourão Filho, dão 
início ao golpe militar, que jogou o país na mais longa ditadura militar das Américas. 
Brizola ainda tento reeditar a resistência no Rio Grande do Sul, mas a situação mudara e 
Jango preferiu não resistir. Brizola saiu do País em maio, iniciando o mais longo exílio 
de um político brasileiro na História. No exílio Brizola passou longos 15 anos, onde 
apesar das vicissitudes, pode incrementar seus conhecimentos políticos e contatos 
internacionais, que lhe valeram o reconhecimento mundial como estadista, obtendo 
apoio de importantes líderes da esquerda européia a causa da redemocratização no 
Brasil. Em 1979 em Lisboa, organizou com o apoio de Mário Soares, líder socialista 
português, um Encontro de Trabalhistas, reunindo diversos oposicionistas no exílio, de 
onde foi elaborada a Carta de Lisboa, documento programático para reorganização do 
PTB no Brasil, pedra fundamental do ideário pedetista. 
A VOLTA E A VITÓRIA 
Com a anistia em agosto de 1979, Brizola retornou ao Brasil em 6 de setembro, 
fixando residência no Rio de Janeiro. Trabalhou intensamente para reorganizar o PTB, 
porém com uma manobra sórdida do governo militar, um grupo político conseguiu no 
TSE, tomar a sigla de Brizola. Nascia meses depois o PDT - Partido Democrático 
Trabalhista. Já na primeira eleição que participou, Brizola obteve a vitória para o 
governo do Rio de Janeiro, tendo o saudoso Professor Darcy Ribeiro como vice, apesar 
da frustrada tentativa de fraude eleitoral. Pela primeira vez, em décadas, o povo do Rio 
de Janeiro tinha um governo voltado para os mais desassistidos, priorizando a educação 
como base fundamental de uma sociedade justa, implantando o revolucionário 
programa dos CIEPS (Centro Integrado de Educação Pública), popularmente conhecidos 
como "brizolões". E assim, foram dois governos, marcados por uma visão social ímpar e 
por realizações no interesse das classes mais baixas, que acarretaram a mais vil e 
gigantesca campanha dos setores conservadores de nossa elite dominante. E tantas 
foram as "mortes" de Brizola, anunciadas com alardes pelas elites dominantes, através 
dos meios de comunicação monopolizados. E tantas foram as traições sofridas, por 
indivíduos que se venderam ao poderio econômico nacional e estrangeiro, traindo na 
verdade o seu próprio povo. Como disse certa vez Luiz Carlos Prestes, a classe 
dominante jamais vai perdoar Brizola, porque ele fez o que ninguém fez, e o que ela mais 
abomina e teme: dividiu a terra e distribuiu armas ao povo. No entanto a legenda deste 
homem, nosso líder maior, construída neste último meio século, onde nossa História foi 
escrita muitas vezes com o sacrifício de nosso povo, é um referencial vivo para as 
gerações presentes e futuras. Um homem: Leonel de Moura Brizola. Uma legenda: 
Coerência e Coragem. 
LEONEL DE MOURA BRIZOLA, ex-governador do Rio de Janeiro e Presidente 
Nacional do PDT, faleceu na noite de segunda-feira, dia 21 de junho de 2004, no Rio de 
Janeiro. Ele morreu às 21h29 vítima de infarto decorrente de complicações infecciosas. 
O ex-governador estava internado desde a tarde de segunda-feira no Hospital São Lucas, 
em Copacabana, na zona sul do Rio. 
Pela sua história, por ter sido um líder e estadista que marcou o nosso País 
com sua trajetória de lutas e realizações, pela sua coerência e coragem, por ter sido o 
idealizador do CAIC (antigo CIEP, que passou a se denominar CIAC e por último CAIC). 
Também pela sua amizade e amor com que tratava todas as pessoas que conviveram com 
ele, nada mais justo que denominarmos o estádio de futebol de nossa cidade com seu 
ilustre e inconfundível nome, que permanecerá para sempre em nossas mentes: 
LEONEL DE MOURA BRIZOLA. 
Pato Branco, 
23 de junho de 2004 
•Esta ediçAo contém 28 páginas. DIARIO DO POVO 
IBrizola 
Lideranças lembram a personalidade e a autenticidade do político 
O Brasil perdeu, na última segunda-fei￾ra, um dos líderes políticos mais expressi￾vos dos últimos anos. O presidente nacional 
do Partido Democrático Trabalhista (PDT), 
Leonel de Moura Brizola, não resistiu a uma 
parada cardíaca e faleceu às 21h29min, aos 
82 anos de idade. 
"Hoje de madrugada chorei ao ouvir o 
hino da Legalidade, pela rádio Gaúcha de 
Porto Alegre: 'Avante brasileiros de pé/ Uni￾dos pela liberdade/ Marchemos todos jun￾tos de pé/ Com a bandeira que prega a igual￾dade/ Protesta contra o tirano/ Se recusa à 
traição/ Que um povo só é bem grande/ Se 
for livre como a Nação', pois, gostem ou não 
do Brizola, é uma figura que vai ficar na 
história de filhos e netos do Rio Grande e de 
todo o país", disse Vítor Hugo Ribeiro, filiado 
há mais de 20 anos ao PDT. 
•Vítor Hugo Ribeiro, filiado ao PDT há mais de 
20 anos 
Muito embora nunca tenha militado no 
partido do ex-governador Leonel Brizola, é 
pública a simpatia que o deputado estadual 
Nereu Moura (PMDB) sempre nutriu pelo 
presidente de honra do PDT nacional. O 
parlamentar lamentou a morte de quem clas￾sificou "como uma das principais lideran￾ças políticas da história contemporânea 
brasileira". 
• Deputado estadual Nereu Moura (PMDB) 
•Centro de 
Atendimento 
Integrado à 
Criança 
(Caie) 
Segundo Zucchi, Brizola foi um gran￾de mestre e ele sempre se inspirou na sua 
trajetória política de honestidade e com￾prometimento com o povo brasileiro. "To￾dos aprendemos com seu grande trabalho 
em prol do Brasil, seja quando exercia o 
Poder Executivo, como governador, ou 
quando defendia nosso país, sendo um dos . 
seus grandes líderes políticos e defensor 
da soberania nacional", acrescentou 
Zucchi. 
"As grandes conquistas das classes tra￾balhadoras tiveram a luta e o esforço políti￾co de Brizola, que com suas convicções foi 
um símbolo de resistência do país. Sua mor￾te deixa uma grande lacuna na política, e 
ele merece ser reverenciado pelo povo bra￾sileiro", concluiu Zucchi. 
Um homem insubstituível, assim se pro￾nunciou o senador Osmar Dias, presidente 
do PDT do Paraná. "Mais do que uma figura 
política, Leonel Brizola foi uma das gran￾des figuras históricas do Brasil. Um homem 
que deixa como herança ao país o exemplo 
de uma conduta moral e ética, o discurso da 
coerência e da responsabilidade", enfatizou 
Dias. 
• Senador Osmar Dias, presidente do PDT do 
Paraná 
"Sempre fui eleitor do Brizola. Sempre 
gostei da sua atuação política ligada à edu￾cação, que no Rio Grande do Sul construiu 
mais de4.000 escolas em um áno. Seu perfil · 
era naciónalista, queria maior distribuição 
de renda no. país, era contra a exploração 
internacional e contra a remessa de lucro ao 
exterior. Uma frase de Brizola que guardo 
com carinho é 'o rico deveria ser menos rico, 
pois ainda assim continuaria rico, mas o 
pobre deixaria de ser pobre'. Eu, Jacinto 
Simões e Torquato Berto! fundamos o PDT 
em Pato Branco, quando ele voltou do exí￾lio, porque simpatizávamos com os ideais 
de Brizola", salientou Alberto Pozza, um dos 
fundadores do PDT em Pato Branco. 
' lideranças carismáticas e respeitadas, "não 
foi apenas o PDT que perdeu, mas o Brasil 
como um todo". Para Nereu Moura deixou a 
cena política e a vida real "um político com 
sotaque gaúcho e alma brasileira". 
Segundo Clemair Berto!, coordenadora 
pedagógica do Centro Estadual de Eduéa￾ção Básica para Jovens e Adultos (Ceebja), 
Brizola acreditava que "a criança deveria 
ser educada desde o ventre matemo, por isso 
criou o Centro Integrado de Educação Pú￾blica (Ciep) no Rio de Janeiro, que atendia 
a família, com atenção especial à gestante, 
dando suporte à criança até o Ensino Funda￾mental. Um exemplo de Ciep, em Pato Bran￾co; é o Centro deAtendimento Integrado à 
Criança (Caie), no bairro Planalto, criado 
com o mesmo objetivo de Brizola, no go￾verno Collor", conciuiu Clemair. 
• Deputado estadual Augustinho Zucchi (PDT) 
"O Brasi.I perde seu maior líder traba￾lhista e o PDT um grande comandante. 
Estamos muito tristes com essa perda'', la￾mentou Augustinho Zucchi, deputado esta￾dual pelo PDT. 
Na opinião de Nereu Moura, o faleci￾mento do ex-governador gaúcho e carioca 
abre uma lacuna entre os grandes líderes 
nacionais. "Na verdade, Brizola foi um ícone 
da vida pública brasileira, sabendo criar fa-
. tos para o debate·político", destacou. 
"Brizola soube como ninguém defen￾der com convicção os seus ideais", comen￾tou o deputado peemedebista, afirmando · 
ainda aue. num auadro volítico carente de 
VidapoHUca 
1;3rizola nasceu no povo￾ado de Cruzinha, antes per￾tencente ao município de Pas￾so Fundo e hoje a Carazinho, 
no Rio Grande do Sul. Estu￾dante de Engenharia, ingres￾sou no recém-fundado Parti￾do Trabalhista Brasileiro 
(PTB), em agosto de 1945, 
para apoiar a política social 
de Getúlio Vargas. Era um 
universitário atípico, uma vez 
que a maioria de seus cole- -
gas era · comunista ou 
udenista. Provavelmente, 
porque ele vinha de uma vida 
dura, infância pobre, traba￾lhando para estudar, que o identificava com a classe trabalhadora. Atípico, não 
aderia aos ideais das elites e até se orgulhava de sua origem popular. 
Seu primeiro cargo eletivo foi de deputado estadual, no Rio Grande do Sul, em 
1947. Em 1954, foi eleito deputado federal. No ano seguinte, tornou-se prefeito.de 
Porto Alegre. Etn 1958, governador do Estado. No ano de 1962, foi o deputado 
federal mais votado do país pelo antigo Estado da Guanabara, com 269 mil votos. 
Com o regime militar, em 1964, exilou~se no Uruguai, retomando ao país em 1979 
com a anistia. Foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982 e 1990. Disputou 
duas eleições presidenciais, eni 1989 e 1994, perdendo ambas. 
Na missa de 7º Dia, o Hino da Independência 
A missa de 7° Dia realizada 
segunda-feira 28/6, na Igreja da 
Candelária, no Centro do Rio de 
Janeiro, ficou lotada de amigos, 
correligionários e admiradores de 
Brizola, além de familiares. Os ora￾dores, ao final da missa, foram: 
Carlos Lupi, Neuzinha Brizola, 
Carlito Brizola e Beth Carvalho, 
que encerrou a solenidade can￾tando, com todos os presentes, 
o Hino da Independência- o pre￾ferido de Brizola que frisava sem￾pre o refrão "ou ficar a pátria li￾vre, ou morrer pelo Brasil". 
Lupi, o primeiro orador, des￾Beth Carvalho: "Ou ficar aPátria 
livre, ou morrer pelo Brasil" 
tacou que era um momento de 
muita dor, que o PDT estava de 
luto. Mas garantiu que enquan￾to houver uma criança abando￾nada, uma criança fora da es￾cola, o menino de Carazinho, 
do interior do Rio Grande do 
Sul, Leonel de Moura Brizola, 
continuará vivo porque o lega￾do que Brizola deixa é o de luta 
contra as injustiças e pela so￾berania do Brasil. Destacou 
também que o PDT vai conti￾nuar, como continuou o velho 
PTB de Getúlio Vargas. 
Lupi citou a trajetória de 
vida de Brizola, de menino po￾bre que teve que trabalhar e 
estudar, que se libertou através 
da educação - pela qual lutou a 
vida inteira para que outros me￾ninos pobres, como ele, ascen￾dessem na sociedade. Citou a 
vida dele no exílio, o brasileiro 
que recebeu maior numero de 
condenações - um brasileiro 
injustiçado. Lupi encerrou, di￾zendo que Brizola vive, e vive￾rá para sempre, enquanto hou￾ver no Brasil crianças pobres 
abandonadas e fora da escola. 
Neusinha, em nome da fa￾mília, agradeceu as demonstra￾ções de carinho do povo do Rio 
de Janeiro, de Porto Alegre e 
de São Borja - e no Brasil intei￾ro - ao seu pai. "Isto muito me 
comoveu, está servindo de con￾solo nessa hora ddificil". Carlito 
Brizola, terceiro orador, falou 
também em nome da família. 
Agradeceu a todos os presen￾tes, ao imenso numero de ami￾gos que seu avô tinha e esta￾vam presentes. Carlito assina￾lou que partiu o homem Leonel 
Brizola, mas ficaram aqui suas 
idéias, sua obra - um homem 
que ao longo de 60 anos de vida 
pública lutou com coerência e 
perseverança pelos seus ideais. 
Beth Carvalho, ao encerrar, fez 
questão de dizer que estava fa￾zendo aquela homenagem "a este 
homem tão importante para nos￾so país, que é Leonel Brizola". Em 
seguida, com todos os presentes, 
cantou o Hino da Independência. 
Conselho Político indica Nilo 
para a Prefeitura do Rio 
Fidel lamenta 
O Presidente de C11ba, Comandante Fidel Castro R11z, 
envio11 carta ao Vice-Presidente do PDT, Carlos L11pt, 
lamentando a morte de Brizola. Datad11 de 22 junho de 
2004, Fidel 11.firma na carta: O Conselho Político do PDT, 
reunido na última segunda-foira, dia 28 de junho, decidiu indicar o ex￾Governador Nilo Batista como pré￾candidato a Prefeito no Município 
do Rio de Janeiro-seguindo a dire￾triz traçada pelo Diretório Nacio￾nal do PDT de candidatura própria - em sua primeira reunião sem a 
presença de Leonel Brizola. O de￾putado Paulo Ramos deverá ser o 
candidato a Vice-Prefeito. 
O presidente do PDT, Carlos 
Lupi, ao final da reunião, garantiu 
que "Nilo Batista é candidato para 
- ···anhar as eleições no Rio de Janei￾J". A um repórter que perguntou 
s~ tinha pesado na decisão do Con￾selho a decisão anterior de Brizola 
de escolher Nilo Batista como can￾didato, Lupi respondeu: -O que pesou foi a decisão de 
consenso. Nosso partido está uni￾do e nesse a união é a nossa força. 
Temos um legado a defender - o 
legado que Brizola nos deixou - le￾gado que estará mais vivo do que 
nunca nesta campanha eleitoral. 
Segundo Lupi, nesta campanha 
o PDT vai denunciar imposrnres, os 
que acabaram com o projeto dos 
Cieps, carro-chefo do PDT, "único 
caminho para a redenção de nossas 
crianças, através da Educação. Des￾tacou também que o PDT. nesta 
campanha eleitoral, .. vai reviver 
na memória do Rio de Janeiro o 
grande homem público que foi 
Leonel Brizola". 
Ao ser perguntado quem seriam 
esses impostores, Lupi disse: "Mui￾tos que choraram lágrimas de croco￾dilo no enterro de Leonel Brizola". 
Com profunda consternação soubemos do falecimento do 
profundo amigo de Cuba, Leonel de Moura Brizola, incansável 
e histórico lutador das causas de interesse do povo brasileiro. 
Brizola, que desde muito jovem se destacou por suas firmes 
posições nacionalistas, foi sem duvida um dos precursores do 
avanço político e democrático, tanto no âmbito interno como 
na política externa praticada atualmente no Brasil. 
Nestes tempos difíceis que a Humanidade enfrenta na atua￾lidade, Brizola será referência obrigatória para os lutadores na￾cionalístas e anti-imperialistas. 
Sempre lembraremos a hospitalidade com que nos recebeu 
em sua residência do Rio de Janeiro em março de 1990 e da 
visita que realizou a Cuba em maio de 1991, como manifesta￾ção dos laços de amizade e solidariedade que teve sempre 
com nosso povo. 
Faço extensivas minhas condolências, ante tão irreparável 
perda ao povo brasileiro, ao Partido Democrático Trabalhista, a 
seus familiares, aos companheiros e amigos. 
Fraternalmente, 
Fidel Castro Ruz 
JORNALP'·D' :,., .. ' -.. ' COMISSÃO EXECUTIVAREGIONAL￾Do i , . , 1 Leonel Brizola (Presidente de Honra), 
===::-==-=""-'· ..._ ... !..""--· ""' -.' Carlos Lupi (Presidente), Paulo Ramos (1° 
JORNAL DO PDT -
Editor: Osvaldo Maneschy 
Chefe de Reportagem: Max Mon￾jardim - Colaboração: Katiuscia de 
Oliveira, Angela Rocha, Ismael Lis￾boa, Maria Helena, Rafael Galvão, 
Antonio Oséas e Apio Gomes. 
Correspondência: Jornal do PDT • 
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Centro - RJ - CEP 20050-002 - -
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(Consultora Jurídica) e Osvaldo Maneschy 
(Fundação Alberto Pasqualiní-RJ). 
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!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!W 
Brizola Vive 
Porque ele estará sempre entre nós como guia e mestre 
Pedro Porfírio 
A poucas pessoas o desti￾no reveste do verniz da imorta￾lidade. São raras, mas de tal es- sência que permanecem vivas 
e influentes mesmo depois da 
missa do sétimo dia. E são tão 
presentes que trazem a arma- dura dos invictos desde os pri￾meiros embates, mesmo quan￾do aparentemente derrotadas. 
Tanto que nenhum poderoso, 
seja o chefe de governo ou de 
uma grande corporação, faz 
qualquer coisa sem procurar 
saber antes que repercussão te￾rão seus atos sobre esses pró￾ceres, emblemas legítimos de uma eterna mitologia. 
Tenho neste momento a 
sensação de que estou ouvin￾do no sopro dos ventos sere￾nos a voz do homem que atra- vessou todas as praceias sem 
abrir mão, um só minuto, da 
dignidade dos intimoratos. 
Havia trocado idéias com ele, 
por telefone, pouco antes de re- tomar de Montevidéu. Achava￾se acometido por tuna gripe difo￾rente, a gripe dos octogenários. 
Mas falava como se estivesse ao meu lado, muito mais infonnado 
dos caminhos e descaminhos do nosso país e até dos nossos re￾cantos. Só o acometia a dúvida, 
sina que, de quando em vez, não 
poupa nem os mais sábios. 
Hoje, depois de admirar a feérica despedida entre lágrimas 
dos que lhe foram fiéis de perto e de longe, sobretudo os anôni￾mos por natureza mais sinceros, 
depois de ver a legião de ingra￾tos reverenciá-lo como se ne￾nhum mal lhe houvesse causa￾do, depois de contemplar o des￾file de celebridades desses dias 
desérticos de homens de verda￾de, com suas frases ensaiadas e 
seus lamentos de encomenda, 
vejo quão vivo está aquele que 
mais iníluenciou nesse n1eio sé￾culo pretérito, mesmo quando al￾vejado pela máquina mortífera 
dos senhores da mídia. 
Vejo e sinto. Nada me con- vence que sua passagem de 
um estágio para outro na sua 
saga imortalizada vai tirá-lo de 
cena. Antes, talvez, a partir de 
agora, ele estará mais presente 
do que nunca, mais influente 
e, porque não dizer, mais temi￾do pela súcia dos podres po￾deres. Pela força intrínseca que 
as alimentavam, suas palavras 
o vento fazia chegar aos in￾conscientes das multidões, di￾luindo-as em seus recônditos 
para um dia, quando for a hora, 
exprimir-se no uníssono clamor 
da grande rebelião. 
Ninguém poderá negar. 
Nada que ele disse, nada que 
ele fez perdeu-se nos campos 
por ora estéreis de uma nação 
subliminarmente ocupada por 
invasores frios e calculistas. 
Assim como se atribui a Sólon, 
um dos sete sábios da Grécia, o embrião da primeira constitui￾ção ocidental, pode-se dizer 
que a síntese dos seus sessen- ta anos passados entre nós é a 
essência de um novo ideário, 
cujo escopo traduz os mesmos 
anelos dos mais consagrados 
filósofos e pensadores - não há 
felicidade humana enquanto 
cultivarem como condição da ti￾rania econômica a injustiça so- cial cada vez mais perversa. 
Agora, ironicamente, vai 
ser mais fácil assimilar suas 
obsessões patrióticas, sua defesa intransigente dos opri￾midos. Suas falas e suas me￾táforas serão rememoradas em 
prosa e versos sem os óbices 
mesquinhos de todos os que, 
da .. direita" à "esquerda", da￾qui e dalém mar, o temiam capi￾taneando uma nação que em 
suas mãos teria enfrentado 
com coragem e altivez os erros 
que a tomaram presa tãceis da 
cobiça internacional. 
Ao contrário do canto das 
cassandras, sua imortalidade se irradiará como uma onda má￾gica e envolvente, disponibili￾zando ferramentas jamais ima￾ginadas, tal como, um dia, em 
outras circunstâncias e num 
quadro bem diferente, deu-se uma reviravolta na história, 
quando da morte daquele que 
foi sempre sua mais assídua 
font\' de inspiração. 
E cerro que velhas estre- las que o assediavain nos tem￾pos das vacas gordas já não 
estão no partido nascido na 
repulsa à apropriação indébi- ta. Pode até ser que, diante da 
herança deixada ao tempo ve- nha a se tentar, como ele pró￾prio sonhou mais de uma vez, 
o reencontro da diáspora. 
Tudo pode ser, até porque 
cada uma das cismas tem sua história em que houve um con￾teúdo de culpas partilhadas. 
Mas qualquer um que se imagine herdeiro, de dentro e de 
fora do partido que tem sido sis￾tematicamente maltratado e pelo 
qual passaram políticos de to￾das as espécies, que está ine￾gavelmente fragilizado, terá di￾ante de si a figura onipresente 
que por sessenta anos, mais do 
que qualquer outro brasileiro, 
mesmo nos momentos mais 
amargos, apontou uma direção 
segura para o renascer deste 
povo generoso. Qualquer que 
queira juntar-se aos que, como 
eu, permaneceram fiéis aos 
seus conselhos, terá uma carti￾lha para ler, com a proposta de 
um novo modelo econômico, de 
uma sociedade corajosamente 
mais justa, fundada, sobretudo, 
no primeiro dos mandamentos - a oportunidade de todos te- rem acesso ao conhecimento, à 
educação de qualidade. 
A imortalidade fará com que 
a cada instante todos os brasi-
!eiras, nos mais distantes gro￾tões, sigam agora o verdadeiro 
caminho do novo, da libertação, 
iluminados pelo exemplo de dig￾nidade, patriotismo e coerência, 
valores que serão regatadas e 
repetidos de boca em boca, ca- lando os impostores, os opor￾tunistas e os subprodutos da era da subserviência colonial 
que agora será cristalinamente 
percebida e repelida. 
O prócer a quem o Brasil 
mais deve respeito, cuja histó￾ria toda a mídia teve de relem￾brar nessas últimas horas, não 
viveu em vão. Tudo o que traz a essência da justiça e da gran￾deza sobrevive às matanças. 
Cada um de nós há de encarnar a rebeldia indômita que marcou seus passos, atos e atitudes. 
Seremos muitos mais, inclu￾sive os jovens que admiram ou- tro latino-americano que simbo￾liza o sonho traído. Seremos mais 
amigos, mais leais, mais atuan￾tes, porque agora temos a res￾ponsabilidade histórica de dar 
continuidade, sem ele aqui, à sua 
obra de salvação nacional. 
Responsabilidade de dizer aos oprimidos que a tarefa 
agora é de todos. Ele nos ilu￾minará de onde estiver e nos servirá do grande símbolo da nossa hora e vez. Ele está vivo, 
sempre vivo estará, porque 
homens de sua têmpera e de sua dedicação inteira ao povo 
jamais morrerão. 
Ele será sempre, ao nosso lado, o melhor conselheiro. O con￾selheiro Leonel de Moura Brizola. 
(Tribnna da Impren.Sa 24/06/04) 
Caco Barcellos, um depoimento 
Como João Pedro Stédi/e, lí￾der do MST, o jornalista Caco 
Barcel/os, da Rede Globo De Te￾levisão, credita a Brizolasua edu￾cação. Os dois estudaram em 
"Brizoletas" construidas nos 
bairros pobres do Rio Grande do 
Sul-foram 6.300 no total. Ambos 
são originários daquilo que Bri￾zola definia como "Brasil profim￾do '', o Brasil dos despossuídos, o 
Brasil dos pobres, do povão. Lei￾am a Íntegra da carta de Caco Bar~ 
celtas a um jornal carioca: 
"Ao Brizola, eu devo o pri￾meiro lápis que tive na vida, o pri￾meiro caderno- que a minha mãe 
guarda até hoje-, a oportunidade 
de praticar esporte e música em 
um espaço digno e o acesso à ali￾mentação com proteína de primei￾ra linha. Impossível também es￾quecer o dia em que eu e os meus 
colegas lá do Partenon recebemos um tênis padrão das 'brizolinhas', 
como eram chamadas as milhares 
de escolas públicas que ele man￾12 
dou construir nos bairros pobres 
de Porto Alegre. Lembro, como se 
fosse hoje, que ouvi a justificativa 
do Br,izola pelo rádio: 
'E um absurdo que os animais 
do nosso País sejam mais bem￾tratados que nossas crianças. 
Nunca vi no Brasil um bezerro 
abandonado, nem cavalo sem fer￾radura no casco. Toda criança 
pobre tem que ter, no mínimo, o 
direito a um sapato no pé'. 
Isso foi objeto de muitas críti- cas na imprensa dos conseivadores, 
que já naquela época tentavam des￾moralizá-lo, dizendo que o Brízola 
era o prefeito dos 'pés-de-chinelo', 
como se isso fosse uma ofensa. 
Portanto, a ajuda dele foi in￾direta, mas fundamental, decisi￾va. Eu só comecei a estudar aos 8 
anos de idade porque, até 1958, 
não havia vagas disponíveis, eram 
raríssimas as escolas públicas para 
o primário na periferia de Porto 
Alegre. Da mesma forma, o giná￾sio onde estudei também foi 
construído durante a gestão dele 
na prefeitura da cidade. 
Por causa dessa base emoti- va, nunca deixei de acompanhar 
com interesse a trajetória do Bri￾zola como estadista. Décadas de￾pois, vibrei muito quando ele re￾produziu a experiência das 'bri￾zolinhas' no Rio de Janeiro, que 
ganharam o nome de Cieps, com o incentivo de outro guerreiro dos 
trabalhadores 'não-organizados' 
do País, o Darcy Ribeiro. 
Ambos vão fazer muita fal￾ta. Nunca entendi por que ele 
jamais teve o apoio da esquer￾da dos sindicalistas, dos traba￾lhadores organizados de São 
Paulo. Mas essa é uma história 
para uma carta mais longa. Es￾pero que algt!m dia o Brizola 
tenha a sua obra e a importân￾cia histórica reconhecidas não 
só pelos pobres do Brasil." 
Um abraço, 
Caco Barcellos 
PUB~ICADO 
JGrnal ~-----!)!---('.%--:-~', N.o _____________ Data ___ L/ ___ Ll .:::::t=J 
A1tlnat11ra. 
4 ''9!" W Mlt*' t1 tt'f?!f#WS' !75 11 $?' "'2!Sft1fZ ftQJttM'"*i'ifWffnlffetft'""f3'Vf"*t!)WMW3WM 3 t ? 1
W' S5 1 wrm:rrrrc 77 
As últimas homenagens a Leonel Brizola no 
Rio de Janeiro, em Porto Alegre e São Borja 
Leonel Brizola, presidente 
nacional do PDT, morreu dia 21 
de junho último no Hospital 
São Lucas, na Zona Sul do Rio 
de Janeiro, onde tinha ido para 
fazer exames. Depois de rápida 
reunião, fanüliares traçaram 
uma programação que incluiu 
velório no Palácio Guanabara, 
sede do Governo fluminense, 
onde seu corpo chegou por 
volta das quatro horas da ma- nhã da terça-feira onde ficou 
exposto a visitação pública no 
Salão Nobre até o dia seguin￾te, quarta. Ao chegar, Brizola 
foi conduzido por guarda de 
honra e muitos militantes já 
aguardavam para dar o último 
adeus. Durante todo o dia, de • acordo com cálculos da Polí- ·• J ,,. 
eia Militar, mais de 200 mil pes- '~ • ·
1 ' I { soas passaram pelo salão en- . .,: ·, · •, quanto a fila se estendia por ·· . .it·~ í(;.!~' .. 
mais de dois quilômetros. Um ~,. ~ ~.;' telão foi arn1ado na escadaria -~ 
principal do Palácio onde ví￾deos sobre a história de Bri￾zola foram exibidos. 
Durante todo o dia 23, per￾sonalidades passaram pelo lo￾cal. Por volta das 13 horas, o 
presidente Lula, acompanhado 
de comitiva formada de nove 
ministros, chegou. A militân￾cia, ao perceber a presença do 
Presidente da República, come￾çou a gritar palavras de ordem 
Manoel Dias, CarlosL11pi e Carlito Brizola velam o líder no Palácio Guanabara 
como "{raidorn e "fora PT". 
Diante da manifestação, Lula 
ficou apenas quatro minutos 
e foi embora. Antes, porém, 
Carliio disse: .. Presidente, já 
que senhor veio no velório do 
111eu avô, poderia tàzer uma 
homenagem que ele gostaria 
muito: construa Cieps. 
Na manhã de quarta-feira, 24, 
o esquife foi colocado em um 
caminhão do Corpo de Bombei￾ros e seguiu pela rua Paissandu, 
Laranjeiras, em direção ao Ciep 
Tancredo Neves, no Catete, o 
primeiro construído no Estado. 
panhava o cortejo e diante do 
Palácio do Catete - onde o pre￾sidente Getúlio Vargas se suici￾dou - mais um momento de 
emoção. Carlito, leu a Carta Tes￾tamento de Vargas, referência 
da vida política de Brizola. "Ele 
sempre me falou que a Carta 
Testamento era seu guia políti￾co, um documento para ser lido 
por {Odos os brasileiros". 
Batedores abriram caminho para o caminhão dos Bombeiros 
Nesse momento, uma multi￾dão - cerca de 20 mil pessoas 
de acordo com a PM - já acom￾Depois o cortejo parou di￾ante do Ciep Tancredo Neves 
onde discursaram Lupi e Neu￾zinha Brizola, filha do presiden￾te nacional do PDT. Ela agrade￾ceu o carinho das pessoas que 
acompanhavam o cortejo e dis￾se que a manifestação ajudava 
a confortar a dor da família. "É 
muito gratificante ver como rneu pai era querido ... Isso mostra 
que Brizola não era apenas nos￾so pai, mas pai de todos nós, 
brasileiros", afirmou. Em segui￾da representantes da Liga das 
Escolas de Samba do Rio de 
Janeiro homenagearam o ho￾mem que construiu o Sambó￾dromo. Com o surdo, um riti￾mista cadenciou a matcha so￾lene enquanto era feito um mi￾nuto de silêncio em memória 
de Brizola. Depois o cortejo 
seguiu até o Aeroporto San￾tos Dumont, onde o corpo de 
Brizola foi embarcado com 
destino a Porto Alegre. 
Multidão acampanhou a leitura da Carta Testamento em frente ao Palácio do Catete 
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; /n .· .!Ali .,A11.:. f11<'"rv· ·. 1 _a_fl/C/'!-(, . . (::ª .. 1.1 :?a Mil · 11_ 4:!.Jff.· 
Cartaz anônimo afixado na parede do Salão Nobre 
do Palácio Guanabara: "Aí estão os votos do povo 
que sempre lhe roubaram, Brizola. O povo cala a boca 
dos teus inimigos que são contra o povo. Você não 
morreu porque o povo não morreu. Zona Oeste" 
PUBLICADO 
\ 
Jorn•I ~-----f P.fu----- Lj o ... . . . D•1a ____ \_/_Q6. ___ /ffi 
; .,_,; n "tura 
Muros de Porto Alegre 
amanheceram com a 
frase "Brizola Vive" 
O corpo de Brizola chegou 
ao aeroporto Salgado Filho, em 
Porto Alegre, pouco antes das 
15 horas onde uma multidão já o 
aguardava. Leonel Brizola foi re￾cepcionado com os Hinos do Bra￾sil, do Rio Grande do Sul e da 
Legalidade, movin1ento que lide￾rou em 1961 do Palácio Pira tini e 
que garantiu a posse do então 
Vice-Presidente João Goulart 
após renúncia de Jânio Quadros. 
Centenas de carros, motos 
e ônibus lotados de militantes 
acompanharam o caixão até o 
Piratini, sede do Governo gaú￾cho. Foram quase duas horas de 
acenos, lágrimas e aplausos. No 
caminho, muros pichados com as 
palavras "Brizola vive" e pétalas 
de rosas eram jogadas dos prédi￾os. Na entrada do rol do salão 
nobre do Palácio, a submetra￾lhadora utilizada por Brizola du￾rante a campanha da Legalidade 
estava exposta. Durante toda a 
noite, autoridades e familiares se 
revezavam na vigília. Namanhã 
seguinte, o corpo de Brizola vol￾tou para o Aeroporto Salgado 
Filho para a última viagem com 
destino a São Borja. 
Deputado Vieira da Cunha, um dos oradores em São Borja 
Parag11ass11, um dos irmãos de Leonel Brizo/a 
11!!f!"!f'tWtWV''YSW:PWEttsf:!f mwrn FOTOS E TEXTOS DE MAX MONJARDIM 
Na Praça XV de Novembro, em São Borja multidão presta última homenagem a Brizola 
O carinho do povo de São Borja 
Cerca de 25 mil pessoas, 
quase a metade da população, 
receberam Brizola em São Bor￾ja. Logo após a chegada ao 
aeroporto, em comitiva e em 
carro do Corpo de Bombeiros, 
Brizola seguiu pelas ruas da 
cidade lotadas. O corpo do ex￾govemador Leonel Brizola foi 
enterrado às 16 horas no Ce￾mitério Jardim da Paz na cida￾desímbolo do Trabalhismo, 
onde tambem estão enterrados 
os ex-presidentes Getúlio Var￾gas e o João Goulart, além de 
Neuza Goulart Brizola. 
Com a população emociona￾da nas ruas e o comércio fecha￾do, a pequena cidade aproxima￾damente 60 mil habitantes parou. 
O jatinho que levara o corpo 
de Brizola pousou por volta das 
11 horas e já no aeroporto uma 
multidão aguardava o cortejo. Bri￾zola foi recebido ao som de "Que￾rência Amada", antigo sucesso de 
Teixeirinha, uma das músicas que 
mais gostava, executada pela du￾pla Marcos Fraga e Jorge Domel￾les, no acordeon e violão. 
Nos seis quilômetros do 
trajeto até a Igreja São Francis￾co de Borja, o povo esperava o 
cortejo para dar o seu último 
adeus a Brizola. Diante da sede 
da l' Companhia de Engenha￾ria de Combate Mecanizada do 
Exército, soldados perfilados 
batiam continência para o cor￾tejo enquanto famílias inteiras, 
do lado de fora de suas casas, 
prestavam sua última homena￾gem ao ex-governador do Rio 
Grande do Sul que sempre amou 
e prestigiou São Borja. Em vári￾os pontos populares saudavam 
o cortejo aos gritos de "Brizola, 
guerreiro, do povo brasileiro". 
Ao chegar na Igreja, uma 
multidão imensa esperava na 
Praça XV de Novembro e acom￾panhou quando, ao som de 
marcha solene e cadenciada, 
executada pela banda do 1 º Re￾gimento de Polícia Montada de 
Santa Maria, o esquife de Bri￾zola desceu do caminhão dos 
Bombeiros e foi levado para 
dentro da igreja onde se reali￾zou ato ecumênico conduzido 
pelo bispo de Uruguaiana, Dom 
Angelo Domingos Salvador, e 
pelo pastor d,!I Igreja Metodis￾ta de Santo Angelo. Enquanto 
isso, uma enorme fila já se for￾mava do lado de fora da Igreja 
para o último adeus a Brizola. 
A mesma multidão acompa￾nhou o corpo até o cemitério Jar￾dim da Paz, onde Brizola foi en￾terrado no mausoléu da família 
Goulart - ao lado de sua esposa 
Neusa e do cunhado Jango, por 
volta das 16 horas. Diante do 
caixão, o ex-presidente do PDT 
de São Borja, Odon Marques, o 
neto Carlito Brizola, o presiden￾te nacional do PDT, Carlos Lupi, 
o deputado estadual Vieira da 
Cunha, lembraram a vida e a 
obra de Brizola e garantiram que 
a bandeira do Trabalhismo con￾tinuará erguida. "Vá com Deus 
meu líder. Continuaremos esta 
luta até conseguirmos cons￾truir um Brasil que você sem￾pre sonhou", garantiu, emoci￾onado Vieira da Cunha. 
Por iniciativa do Diretório do 
PDT de São Borja, tão logo o cor￾po de Brizola desceu ao túmulo, 
foi acesa uma tocha que deverá 
ficar no local simbolizando o pen￾samento e a obra do grande líder, 
iluminando o caminho dos her￾deiros do Trabalhismo. 
PUBLICADO 
Jornal ~---f/à_1 __ _ 1' l ·º·--------------- Da la_~L/ _Q.6 __ /~ 
Assinatura 
Leonel de Moura Brizola, a biografia Brizola nasceu em 22 de janei￾ro de 1922, numa casa IÚstica de 
madeira construída pelo próprio 
pai na localidade de Cruzinha, hoje 
pertencente ao município de Cara￾zinho, no Rio Grande do Sul. Filho 
do tropeiro José Brizola e de Dona 
Oniva de Moura, foi o caçula dos 
cinco filhos - quatro homens e uma 
mulher. Ainda criança, pouco mais de um ano, perdeu o pai assassina￾do por uma coluna governista pou- co depois de reto1nar para casa ao 
final da Revolução de 23, onde lu￾tara ao lado dos maragatos contra a 
autocracia de Borges de Medeiros. 
Coube à mãe Oniva a educação dos 
cinco filhos, todos alfabetizados por 
ela. A situação de pobreza tomou￾se ainda mais grave depois da famí￾lia perder em juízo a posse das ter￾ras e da casa. Oniva casou-se com 
João Gregório Estery, um colono 
vizinho, também viúvo e com mais 
de seis filhos, e todos se mudaram 
para o povoado de São Bento. 
bléia Legislativa gaúcha, onde as￾sumiu a liderança da bancada tra￾balhista. Convidado pelo Gover￾nador Ernesto Dornelles para ocu￾par o cargo de Secretário das Obras 
Públicas, Brizola viveu a sua pri￾meira experiência como administra￾dor, executando Vi:!.sto programa de 
obras no Estado. Mas o começo da 
sua projeção nacional viria nas elei￾ções seguintes, após o suicídio de 
Vargas. Eleito deputado federal, de 
travou, desde o início, uma ferre￾nha batalha com o deputado Car￾los Lacerda, da UDN. 
O mandado de deputado fede￾ral, no entanto, foi interrompido 
por sua campanha à Prefeitura de 
Porto Alegre, quando adotou o slo￾gan: '·Nenhuma criança sem esco￾la". A preocupação com a educação 
pública jâ se tomava uma obsessão 
na vida de Brizola. Como prefeito, 
ele L'.onsu-uiu dezenas de gnipos es￾colares em toda capital gaúcha, so￾bretudo nas vilas e áreas pobres da 
cidade. Também desenvobeu um grande programa de abastecimtnto 
d'água e modernizou o sistema de 
transporte coletivo. 
O menino Leonel deixou a casa da mãe depois do casamento da 
irmã mais velha, Francisca, acom￾panhando-a para Passo Fundo. Ali, 
matriculou-se na escola primária e 
'SSou a ajudar o cunhado no açou￾e, entregando carne aos fregue￾ses. Aos 1 O anos, Leonel foi leva￾do por um amigo da família para 
Carazinho, onde passaria a morar 
num sótão de hotel a fim de traba￾lhar e continuar os estudos. A luta 
pda sobrevivência levou-o a exer￾cer as mais diversas atividades: la￾vou pratos em troca de casa e co￾mida, foi engraxare, vendedor de 
jornais e carregador de mala' até 
conseguir um emprego nwna serra￾ria, onde marcava tábuas. 
Em setembro de 1979, Brizola retorna do ex17io por Foz do Iguaçu e logo depois vai 
a São Borja - berço do Trabalhismo - terra natal de Getúlio Vargas e João Goulart O Secretário de Obras e 
Prefeito de Porto Alegre 
Como Secretário de Obras do 
A primeira casa razoavelmen￾te confortável que conheceu foi a 
do pastor metodista Isidoro Perei￾ra e de sua mulher Elvira que, sen￾sibilizados com o esforço do meni￾no, decidiran1 ab1igá-lo. Deram-lhe 
um quarto, roupas e o matricula￾auxiliar de montagem numa refina￾ria. Depois de completar 18 anos, 
fez um concurso para fiscal de mo￾inhos do Ministério da Agricultura. 
Foi aprovado, mas pouco tempo 
depois pediu demissão para voltar· 
a Potto Alegre, onde foi trabalhar 
corno jardineiro da Prefeitura. Só 
então, pode cursar o ginásio e oco￾legial, estudando a noite na maior 
escola pública do Rio Grande do Sul, 
o Colégio Júlio de Castill10s. 
Brizola prestou se1viço militar 
na Base Aérea de Canoas e conse￾guiu depois se fom1ar piloto priva￾do. Entre a carreira na Varigeocurso 
de Engenharia, optou pelo segundo. 
ram no colégio -------------- da Igreja Meto- '' A . d ingressou na 
Em 1942 
dista. Brizola mlm na a Faculdade de 
adotou essa re- Engenharia do 
ligião, conver- compromete. Sou Rio Grande do teuamãeevá- Sul e,' em 
rios colegas. l 1945, partici￾Quando tinha p anta do deserto. pau da funda- 14 anos, após ção do PTB ga￾conseguir do Q d ' úcho influenci- prefeito de Ca- Uan 0 a SeCa e ado pelo rnovi-
.. ~zinho uma menta quere￾1ssagem de forte, me alimento mista, que ga- ..!.". classe e uma nhava as ruas e 
carta de reco- - t contagiava as 
rnendaçãopara com uma go a massas, resis￾0 diretor da Es- tindo as incli￾cola Agrícola, de OfValhO." nações de seus ele se transfe- colegas de fa￾riu, para Porto Leonel Brízola culdade, na 
Alegre para es- maioria oriun￾tudar. Mais dos de classes 
uma vez teve que trabalhar duro, mais privilegiadas que se filiam ao 
primeiro como trocador de moe- PSD e a UDN. Ainda estudante de 
das, depois como ascensorista, en- Engenharia funda com sindicalistas 
quanto aguardava ingresso na Es- o primeiro núcleo gaúcho do PTB, 
cola Agrícola de Viamão, uma es- percorrendo o interior com lideran￾pera que durou vários meses. Ao ças no esforço de consolidar o par￾lhe pedirem a certidão de nasci- tido, participando dos primeiros 
menta, para a matrícula, descobriu comícios. Muito ativo, em um co￾que ainda não era registrado. rnício diante da Prefeitura de Porto 
Brizola morou no próprio pré- Alegre, chama a atenção de Getúlio 
dio da escola durante todo 0 curso Vargas que comenta com seus pa￾e, depois de obter 0 diploma de téc- res: '"Botem este guri na chapa que 
nico iural, aos 17 anos, foi nova- ele vai muito longe''. 
mente obrigado a procurar traba- Em 1946, presidente da Ala 
lho, empregando-se corno operário Moça do PTB, é lançado candida￾to a deputado estadual com o apoio 
dos estudantes. Elege-se como um 
dos cinco mais votados dentro da 
maior bancada da Assembléía Le￾gislativa, a do PTB que mesmo não 
~legendo o governador, faz 23 de￾putados. Na instalação da Assem￾bléia Constituinte gaúcha conhece 
João Goulart, que também iniciava 
o seu primeiro mandato parlamen￾tar, após organizar o PTB em São 
Borja e em toda a região das Mis￾sões. Apesar da intensa atividade 
política, conseguiu concluir o cur￾so de Engenharia, formando-se en￾genheiro civil em 1949. Foi nessa 
época que Brizola conheceu Neu￾sa, irmã de Jango, com quem seca￾saria em primeiro de mar-ço de 1950. 
Vargas, amigo da família Goularr, 
foi padrinho do casamento, do qual 
resultaram três fill1os: José Vicen￾te, João Otávio e Neuza Maria. 
As eleições de 1950 reconduzi￾ram Getúlio ao Palácio do Catete. 
João Goulart elegeu-se deputado 
federal, enquanto Brizola obtinha o 
seu segundo mandato na Assem￾Rio Grande do Sul (1952/1954), 
Brizola executou as seguintes 
obras: ponte sobre o Guaíba; pon￾te sobre o rio Pardo; reaparelha￾mento do Departumento Autôno￾mo de Estradas de Rodagem 
(DAER); mais de 100 projetos 
implantados de ampliação e cons￾trução de estradas; Estação Ferro￾viária Diretor Augusto Pestana, em 
Porto Alegre; implantação do trem 
diesel Minuanu; melhorias no Ae￾roporto Salgado Filho; reequipa￾mento do Departamento Aeroviá￾rio do Estado; reaparelhamento do 
Departamento de Portos, Rios e 
Canais; implantação de 23 portos 
lacustres e íluv iais; construção de 
40 hidráulicas no interior do Esta￾do; início da construção de grande 
número de Escolas Públicas. 
Em 1955 Brizola se dege Pre￾feito de Porto Alegre com consa￾gradora vitória - fazendo mais vo￾tos do que todos os demais candi￾datos juntos. Seus trunfos princi￾pais foram o plano de obras que 
executou na Secretaria de Obras, e 
o slogan: '"Nenhuma criança sem 
escola". A experiência administra￾tiva bem sucedida na terceira mai￾or cidade do país na época, rdàr￾çou a sua man..::a empreendedora e 
nitidamente popular. 
As suas principais obras como 
Prefeito de Porto Alegre (1955/58), 
foram as seguintes: implantação de 
sistema integrado de planejamento; 
reavaliação do Imposto Predial; ca￾nalização de água em todas as Vilas 
Populares, de acordo com as priori￾dades estabele~idas pelas associações 
de moradores; implantação de 11 Okm 
de rede de água; construção da hi￾dráulica São João e aumento das ou￾tras duas grandes hidráulicas. Moi￾nhos de Vento e Cristo Redentor, 
implantação de mais de 80 km de 
rede esgoto; construção de 13 7 es￾colas primárias para 35 mil alunos, 
acabando com o déficit escolar~ re-
~A,''' modelação, alargmnento e iluminação 
Brizola /a direita 1 e dois de seus ídolos: Leonel Rocha das avenidas Farrapos, Assis Brasil I' '/ e Protásio Alves; urbanização do 
L~(a~o~c~en~tr~o)~e~A~l~'b~e~n~o:_:P~as~~u~a~l1~·n'.!.i.:-..:e:;;m~E;:;r,.:;e.:;ch;,;;1::;'m~,~l9;;.4;:;6;;;.....J.....J~iiOJ.~Ol.:i~iljjj,~'"ltarnerno 
PUBLICADO 
J11rn•I ,,M.__ f 1) 1 
N."··-------·--·--- DatadJt_Ofi_!o:.Qg 
Assinatura, 
da estrada Cristal-Cavalhada; dra￾gagem-aterro do rio Guaíba e im￾plantação da continuação da Av. 
Borges de Medeiros; renovação da 
frota de ônibus públicos; implanta￾ção dos ônibus elétricos trolley bus; 
criação do maior parque da cidade 
até hoje, o Saint-Hilaire; remodela￾ção e construção de grande número 
de parques e campos populares de 
futebol; criação do Programa inte￾grado de reaparelhamento de Equi￾pamentos Rodoviários para todas 
as prefeinrras gaúchas. 
a Light carioca cartelizavam a pro- máquina existente de repressão no 
dução de eletricidade nos maiores interior do governo estadual; in￾centros brasileiros; triplica em qua- traduz um programa radiotelefô￾tro anos a produção de eletricidade nico semanal e pioneiro no País, 
do RGS, acabando com os raciona- todas as sextas-feiras à noite, de 
mentas; encampa a Cia. Telefônica prestação de contas e esclareci￾Nacíonal, subsidiária da Intemati- menta sobre a administração es￾onal Telegraph & Telephone (ITT), tadual; inicia e comanda a Cam￾após o insucesso de longas gestões, panha da Legalidade, sustando o 
para melhoria dos serviços telefô- plano que visava a impedir a pos￾nicos do Estado; cria o Instituto se do Vice-Presidente da Repú￾Gaúcho de Reforma Agrária - blica João Goulart, em ação polí￾IGRA, com a entrega de mais de tica inédita e que garante o res￾14.000 títulos a agricultores sem peito à Constituição no país. 
terra, destacando-se áreas de assen- Brizola mobiliza o povo gaú- Governador do Rio Grande do lamento como Fazenda Sarandi, cho e todas as forças de que dispu￾Sul, em 1958 e a Legalidade Banhado do Colégio, Caponé, Fa- nha. A voz de Brizola, defendendo 
Em 1958, comam---------------------• a Constituição, ecoa por 
pio respaldo popular " U b todoopaísatravésdeuma 
(mais de 670 mil votos m a raço, meu povo cadeia de emissoras de 
contra 500 mil da coliga- rádio, ganhando o apoio 
ção PSD/UDN/PL), Bri- querl· do f. Se na-O puder da opinião pública nacio- zola se elege governador nal. O Rio Grande do Sul 
do Rio Grande do Sul aos se levanta numa jornada 
36 anos de idade. Mes- falar mais, Será porque cívica, o general Macha￾mo sem ter alcançado do Lopes, comandante 
maioria absoluta na As- na-O me .f:'Ol. pOSSl'Vel f. do lll Exército, adere à 
sembléia, constrói alian- .l 1 luta contra o golpismo. 
ças que lhe dão respaldo Do seu posto de coman￾à ação adminisuativa. Todos sabem o que estou do, o Palácio Piratini, 
As suas principais sede do governo estadu￾obras como Governador f: d 1 Ad al, Brizola garante a (195911962): implanta azen 0. eUS, meU posse de Jango. Este, 
com recursos públicos a porém, contrariando a 
indústria Aços Finos Pi- Rio Grande querido!" opinião do governador 
ratini, utilizando carvão gaúcho, que queria que 
gaúcho em projeto pio- Discurso da Legalidade em 2810811961 as tropas legalistas do 
neiro no Estado; traz Sul marchassem até Bra￾para o Rio Grnnde do Sul sília, prendesse os mili￾a Refinaria de Petróleo Alberto zendas ltapoã, Taquari e Pangaré. tares golpistas e dissolvesse o 
Pasqualini, decisiva para a futura Ainda como governador inicia Congresso, convocando imediata￾instalação de indústrias dt: adubos e conclui o maior programa de in- mente uma Assembléia Nacional 
e do lll Pólo Petroquímicu; implan- vestimenta em educação realizado Constituinte, aceita e concorda 
ta, com recursos públicos, a A1=ú- até hoje no Rio Grande do Sul, com com a emenda parlamentarista 
car Gaúcho S/A -AGASA, em re- a constn1ção de 5.902 escolas pri- como solução conciliatória e assu￾gião canavidra pobre do Esrado; in- márias, 278 escolas técnicas e 131 me a presidência da República, 
corpora o Banco do Estado do Rio ginásios, abrindo 700 mil novas praticamente sem poderes. Os gol￾Grande do Sul - BANRlSUL - ao matrículas e contratando 4~ mil pistas de 61 começam a conspirar 
planejamento estadual e cria a Caixa novos professores, acabando com contra Jango no dia de sua posse. 
Econômica Estadual; funda o Banco o déficit escolar; lança as inovado￾Regional de Desenvolvimento do Ex- ras Letras do Tesouro Estadual (bri￾tremo Sul-BRDE; conclui a "fome- zoletas) que viabilizaram grande 
létrica de Charqueadas, de grande por- número de investimentos sociais; 
te parn a época, próxima a Pano Ale- faz uma série de investimentos es￾gre, e põe em operação a de Candiota, pecíficos, com a criação de Distri￾localizada em Bagé, além de construir tos Industriais, do Programa de In￾várias usinas de médio porte. centivo ao Trigo e do primeiro Zo-
. Brizola também encampa, den- ológico do Rio Grande do Sul, em 
tro das norn1as legais, a Compa- Sapucaia do Sul. 
nlua Estadual de Energia Elétrica, No plano político, inicia o go￾subsidiária da Bond & Share cana- vemo queimando os arquivos do 
dense, ligada ao grupo americano Departamento de Ordem Política 
American Foreign Power, que com e Social (DOPS), eliminando a 
~m~ ~.,~:.:. f' ~ ...__ 
1964 - o golpe, o exílio 
e a Carta de Lisboa 
Ao final de seu mandato de 
Governador gaúcho, Brizola se 
transfere para o Rio de Janeiro, onde 
se elege deputado federal com nada 
menos do que um terço dos votos 
de todos os cariocas. Foi um dos 
mais ativos membros da Frente Par￾lan1entar Nacionalista, lutando, ini￾cialmente, pela restauração do Pre￾sidencialismo, conseguida através do 
plebiscito de 1963, e depois pela 
Ao lado de Getúlio Vargas, Brizola (óculos escuros) também saúda a multidão 
nas ruas de Porto Alegre na campanha presidencial de 1950 
Brizola comandou do Palácio Piratini a Campanha da 
Legalid"de que g(lrantiu a posse de Jcmgo em 1961 
implantação das refom1as de base. 
O golpe militar de 1964 frustra 
a proposta trabalhista de moderni￾zação da sociedade brasileira, atra￾vés da reforma agrária, da reforma 
urbana, da reforma fiscal e da Lei 
de Remessa de lucros, entre outras 
iniciativas. Mais uma vez Brizola 
tenra organizar a resistência popu￾lar e armada em defesa da Consti￾ruiçào, a partir do Rio Grande do 
Sul. Mas, àquela altura, todos os 
esforços se revelariam inúteis. Em 
um dos seus últimos discursos em 
vida, na Assembléia Legislativa do 
Rio Grande do Sul reunida em ses￾são especial pelos 40 anos do gol￾pe militar de 64, Brizola afirmou 
com todas as letras: "Se dependes￾se de mim, teríamos resistido ao 
golpe militar de 64". 
Depois de dois meses de clan￾destinidade na região da fronteira, 
Brizola é, por fim, forçado a exilar￾se. Ele deixa o Brasil num pequeno 
avião, que parte da praia gaúcha do 
Pinhal para o Uruguai. Confinado 
no balneário de Atlântida por pres￾são dos governos militares brasilei￾ros, mantém seus contatos com a 
oposição e apóia o MDB na grande 
vitória das eleições de 1974. As 
pressões da ditadura, entretanto, 
acabam levando as autoridades uru￾guaias a detenninarem a sua expul￾são daquele país, em 1977, em ple￾na "Operação Condor" de elimina￾ção fisica de exilados latino-ameri￾canos pelos órgãos de repressão do 
Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai 
e Chile - sob supervisão da CIA. 
Brizola dá então um passo sur￾preendente: solicita e obtém asilo 
político nos Estados Unidos, aque￾la época sob o governo democráti￾co de Jimmy Carter de quem, mais 
tarde, se tornaria amigo pessoal. 
Fixando residência em Nova lor￾que, estabelece relações com os 
partidos social-democratas da Eu￾ropa e seus principais líderes, como 
Willy Brandt, Felipe González, 
Mário Soares, Olof Palme e Fran￾çois Mitterrand. Uma aproximação 
que o levou, anos mais tarde, como 
presidente do PDT, a ocupar a vice￾presidência da Internacional Socia￾lista e, posteriormente, a se tornar 
um dos presidentes de honra da 
Internacional Socialista. 
Ainda no exílio, diante da pro￾gressiva abertura política no Brasil 
comandada pelo general Ernesto 
Geisel, Brizola se movimenta e or￾ganiza em Lisboa nos dias 15, 16 e 
17 de junho de 1979- o Encontro 
dos Trabalhistas do Brasil com os 
Trabalhistas no Exílio, com o obje￾tivo de reorganizar o PTB fundado 
por Getúlio Vargas em 1945 e ex￾tinto pela ditadura militar. Com in￾tegral apoio do então presidente 
Mario Soares, de Portugal, o even￾to é um sucesso e antes mesmo da 
decretação da anistia, em setembro 
de 1979, começa a ser reorganiza￾do o Partido Trabalhista Brasileiro 
(PTB) sob a liderança de Brizola a 
partir da assinatura e do lançamen￾to da "Carta de Lisboa". 
1979 - A volta ao Brasil por 
São Borja, primeiro governo 
no· Rio de Janeiro 
Decretada a anistia, Brizola re￾torna ao Brasil em setembro de 
1979, por Foz do Iguaçu, e logo em 
seguida dirigiu-se a São Borja, pe￾quena cidade na fronteira com a 
Argentina, terra natal de Getúlio 
Vargas e João Goulart, como forma 
de homenagear as duas maiores li￾deranças do Trabalhismo-, sua cor￾rente política desde a juventude - e 
a cidade que já dera e onde estavam 
enterrados dois Presidentes da Re￾P'U'B·"L 1 CAD O 
J•rnll ~ Pt>í 
N. e-----------------D~ ta_~_/ .Q_'Q __ / Qli Assinatura 
pública. Brizola se fixa no Rio de 
Janeiro que considerava tambor 
político do Brasil, para reiniciar a 
sua vida pública interrompida pela 
violência do Ato Institucional nú￾mero 01 que cassou, além dele, o 
próprio Presidente João Goulart, 
o então chefe do Gabinete Civil, 
Darcy Ribeiro, e o Secretário de 
Imprensa de Jango, Raul Ryff. 
Brizola passou a se dirigir anu￾almente a São Borja no dia 24 de 
agosto para lembrar o suicídio de 
Getúlio Vargas e a sua Carta Testa￾mento - que considerava o maior 
documento político da História do 
Brasil; deixada em confiança nas 
mãos do herdeiro político do Tra￾balhismo em 1954, o presidente 
João Goulart. A partir de 1993, com 
a morte e sepultamento em São 
Borja de sua mulher, Neusa Brizo￾la, irmã. de Jango, a romaria passou a ter significado ainda mais profun￾do. Brizola definia Neusa como 
"'bonita por fora e por dentro". 
do TRE que ficou conhecida como 
"Escândalo da Proconsult",jainais 
apurado apesar dos esforços do Mi￾nistério Público do Rio de Janeiro. 
Brizola vence as eleições graças 
ao que chatnava de '•força do povo", 
numa histórica cainpanba que ele 
próprio comparou a de Getúlio Var￾gas em 1950. Embora o PDT prati￾camente não tivesse estrunrra orgâ￾nica ou apoio financeiro, Brizola 
parte do zero nas pesquisas pré￾eleitorais - que davam ampla vitó￾ria para Sandra Cavalcanti, a candi￾data do PTB de Yvete Vargas - para 
a vitória, de virada. O seu material 
de campanha restringia-se a um 
boné vem1elho com o slogan "Bri￾zola na cabeça", criado pelo jorna￾lista Wagner Teixeira, e a uns pou￾cos cartazes e panfletos. 
Mas o seu projeto de reorgani￾zar o PTB preocupou a ditadura 
militar, as voltas com as eleições 
plebiscitárias e o explosivo cresci￾mento do MDB a paitir de 1974 
como conseqüência da anti-candi￾datura à Presidência da República 
de Ulysses Guimarães e Barbosa 
Lima Sobrinho. Para se precaver, 
em manobra junto ao Tribunal Su￾perior Eleitoral (TSE), o 
Brizola venceu as eleições de 
1982 graças aos debates promovi￾dos pela grande mídia, sendo o pri￾meiro deles o da Radio Jornal do 
Brasil, que teria papel estratégico 
também na apuração dos votos. 
durante a tentativa de fraudar as 
eleições conduzidas pela firma Pro￾consult. Ao debate da Rádio JB 
seguiram-se o do ''Povo na TV", o 
da TV Bandeirantes e o da Rede 
Globo de Televisão. 
Em 1982, Brizola conquistou a cabeça e o coração do povo fluminense, 
contra tudo e contra todos, se elegendo Governador do Estado do Rio de Janeiro 
Após 15 ai1os de exilio, de dis￾criminação e de perseguições, empos￾sado govemador do Rio de Janeiro, todos, e não de um grupo, de uma 
facção ou de um partido". 
generalGolberydoCou- •-------------------• 
Em seu primeiro 
Govemo no Estado do 
Rio de Janeiro, Brizola 
retomou a luta iniciada 
20 anos antes, no Rio 
Grande do Sul, em favor 
da educação pública. Ide￾alizou e executou, com a 
ajuda de Darcy Ribeiro, 
o mais arrojado e revolu￾cionário programa educa￾cional já desenvolvido no 
Brasil: o Programa Espe￾cial de Educação, o de 
construção dos Centros 
Integrados de Educação 
Pública (Cieps), que o 
povo apelidou de '·Bri￾zolão,,. Uma escola inte￾Silva, tira a sigla PTB 
mãos de Brizola e a 
entrega a Yvete Vargas, 
uma deputada conserva￾dora - alegando razões 
burocráticas. 
Em lágrimas, Brizo￾la rasga uma folha de pa￾pel onde estavatn as le￾tras PTB e funda o Par￾tido Democrático Traba￾lhista (PDT) como for￾ma de reagir a manobra 
da ditadura. Brizola co￾meça do zero novamente 
e em curtíssimo espaço 
de tempo, um ano, con￾segue graças a sua lide￾rança política- atender a 
legislação e a orgai1izar o 
" e ali, naquele momento, 
decidimos voltar por São 
Borja nem que tivéssemos 
que dar umas voltas pelo 
mundo inteiro ... São Borja é 
como entrar pela porta da 
frente da nossa própria casa ... " 
Na volta do exílio, em 1979 grada, de tumo úrnico, 
com assistência médico￾PDT. E é por ele que se elege Go￾vernador do Estado do Rio de Ja￾neiro em 1982 apesar da tentativa 
de fraude na totalização eletrônica 
as primeiras palavras de Brizola, de￾monstraram sua disposição de supe￾rar injustiças e incompreensões: "A 
partir de agora, sou o governador de 
sanitária e nutricional, bi￾blioteca e estudo dirigido, tendo 
cada Ciep com capacidade para até 
mil alunos. Nada menos do que 
500 deles foram deixados, pron￾Quando estava no Rio de Janeiro no dia 24 de agosto, Brizola sempre homenageava 
a memória de Getúlio Vargas fazendo a leitura da Carta Testamento na Cinelândia 
tos ou em construção, com as pe￾ças pré-moldadas em estoque, ao 
seu sucessor, Moreira Franco, que se elegeu prometendo acabar com a 
violência do Rio de Janeiro em seis 
meses- com total e absoluto apoio 
não só da Rede Globo de Televi￾são, como de toda a grande mídia. 
Sem recursos federais e absten￾do-se de recorrer a empréstimos ex￾ten1os, Brizola desenvolveu impor￾tantes programas de saneamento básico, de eletrificação rural e ur￾bana, como '·Uma Luz na Escuri￾dão" e de refom1a urbana, através 
do programa "Cada Família, Um 
Lote". Foi Brizola que iniciou no 
Rio de Janeiro a política pública de 
urbanização de favelas, que substi￾tuiu a prática antiga das remoções 
desumanas e arbitrárias. 
O Governo Brizola estancou a 
sangria dos dinheiros públicos re￾presentada pela organização do car￾naval, com a construção da Passa￾rela do Samba, obra executada no 
prazo recorde de quatro meses e 
que, em apenas dois anos, ensejou 
receitas suficientes para cobrir com 
sobras todo o seu investimento. 
Além de ampliar o mosaico dos 
cartões-postais cariocas, na Passa￾rela o professor Darcy Ribeiro, 
então vice-governador e um dos 
principais mentores do Programa 
Especial de Educação, desenvolveu 
um complexo escolar com 21 O sa￾las de aula para funcionar fora do 
período carnavalesco. 
1984 - Diretas Já Em 1984, govemador do Rio 
de Janeiro, Brizola liderou o gran￾de comício da Candelária que reu￾niu um milhão de pessoas e ele￾vou a campanha das "Diretas Já" 
para novo patamar. Frnto da per￾severança dos opositores da dita￾dura militar, como Ulysses Gui￾marães, e realizados inicialmente 
sem apoio oficial e boicotados pela 
grande mídia, o comício da Cande￾lária deu nova dimensão a campa￾nha das Diretas Já. Não houve 
mais como esconder o óbvio: o 
povo queria as eleições diretas. 
A mobilização dos cariocas 
obrigou os meios de comunicação 
- especialmente a Rede Globo de 
Televisão - a levantar o boicote 
imposto ao movimento, numa ten￾tativa vã de ocultar o que viria a se 
transformar numa das maiores 
campanhas cívicas do País. De￾pois do Rio de Janeiro, outras 
capitais brasileiras viriam a reu￾nir grandes multidões para exigir 
o direito democrático do povo de 
eleger o seu presidente. 
Derrotada no Congresso pela 
maioria governista a emenda que 
restabelecia as eleições diretas, os 
líderes da campanha partem para 
uma solução negociada para o fim 
do regime militar, via eleições indi- retas. Brizola rejeita o acordo, pro￾põe as oposições que em vez de 
eleger indiretamente um presiden￾te da República, seria melhor es￾tender o mandato do general Figuei￾redo e que fosse feita a transição 
em curto espaço de tempo, para 
em seguida eleger- diretamente - o 
presidente da República. · 
Derrotada a tese que defendia, 
prevaleceu a eleição indireta, mas 
Brizola rejeita a chamada "Nova 
República", recusa-se a participar 
do governo Tancredo Neves, que 
não chega a assumir cargo, ocupa￾do por José Sarney, que presidia o 
PDS, o partido da ditadura militar. 
1985 - Saturnino Braga 
se elege Prefeito 
Com prestígio político cada vez 
maior no Rio de Janeiro e no Brasil, 
candidato a Presidente da Repúbli￾ca pelo PDT, Brizola lança Roberto 
Satnrnino Braga, recém reeleito se￾nador em 82 na chapa do PDT, para 
a Prefeitura do Rio de Janeiro nas 
eleições de 1985, as primeiras para 
as capitais brasileiras depois da di￾tadura militar. Ultimo pleito a ser 
realizado antes do recadastramento 
eleitoral nacional promovido pelo 
TSE em 1986, o candidato de Bri￾zola ganha as eleições pela esmaga￾dora maioria do eleitorado carioca -
embora Saturnino Braga fosse até 
1982 apenas um político fluminen￾se, do antigo Estado do Rio de Ja￾neiro, eleitor de Niterói. 
Antes rilesmo da posse de Sa￾turnino a primeiro de janeiro de 
1986, o então vice-prefeito eleito, 
Jó Rezende, lança-se unilateralmen￾te candidato a sucessão de Saturni￾no Braga ainda no final de dezem￾bro de 1985 sem ouvir ningném, nem 
o próprio Satumino. O acúmulo de 
poderes municipais nas mãos de Jó 
Rezende, por delegação de Satumi￾PUBL1-fADO 
JerHI ~ ·-'-f'-"-b~- N. "·--------------- Da ta _~) _ _t J:ki __ _JQi.. 
Asslnatora 
no Braga, e a compreensão de sua 
candidatura dificilmente passaria 
pelo PDT, partido a que se filiara na 
véspera da eleição de 85 e no dia em 
que sua candidatura a prefeito pelo 
PT seria anunciada, levan1 J ó a traba￾lhar pelo afastamento de Satumino do 
PDT. Em fevereiro de 1986 Satumi￾no anuncia a sua decisão de sair do 
PDT, filiando-se logo depois ao PSB 
-partido pelo qual se elegera uma vez 
deputado federal ainda na década de 
60, e pelo qual- com o apoio de Bri￾zola -voltaria ao Senado Federal em 
1998, derrotando entre outros Mo￾reira Franco e Roberto Can1pos. 
1986 - A Farsa do Cruzado e a 
derrota de Darcy Ribeiro 
No final de seu primeiro go￾verno no Rio, Brizola dá mais um 
aprova de coerência: em março de 
1986: apenas seis dias após a edi￾ção do "Plano Cruzado", ele con￾dena, como presidente nacional do 
PDT, em cadeia de rádio e televi￾são, a política econômica de José 
Sarney, que pretendia acabar com a 
inflação por decreto. "Tudo isso 
são votos, votos e mais voros", dis- se Brizola, explicando que a infla￾ção ''irá voltar com mais força, 
como volta uma mola que é com￾primida contra a parede". 
O alerta solitário de Brizola -
aquela altura, as vésperas das elei￾ções de governadores, deputados e 
senadores - nem mesmo os demais 
partidos de oposição ousaram le￾vantar a voz contra as medidas de 
Samey - seria amargamen,te lem￾brado pelo povo brasileiro logo nos 
primeiros dias após a contagem dos 
votos das eldções de outubro, quan￾do o congelamemo de preços foi 
suspenso e os índices inflacionári￾os subiram vertiginosamente. Fe￾rozmente atacado pela mídia, im￾pedido pelo TSE de se apresentar 
no horário eleitoral gratuito do 
PDT, Brizola vê o seu candidato 
ao governo do Rio de Janeiro, Dar￾cy Ribeiro, perder a eleição para o 
candidato governista - Moreira 
Franco, que ele apelidara de ··Gato 
Angorá", que fora por ele de1rota￾do em 1982, quando Moreira era 
o candidato do último dos ditado￾res, João Figueiredo. 
A Justiça Eleitoral, por conta 
do recadastramento, substituiu os 
velhos títulos. eleitorais pelos no￾vos, sem foto ou assinatura, dando 
um número a cada eleitor - proce￾dimento que permitiu, 1 O anos de￾pois, em 1996, a introdução nas 
eleições brasileiras das umas ele￾trônicas que o TSE dizia serem 
100% seguras - apesar de serem 
infiscalizáveis e inauditáveis. 
1989 - A eleição presidencial 
A primeira eleição direta para 
presidente realizada no Brasil de￾pois da ditadura dividiu o país ba￾sicamente em duas correntes: de um lado a direita reunida em tomo do 
falso ··caçador de marajás" repre￾sentado por Collor de Mello, do 
outro os oposicionistas divididos 
entre PDT e PT. Apesar dos esfor￾ços de Brizola em busca da unida￾de, os dois partidos marcharam por 
caminhos próprios. Preocupado com 
o escândalo da Proconsult e com fa￾tos registrados nas eleições de 1986 
no Rio de Janeiro, o PDT solicit0u 
fonnalmente ao Tribunal Superior 
Eleitoral (TSE) uma auditoria inter￾nacional para o progranla de totali￾zação de votos que seria empregado 
nas eleições presidenciais. 
Ao final da apuração do pri￾meiro run10 das eleições presiden￾ciais de 1989, após inexplicável in￾tem1pção de horas na apuração do 
Estado de Minas Gerais, o candi￾dato do PT venceu Brizola com 
cerca de 0,5% de diferença entre 
eles. Um pouco antes do TSE anun￾ciar oficialmente a vitória de Lula 
sobre Brizola por wna diferença de 
pouco mais de 400 mil votos, em 
um eleitorado de 86 milhões o TSE 
convocou entrevista coletiva com 
os meios de comunicação e nela os 
presidentes de sete institutos de 
pesquisa de opinião afirmaram, ao 
mesmo tempo e antes do resultado 
oficial, que Lula iria para o 2° turno 
com Collor de Melo. 
A falta de transparência que 
marcou a apuração, gerando duvi￾das e suspeitas sobre o processo 
eleitoral de 1989, não impediu que 
Brizola, num ato de grandeza e des￾prendimento político, tomasse a 
decisão de apoiar Lula no segundo 
turno, transferindo todo o seu peso 
eleitoral para o candidato do PT 
que, graças a isto, obteve vitórias 
esmagadoras nos estados do Rio de 
Janeiro e Rio Grande do Sul. 
1990 - O Segundo Governo 
no Rio de Janeiro 
Em 1990 Brizola se elege Go￾vernador do Rio de Janeiro pela 
segunda vez com o extraordinário 
índice de 70% dos votos ainda no 
primeiro turno. Logo de início, se 
lança à tarefa de recuperação dos 
Cieps, criminosamente abandona￾dos por seu antecessor, Moreira 
Franco. E não só isto: além de 
concluir as obras que haviam sido 
paralisadas e reimplantar a filo￾sofia da escola de turno único, 
ampliou o Programa Especial de 
Educação com a criação dos giná￾sios públicos. Ao final do seu 
governo, 506 Cieps estavam fun￾cionando, depois de um progra￾1na de obras 150 vezes maior do 
que a construção do Maracanã. 
No segundo governo Brizola o 
Estado ganhou, ainda, a sua princi￾pal obra viária em várias décadas: a 
Linha Vermelha, oficialmente Ave￾nida Presidente João Goula1t, uma 
via expressa que passou a ligar, ao 
longo dos seus 21,4 quilômetros, a 
Baixada Fluminense ao Centro do 
Rio, em apenas 20 minutos - além 
de criar um novo e moderno acesso 
para o Aeroporto Internacional do 
Galeão, realizada com recursos pró￾prios do Estado em sua maior parte. 
Outras realizações de grande en￾vergadura, como o inicio do Progra￾ma de Despoluição da Baia de Gua￾nabara (quase US$ 1 bilhão obtidos 
junto ao BID e ao governo japonês), 
a ampliação do sistema Guandu de 
abastecimento d' água e a criação da 
Universidade Estadual do Norte Flu￾minense, marcaram o segundo go￾ven10 Brizola como um periodo de 
grande progresso e desenvolvinlen￾to para o Rio de Janeiro. 
Apesar de tudo isso e de uma 
ação enérgica e transparente na área 
da segurança publica, com a puni￾ção exemplar dos responsáveis por 
atos de violência, como as chacinas 
da Candelária e de Vigário Geral, 
uma campanha destrutiva dos 
meios de comunicação contra Bri￾zola e o Rio de Janeiro, empalide￾ceu na mídia esta fase de progres￾so para o Estado - criando falsa 
imagem de que o Rio de Janeiro 
era mais violento do que outras 
grandes cidades do país. 
A elite, diante da decisão de 
Brizola de novamente disputar a 
presidência da República, ataca-o 
ferozmente através da mídia e pro￾cura atrelar sua imagem a imagem 
descendente de Col!or de Melo, 
especialmente depois do momento 
em que Collor resolve, no plano 
federal, copiar o programa especial 
de educação de Brizola - que rece￾Ao lado de Dona Neusa, Brizola vota na eleição 
presidencial de 1989 - a primeira depois lia llitadura 
beu o nome de Centro Integrado de 
Apoio a Criança (CIAC). Veterano 
das "ondas" midiáticas para deses￾tabilizar os governos de Getúlio 
Vargas em 1954, e de João Goulart, 
em 1963, Brizola não compactua 
com a crítica fácil dos mesmos que 
elegeram Collor em 1989 preocu￾pado com a questão da governabi￾lidade e do processo de desestabi￾lização do governo Col!or. 
Vem a CP! e se tomam claras 
as manobras de bastidores de per￾sonagens como PC Farias e outros, 
num somatório de evidências e 
provas sobre a corrupção no go￾verno Collor. Brizola determina e a 
bancada do PDT, por determina￾ção do Diretório Nacional do PDT, 
é a primeira do Congresso Nacio￾nal a fechar questão favorável ao 
impeachment de Col!or. 
Mesmo assim - de má fé - a 
mídia e especialmente a Rede Glo￾bo de Televisão, que elegera Collor 
destinando a ele mais tempo de ex￾posição do que todos os demais 
candidatos à presidência em 89 so￾mados - insiste na versão de que 
Brizola se '·aliara" a Collor. 
1993/1994 - 2'. Campanha 
presidencial e privatizações 
Collor cai, ascende ao poder 
federal Itamar Franco e um novo 
ciclo de dificuldades passa a atra￾palhar a segunda administração de 
Brizola no Rio de Janeiro. Minis￾tro da Fazenda de Itamar, Fernan￾do Henrique Cardoso sabota a cons￾trução da segunda etapa da Linha 
Vermelha, a que liga a Ilha do Go￾vernador a Baixada Fluminense, tra￾dicional reduto eleitoral de Brizola 
- obra iniciada no Governo Collor 
em parceria com o governo estadu￾al. FHC não libera as verbas, as 
obras param e ficam paradas du￾rante meses, só recomeçam depois 
que Brizola se reúne com Itamar 
Franco e este dá ordens expressas 
ao seu Ministro para que liberasse 
os repasses federais. A obra reco￾meça lentamente, mas só termina 
depois das eleições presidenciais. 
Ainda governador, ante o Pla￾no Nacional de Desestatização 
(PND) aprovado pelo Congresso 
Nacional apesar do PDT ter fecha￾do questão contra, Brizola critica a 
privatização da Companhia Side￾rúrgica Nacional (CSN). Seu pro￾testo é isolado, só encontra eco na 
Associação Brasileira de Imprensa 
(ABI) e no Movimento em Defesa 
da Economia Nacional, (Modecon), 
ambos presididos pelo jornalista 
Barbosa Lima Sobrinho. A mídia 
apóia maciçamente as privatiza￾ções, e a CSN é entregue ao empre￾sário Benjamin Steinbruck. 
Apesar da mídia e do quadro 
político desfavorável, Brizola 
passa o cargo para o vice-gover￾nador Nilo Batista em 1993 e se 
candidata, pela segunda vez, a 
Presidência da República, tendo 
como candidato a vice o profes￾sor Darcy Ribeiro. Brizola bate 
de frente com o Plano Real, amar￾gando péssimas posições nas 
pesquisas, enquanto Lula, confor￾tavelmente instalado na preferên￾cia do eleitor~do, se poupa da 
polêmica seguindo os "conselhos" 
dos marqueteiros a serviço do PT. 
Fernando Henrique, atrás de Lula, 
navegando no" sucessd' do Plano 
Real, colhe os frutos do relativo 
sucesso popular da iniciativa. 
No único debate realizado pe￾los candidatos a presidente na cam￾panha presidencial de 1994,já com 
regras rígidas para impedir a dis￾cussão livre dos temas, Brizola 
conseguiu dar um cheque mate em 
Fernando Henrique, quando este 
disse em certo momento, referin￾PUBLICADO 
Jorna1 ~-e-~ Í 
i'Lo .. ______________ Dat~!_/ ..Q.6_;:.Qi 
Assinatura 
[IQJ, tartnwwsrwrwnmmams 
do-se ao Plano Real, que '
1
como 
gosta de dizer o governador Brizo￾la, o Plano Real vem de longe". Rá￾pido no raciocínio e rompendo as 
regras, Brizola retrucou no ato: "É, eu sei, vem da Argentina", arrancan- do uma gargalhada geral e deixando 
Fernando Henrique visivelmente 
embaraçado com a situação. Daí em 
diante F emando Henrique não foi 
mais a nenhum debate, adotando a tática de Collor de fugir da discus￾são para não se desgastar. 
Lula ficou na situação de "pre￾ferido" das pesquisas - considera￾das por Brizola um "oligopólio" 
com o beneplácito da justiça elei￾toral - até a véspera da eleição quan￾do, na reta final, é alcançado por 
Fernando Henrique e logo depois 
superado. Brizola percorreu nova- mente todo o país com sua prega￾ção nacionalista, mas seus índices 
eleitorais continuaram ínfimos. Fer￾nando Henrique vence a eleição com 
apoio total da mídia e dos agentes 
econômicos, Brizola e Lula, mais 
uma vez, são derrotados. 
No Estado do Rio, de forma 
absurda e inexplicável já que se ele￾gera governador em 91 com mais 
de 50% de votos válidos - Brizola, 
com toda a sua bagagem política e 
verve, perde a eleição de 94 até para 
o então desconhecido candidato a 
presidente Enéas Carneiro, do Pro￾na, que apresentava como platafor- ma eleitoral na tdevisão, uma úni-
"' frase que é bordão até hoje: ~eu nome é Enéas ! " 
A mídia, sempre hostil a Bri￾zola, celebra a derrota e alguns jor￾nalistas proclamam. de novo, a 
''morte" política de Brizola- como 
haviam feito em ! 964, quando ele 
partiu para o exílio. Fernando Hen￾rique toma posse promet~ndo "aca￾bar com a era Vargas" e retoma, com força total, o projeto neoliberal ini￾ciado no Governo Collor, atenden￾do as determinações do Fundo Mo￾netário Internacional (FMI), Banco 
Mundial e ao Governo dos Estados 
Unidos e sintetizadas no livro de 
Paulo Nogueira Baptista, "O Con￾senso de Washington". 
Fernando Henrique Cardoso 
entrega aos grupos nacionais e mul￾tinacionais empresas estatais lucra￾tivas como a Vale do Rio Doce, o 
Sistema Telebrás e muitas outras - as chamadas '"jóias da coroa" - em 
questionáveis leilões até hoje pen￾dentes na Justiça, embora seus pro￾motores usassem o tempo todo a 
expressão "ato jurídico perfeito" 
como resposta às acusações de ile￾galidade no processo de desestati￾zação - criticas feitas não só por 
Brizola, como nacionalistas do por￾te do veterano jornalista Barbosa 
Lima Sobrinho e de seus auxiliares 
na Associação Brasileira de hnpren￾sa (ABI) e Movimento em Defesa 
da Economia Nacional (Modecon). 
1998, Brizola vice de 
Lula e Garotinho Fora do governo estadual, Bri￾zola passa a se dedicar mais ao PDT 
até que quatro anos depois, em 
1998, na tentativa de derrotar o 
projeto de reeleição Fernando Hen￾rique Cardoso, Brizola estabelece uma aliança eleitoral com o Partido 
dos Trabalhadores (PT), aceitando 
a posição de vice-presidente na 
chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, 
para unir a esquerda, desde que no 
Rio de Janeiro fosse feito wn gran￾de acordo político envolvendo di￾versos partidos e que o PT apoias￾se o candidato do PDT a governa￾dor, o ex-prefeito de Campos An￾thony Garotinho. Apesar da reação 
de setores do PT, a senadora petisca 
Benedita da Silva se elege vice-go￾vernadora na chapa de Garotinho, 
juntamente com o ex-deputado, ex￾preteito e ex-vereador Roberto Sa￾tumino Braga, do PSB, que dispu￾tou a deiçào como candidato único 
das oposições com o compromisso 
escrito de dividir o mandato com seu 
primeiro suplente, o ex-deputado 
federal e ex-secretário municipal, 
Carlos Lupi - também vice-presi￾dente regional do PDT. 
Brizola, depois da privatização 
da Companhia Vale do Rio Doce, 
do Sistema Telebrás e de outras importantes estatais passa a se de￾Brizola sempre foi leitor atento dos bilhetes dos companheiros 
m e rr r w rwerr---wwtn·rwmzrm·:n·re rr mm 
dicar ainda mais a luta dos setores - nacionalistas brasileiros, principal￾mente os liderados e próximos ao 
jornalista Barbosa Lima Sobrinho 
como a ABI, Modecon e Associa￾ção dos Engenheiros da Petrobrás 
(Aepet). Brizola dá integral apoio a luta contra as tentativas de retalhar 
a Petrobrás e alienar o controle das 
jazidas de petróleo brasileiro, o que - infelizmente - começa a ser feito 
na prática após a criação da Agência 
Nacional de Petróleo (ANP) e o iní￾cio das "rodadas de licitação" da 
agência criada por FHC. 
Antenado o tempo todo nas 
questões que ferem a soberania na￾cional, Brizola morreu empenhado 
em denunciar a 6'. rodada de licita￾ções da ANP marcada para agosto 
próximo para a entrega das chama￾das '"áreas azuis", comprovadamen￾te ricas em petróleo segundo a Petro￾brás - 0111 verdadeiro "crime contra 
o Brasil", nas palavras de Brizola, só 
que agora perpetrado pelo presiden￾te Lula da Silva, e sua ministra Dihna 
Roussef, uma ex-militante do PDT 
do Rio Grande do Sul. 
Garotinho, eleito em 1998, an￾tes mesmo antes da posse abala 
suas relações com Leonel Brizola 
por não ouvi-lo na escolha do se￾cretariado preferindo, segundo ex￾pressão usada por Brizola ""passe￾ar dentro do PDT, como quem pas￾seia com um carrinho de compras 
dentro supenuercado. pegando nas 
prateleiras o que o mais lhe agra￾dasse e servisse". A gota d'água 
para que a divergência entre os dois 
viesse a público foi a nomeação, 
para Secretário de Justiça do advo￾gado Sérgio Zveiter, declarado ad￾versário político de Leonel Brizola. As relações entre o governador re￾cém eleito e Brizola se agravaram 
com a repercussão por toda a mídia 
das declarações de um e de outro. 
2000, o candidato a Prefeito 
do Rio de Janeiro 
Preocupado com o avanço de 
Garotinho sobre as bases do parti￾do, Brizola decide se lançar candi￾dato a prefeito da Cidade do Rio de 
Janeiro nas eleições de 2000, aos 
78 anos de idade, como forma de 
'·fechar" o partido, wlindo-o em tor￾no do seu nome. Brizola sai as ruas 
com grande entusiasmo, empenhan￾do-se a fundo na busca do voto, per￾correndo todos os bairros as princi￾pais favelas da cidade, repetindo a 
mesma tática eleitoral que emprega￾ra em 1982 e lhe garantira,jw1to com os debates políticos, sua espetacular 
vitória nas eleições. Os debates não 
acontecem por temor de seus adver· 
sários- o noticiário da mídia se resu￾me a falar das pesquisas e a registrar, 
factualmente, as andanças dos can￾didatos sem abrir nenhum espaço 
para a discussão de projetos. 
O empenho e as andanças de 
Brizola pelo Rio de Janeiro, recep￾cionado calorosamente por onde 
passava, inexplicavelmente, não 
alteraram em momento algum o 
quadro das pesquisas -quatro, cin￾co ou até mais divulgadas semanal￾mente pela mídia, feitas pelos di￾versos institutos geralmente por 
encomenda de veículos de comuni￾cação - sendo a principal delas a 
Ibope/Rede Globo. A campanha 
eleitoral de Brizola, que começara 
vigorosa, não avança e as dificulda￾des~ começrun a aparecer, especi￾almente as financeiras. Atento ao 
quadro, Brízola denuncia em várias 
ocasiões o que definiu como "cartel 
das pesquisas", onde uns poucos se 
reuniriam para combinar resultados 
em detrimento da verdade matemá￾tica. Brizola prega no deserto, ne￾1iliun1jomal, nenhuma rádio, nenhu￾Brizola sempre cultuou os símbolos da Pátria, 
e principalmente a bandeira do Brasil 
ma televisão lhe dá espaço. Do aíto 
da autoridade de ter sido vítima da 
primeira tentativa de fraude eletrô￾nica registrada no Brasil, o Caso 
Proconsult de 1982, Brizola tam￾bém aumenta o tom da denúncia 
pelo uso no Brasil de urnas eletrô￾nicas inauditáveis e infiscalizáveis. 
Brizola atraiu multidões por 
onde passou - no calçadão de Cam￾po Grande, no conjunto habitacio￾nal Amarelinho de !rajá, em Cor￾dovil, no calçadão de Bangu, na rua 
do Riachuelo, quando visitou a en￾trada do Bairro de Fátima., no lar￾go da favela de Vigário Geral, no 
Largo do Bicão, em Jacarepaguá, e 
tantos outros bairros. Brizola atra￾vessou a pé a favela do Jacarezi· 
nho, entrando de um lado e saindo 
do outro, para prestigiar um candi￾dato a vereador com reduto naque￾la localidade; enquanto seu candi￾dato a vice, Miro Teixeira, pouco 
aparecia nesses eventos. 
Brizola realizou dezenas de 
mini-comícios pelas áreas popula￾res da cidade também porque era o 
único candidato com total e abso￾luto transito em todos os lugares 
por onde passava. Aos 78 anos, 
vigoroso, subiu a pé o morro de 
São Carlos e andou praticamente 
a pé todo o conjunto habitacional 
de Cordovil, distribuindo bonés 
vermelhos com os dizeres Brizola 
Prefeito, PDT 12, disputados pe￾los eleitores e preservados com 
muito carinho especialmente pela 
população mais simples e mais 
pobre - varredores, flanelinhas, 
pessoas do povo - até hoje. 
O candidato vencedor, César 
Maia. por exemplo, teve que sair 
as pressas do mercadinho da Ca￾deg, em Benfica, devido a violenta 
reação a sua política de sistemática 
perseguição ao comércio ambulan· 
te. Brizola não foi hostilizado, pelo 
contrário, era saudado, por onde 
andasse na cidade do Rio de Janei￾ro. Veio a eleição e Brizola perdeu, 
as umas eletrônicas confirmarain as 
pesquisas eleitorais e a mídia. 
Os desentendimentos com Ga￾rotinho se acirram, Brizola convo￾ca o Diretório Regional .do Rio de 
Janeiro para discutir a questão, o 
Governador Garotinho acaba sen￾do expulso do PDT por decisão dos 
integrantes do Diretório Regional. Para evitar desgaste maior, Garoti￾nho rapidamente se desfilia e assi￾na ficha no PSB com estardalhaço, 
levando com ele vários filiados do 
PDT que, nw11a espécie de "rito de 
passagem", antes de assinarem fi￾cha no PSB, publicamente jogam 
bandeiras do PDT no chão sob as 
vistas de Garotinho. 
Brizola paulatinamente aumen￾ta o tom de suas críticas ao sistema 
eleitoral eletrônico em uso no 
país, com assessoramento dos 
técnicos do Fórum do Voto Ele￾trônico (\vww.votoscguro.org) · 
tornando-se defensor incondicio￾nal da impressão do voto eletrô￾nico, para que os brasileiros pu￾dessem, novamente. fiscalizar o 
próprio voto - conferindo-o im- presso - antes dele ser exclusiva￾mente registrado eletronicamen￾te, num processo distante do en￾tendimento do simples do eleitor. 
2002, a última campanha -
Brizola Senador 
Em 2002, atendendo à necessi￾dade de fortalecér o PDT, Brizola 
cedeu aos argumentos de compa￾nheiros e, juntamente com Carlos 
Lupi, saiu candidato ao Senado. No 
plano nacional, Brizola coordenou 
o apoio à candidatura de Ciro Go￾mes, numa aliança com o PTB e o 
PPS, depois de tentar, meses a fio, 
fazer com que o ex-presidente !ta￾PUBLICADO 
Jern11 die- f_b__T __ _ 
:---:--.-
N ·º-------------- Dstaó2.J,_; _Qfi_JQ!i 
Aaalnatura. ··---~- ,. 
mcre:rrtt ••• 'ª mar Franco se filiasse ao PDT e 
saísse candidato à Presidência da 
República. Itamar, que teria como candidato a vice Ciro Gomes, ficou 
na dúvida se sairia ou não do 
PMDB aceitando o convite de Bri￾zola, acaba não saindo do PMDB e 
logo depois, torpedeado dentro do 
PMDB, deixa de ser possivel can￾didato à Presidência da República. 
Brizola, por sua vez, não aceitar 
ser novamente candidato da presi￾dente - embora seu nome tenha 
sido lançado com o apoio de deze￾nas de companheiros do PDT. 
Por fim, sem opção e por con￾siderar Lula despreparado, concor￾da em apoiar a candidanua do ex￾govemador do Ceará Ciro Gomes, 
pelo PPS. Para governador do Rio 
de Janeiro, Brizola indica o jovem 
prefeito de Niterói, Jorge Roberto 
Silveira, considerado um dos melho￾res administradores municipais do 
país e filho da maior liderança tra￾balhista do antigo Estado do Rio de 
Janeiro, governador Roberto Silvei￾ra. Para fortalecer a chapa no Rio e 
atendendo a apelo de companhei￾ros, Brizola aceita disputar uma vaga 
no Senado ao lado de Carlos Lupi. 
A mídia, mais uma vez, sob o 
falso argumento de que as eleições 
presidenciais tinham prioridade, 
negavam espaço jornalístico à cam￾panha pelo governo estadual e pelo 
Senado, ao mesmo tempo em que 
era preparado, via instirutos de pes￾quisa, o terreno para uma nova "mor￾te política" de Leonel Brizola. Ao 
contrário da eleição para Prefeito, 
Brizola deixa a can1panha de rua a 
cargo de Jorge Roberto e Carlos 
Lupi, dedicando-se apenas as gra￾vações de televisão - para os pro- gramas nacionais, de apoio a Ciro 
Gomes, e para os programas esta￾duais, pedindo votos para ele, para 
Lupi e para Jorge Roberto Silveira. 
Político mais experiente do 
Brasil, com 60 anos de vida públi￾ca, Brizola confia na sua experiên￾cia e na força do q ne chamava de 
seus "pensamentos conclusivos" 
para tocar a campanha para o Se￾nado e, ao mesmo tempo, apoiar as 
campanhas - através do horário elei￾toral gratuito e inserções no rádio e 
televisão, regionais e nacionais-de 
Ciro, Jorge Roberto e Lupi. No Rio 
de Janeiro a campanha se desdobra 
sem debates para o Senado, embo￾ra eles aconteçam para governador 
e para presidente da República, re￾legada a segundo plano pelos mei￾os de comunicação, a campanJia 
para o Senado se restringe a per￾manente divulgação, via mídia, de 
que os candidatos "a", ''b", "'c", etc 
- ocupavam tais e tais lugares na 
preferência do eleitorado - sem es￾paço para projetos, iniciativas, 
políticas públicas. 
Ciro sobe nas pesquisas, chega 
perto da ponta segundo as mesmas 
pesquisas eleitornis que Brizola não 
cansou de atacar como cartelizadas. 
mas cai e finalmente, perto do pri￾meiro turno, diante da possibilida￾de - dita pelas mesmas pesquisas, 
de que Lula poderia ganJ1ar as elei￾ções já no primeiro nuno - Brizola 
sugere a Ciro Gomes que abra ca￾minho para Lula, facilitando o ca- minho dele para a Presidência- der￾rotando Serra de wna vez. Ciro não 
aceita a sugestão, rompe com Bri￾zola, Lula vai para o segundo tur- no. Na eleição para as duas vagas 
para o Senado, onde Brizola era pra￾ticamente o segundo candidato na preferência de muitos eleitores - até os do PT - Brizola inexplica￾velmente amarga um sexto lugar, 
atrás-pela ordem -do ex-deputa￾do estadual Sergio Cabral Filho, ali￾a : nman nn 
ado do governador Garotinho e de￾safeto de Marcelo Alencar; do de￾putado federal Crivella, homem de 
confiança do "bispo" Macedo, da 
Igreja Universal do Reino de Deus, 
que soma 3,2 milhões de votos em￾bora tradicionalmente o eleitorado 
evangélico no Rio de Janeiro nunca 
tivesse ultrapassado 1,8 milhão de 
votos; do jornalista Paulo Alberto 
Monteiro de Barros, mais conheci￾do pelo pseudôuimo de Arthur da 
Távola; e do "bispo" Manoel Fer￾reira - um absoluto desconhecido 
fora das rodas evangélicas, também 
ligado ao governador Garotinho -
que fez questão, quando Brizola 
esteve na rádio CBN onde ele já se 
encontrava, de posar ao lado do que 
ele próprio definiu como "uma das 
maiores lideranças políticas do Bra￾sil", na presença dos jornalistas pre￾sentes - inclusive o titular do pro￾grama, Sidney Rezende. 
Lula vence no plano federal, 
no plano estadual vence a candi￾data Rosinha Garotinho, enquan￾to Brizola e o PDT amargavam 
nova derrota imposta pela união 
de fortes interesses. 
No dia seguinte ao anúncio da vi￾tória de Lula no primeiro turno, Bri￾zola recebe em sua casa uma ligação 
de Luiz Inácio da Silva quando estava 
reunido com assessores que acompa￾nharam, no TRE do Rio de Janeiro, a 
dança dos nún1eros da apuração que, 
em determinado momento, deram 
para Lula resultado negativo em mi￾lhares e milhares de votos. Lula pediu 
apoio do PDT para o segnndo turno, 
prontamente dado por Brizola em 
nome de todo o PDT, que abertamen- te - mais uma vez - apoiou integral￾mente tUna candidanu-a de Lula à Pre￾sidência da República. 
No segundo nuno das eleições 
presidenciais, Leonel Brizola e o 
PDT proclamam apoio a Lula, com 
a intenção de "barrar o continuís￾mo de FHC", representado pelo 
candidato José Serra. Os trabalhis￾tas se dedicam com afinco a candi￾danua Lula e o candidato do PT, 
com integral apoio de Brizola e de 
todo o PDT, finalmente chega a Presidência da República depois de 
disputar três vezes a eleição. Elei￾to com 53 milhões de votos, antes 
mesmo de empossados, Lula e seus liderados tiram a máscara ao entre￾garem a direção do Banco Central 
aos banqueiros, atrelando-se ao 
FMI. Lula, sem ouvir Brizola, no￾meia Miro Teixeira Ministro das 
Comunicações e abre uma crise com Brizola que exigia que a dire￾ção do partido fosse ouvida insti￾tucionalmente, antes do PT partir 
para nomeações e cooptação de 
quadros pedetistas. As críticas de 
Brizola foram num crescendo até 
que se tornaram públicas quando, 
numa única reunião, o ministro-che￾fe do Gabinete Civil, José Dirceu, 
empregando práticas clientelistas e 
unicamente preocupado em ampli￾ar a base parlamentar do Governo, 
sem qualquer compromisso com o antigo, coopta cerca de seis depu￾tados do PDT com a ajuda de Miro 
Teixeira e sugere o ingresso deles 
no PTB. Brizola se atrita com Miro 
e pouco depois não resta ao antigo 
líder do PDT outro caminho que 
não seja o de deixar o PDT, trocado 
pela legenda do PPS. 
Preocupado com a política agres￾siva de cooptação do PT, em dezem￾bro de 2003, Brizola pede e o Dire￾tório Nacional do PDT atende, vo- tando a saída do partido da base de 
apoio ao governo, determinando a 
todos os seus filiados que entregas￾sem os poucos cargos que detinham na 
adminislração federal. O episódio mar￾21 rmm:zr nmn 'S 5f!![]IJ 
No Encontro Nacional do PDT em Süo Paulo, no dia 4 de junho, Brizola 
fez seu último discurso ao lado de Paulinho da Força Sindical 
cou, mais uma vez, espaço para que 
oportunistas se abrigavam sob o man￾to brizolísta fizessem sua opção pre￾ferencial pelo poder, abandonando o 
debate de idéias e as lutas do povo 
trabalhador. Ao mesmo tempo que ou￾tros companheiros, que isoladamente 
ocupavani cargos no govemo tederal, 
atendem ao chamamento partidário e 
devolvem no tempo aprazado, 30 de 
janeiro de 2004-os cargos que ocupa- vam no governo do PT. 
Aproximando-se as eleições 
municipais, preocupado com a 
questão nacional, uma semana an￾tes da realização do Encontro Na￾cional do PDT em São Paulo, nos 
dias 4 e 5 de junho últimos, sua 
última participação em evento pú￾blico - falando no edifício Orly, 
sede do Diretório Nacional, para 
um grupo de dirigentes partidári￾os procedentes de todo o Brasil, 
Brízola manifestou sua certeza de 
que o Brasil, nos dias de hoje, vive 
um momento de virada. 
Argumentou que via os dias 
de hoje, diante da decepção da po￾pulação com a política de Lula e 
do PT, tempos semelhantes ao que 
vivera em 1961, pouco antes do 
desencadeamento da Campanha da 
Legalidade. Brincando, disse que 
naqueles dias, embora fosse gover￾nador do Rio Grande do Sul, evi- tava passar perto até de filas de 
ônibus "para não levar vaias". Ex￾plicou que o Marechal Lott tinha 
perdido as eleições, Jânio Quadros, 
o novo presidente, isolara João 
Goulart e ele, lá no Rio Grande do 
Sul - atravessava momentos difi￾cílimos para governar. 
Então veio a tentativa de golpe 
dos ministros militares que tenta- ram impedir a posse de João Gou￾lart, que estava na China. Ele, indig￾nado com a situação, decidiu reagir 
e convocou seus companheiros para a reação -desencadeando a Campa￾nha da Legalidade. Segundo Brizo￾la, tudo virou, as pessoas começa￾ram a afluir a praça fronteira ao Pa￾lácio Piratini - virou história. Na sua opinião, concluiu, o 
PDT vive momentos muito pare￾cidos com os que ele viveu naquela 
época pouco antes do início da Le￾galidade, mas que ele acreditava na 
virada, que os ventos da história estavam soprando a favor do PDT. 
Explicou que o governo federal 
não só cai nas pesquisas como 
cada vez afasta-se mais das pes￾soas que o elegeram, que acredi￾tava que a campanha eleitoral de 
outubro próximo, na verdade, vai 
ser nacionalizada e o início da 
campanha eleitoral de 2006. Bri￾zola garantiu que, na sua visão, 
as campanhas eleitorais para as 
eleições municipais deste ano e a presidente de 2006 serão uma só. 
Brizola morreu empenhado em construir condições para que a bandeira pedetista voltasse a bri￾lhar em todo o país e no Encon￾tro Nacional do PDT realizado 
em São Paulo, sua última apari￾ção pública onde, proferiu seu 
último discurso - mostrando di￾daticamente toda a sua disposi￾ção para a luta e a importância de 
se preservar as memórias de Var￾gas, João Goulart e Marcondes 
Filho, um dos pais do Trabalhis- mo. Brizola em seguida foi para 
o Uruguai e de lá voltou, sozinho e em avião de carreira, já doente. 
Morreu na cancha confirmando uma das milhares de frases que 
eternizou no dicionário político 
do Brasil: cavalo de raça morre na 
pista. (colaboraram Osvaldo Ma￾neschy e Antonio Oséas) 
PUBLICADO 
Jotn•I ~-eÂ_r __ ._/õII 
N ·ª----·------- D ataJ,!__ 10_\Q ___ J ______ _ 
,t,ulnatura 
"eer:re· w·r r e· -r r::rr·m nrrr sm 
Feliz Ano Novo, Leonel Brizola 
Passei a noite do Ano Novo no apartamento de Brizola, de frente 
para o espetáculo de fogos que desenhou nos céus de Copacabana 
os signos deste 2004. Como não podia deixar de ser, cheguei bem 
antes da meia-noite. Tinha muito que conversar com ele. E queria 
conhecer mais suas opiniões sobre os acontecimentos recentes 
Não éramos muitos: alguns 
amigos dos primeiros tempos do 
"comandante", um filho e vári￾os netos. Não podia ter sido 
melhor a oportunidade para uma 
boa prosa com o homem que 
simboliza a própria dignidade 
nacional - cuja história invejá￾vel, mais rica do que a de qual￾quer outro mortal dos nossos 
dias, o habilita como o melhor 
mostrando suas vísceras pútri￾das, corrompíveis, falaciosas, 
vai produzir o fermento da re￾volta e da indignação. Porque 
os que não tiveram pejo em pas￾sar uma rasteira grosseira na 
esperança massificada vão se 
enforcar em suas próprias cor￾das. E levarão junto a súcia ar￾rivista que só pensa em causa 
própria, nada tendo a oferecer 
conselheiro do por ser de seus povo brasileiro 
nestes tempos 
de surpreen￾dentes meta￾morfoses. 
"A história de maus hábitos o 
olhar vesgo e 
fixo sobre os 
combalidos co￾fres de erário. 
Fui encon￾trar o ancião e 
lepareicom 
uma Nação não 
se constrói de 
dá-lá toma-cá 
to tempo, tempo 
curto, sem dúvida. 
jovem se- d 
nhor, incrivel- entre etentores 
Paradoxal￾mente, pela na￾tureza do pro￾cesso político 
brasileiro, a 
correlação de 
forças mudou 
Essas reflexões 
hoje me vêm à ca￾beça nas compara￾ções inevitáveis 
que teria de fazer, 
decorridas duas se￾manas da conversa 
com o mestre Bri￾zola. Enquanto os 
políticos que gas￾tam fortunas para 
ganhar um manda￾to participam do 
leilão de fatias do 
poder - que é con￾trolado por. quem 
não aparece em 
cena - o mais vivi￾do dos nossos pró￾ceres prepara seus 
músculos para are￾construção de um 
novo momento, 
com a sabedoria 
dos mais velhos e 
o aquecimento dos 
atletas olímpicos. 
mente disposto, 
como se ainda 
lhe restasse a 
de mandatos" 
tarefa de uma longa jornada 
cívica. Sem exagerar, se1n que￾rer jogar confetes, posso lhe 
dizer, com toda a sinceridade, 
que ninguém daria nem ses￾senta anos para ele. Seus 
olhos pareciam exibir o brilho 
dos raros corações valentes, 
dos predestinados, para quem 
o destino reservou uma vida 
secular, oferecendo-a ao mais 
nobre dos ofícios - o de servir 
a Pátria com despojamento e 
sentimentos pétreos. 
Contemplando suas disser￾tações ágeis e seguras sobre os 
desdobramentos do processo 
histórico, em que foi protago￾nista de peito aberto, tive a sen￾sação de que eu e os outros par￾ceiros estávamos ganhando 
oxigênio novo. Porque o anfi￾trião fazia todas as honras da 
l, servia ele próprio o vinho 
~ _., convidados e não se furta￾va a falar sobre assuntos de 
hoje e de ontem. O mais mar￾cante, porém, foi sua disposi￾ção de ouvir a cada um de nós 
com uma atenção tal que fazia 
desaparecer qualquer tipo de 
diferença - da experiência e da 
ascendência que naturalmente 
o fazem muito mais ouvido. 
A partir desse colóquio foi 
possível .desenvolver alguns 
raciocínios, todos apoiados 
no método mais infalível que 
conheço, a dialética. E mes￾clando a história da política 
brasileira com a atual conjun￾tura, não há risco em dizer que 
este ano vai ser inteiramente 
novo, de verdade. 
A mesma metamorfose que 
desnudou os últimos mitos, 
seu eixo. Erram 
redondamente os que medem 
o desempenho dos partidos 
pelo número de parlamenta￾res, muitos dos quais resul￾tantes do troca-troca despre￾zível que, por si, desmoraliza 
seus protagonistas. 
A história de uma nação 
não se constrói de dá-lá toma￾cá entre detentores de manda￾tos. Disso sabiam muito bem 
os que passaram anos faturan￾do o compor￾Isso quer dizer, 
sem mais delongas, que no li￾miar de completar 82 anos, como 
o velho Mao, Brizola tem tudo 
para conduzir o resgate da dig￾nidade vendida. Numa época 
em que se estendem com facili￾dade as expectativas de vida, o 
bom Quixote 
tamento abje￾to dos rivais, 
ressaltando 
valores que 
são válidos 
para todos, em 
qualquer épo￾ca, inclusive 
para eles. 
"No limiar de 
completar 82 
reacende no in￾consciente co￾letivo, que hoje 
percebe a olho 
nu as razões do 
complô mon￾tado para im￾pedir que ele 
se tornasse o 
presidente da 
República. 
Com certeza, 
sabem todos, 
sem exceção, 
o velho caudi￾lho não se bor￾raria diante 
das máfias do 
Mais do 
anos, como o 
velho Mao, 
Brizola tem tudo 
que isso: o 
exercício do 
poder é mais 
do que o fruir 
orgástico de 
deslumbran￾tes mordomi￾as. É um desa￾fio cada vez 
para conduzir o 
resgate da 
dignidade 
vendida" 
maior, que exige estatura mo￾ral, competência, sensibilidade, 
garra, dedicação, despojamen￾to e experiência. O Brasil de 
hoje é um baú de dívidas, de￾pendência externa, especula￾ção financeira incontrolável, 
caos social, desintegração e 
chantagens. Decifrar esses te￾oremas intemalizados por anos 
é obra para homens preparados 
e instituições enraizadas, os 
canastrões de aluguel possam 
até fazer gracinhas por um cer-
"mercado", 
nem se sujeitaria às ordens 
dos donos das torres gêmeas. 
O que ficou como maior im￾pressão da noite do Ano Novo 
foi exatamente a honesta cons￾tatação de que Brizola está no￾vinho em folha, por assim dizer. 
Não importa se o rebento do 
chaguismo, como sempre ape￾gado ao poder, a que serviu sem 
interrupção por toda a sua en￾ganosa trajetória, vai tentar so￾lapar a superestrutura parla￾mentar minguada do PDT, cum￾prindo tarefas do palácio. Não 
importa se outros medíocres pu￾silânimes, até os que falavam 
cobras e lagartos do traidor da 
vez, vão aproveitar a deixa para 
engrossar a fila dos pedintes 
de sinecuras e trânsito fácil 
para negociatas dos seus pa￾trocinadores. 
e vereadores, principalmente 
em cidades da envergadura do 
Rio de Janeiro, terá inevitavel￾mente que escolher entre os 
títeres dos podres poderes e 
sua verdadeira antítese. 
E sua verdadeira antítese, 
o seu contrário mais visível, é 
Brizola tem 
tudo para vol￾tar ao proscê￾nio no papel 
principal. Por￾que agora, cer￾tamente, em 
todos os can￾tos e recantos 
deve ter muita 
gente dizendo, 
mesmo ainda 
baixinho, que 
"Ainda temos 
Brizola como 
aquele que 
abriu mão a 
vida inteira 
dos facilitários 
ignominiosos 
para não se ex￾por ao vexame 
que hoje enco￾bre de infâmia, 
vergonha e 
opróbrio a ne￾fasta aliança 
que governa 
ícone maior do 
grandioso sonho 
do Brasil 
brasileiro" 
o verdadeiro líder tinha razão. 
E se tinha, tem. Se tem, não há 
como dispensá-lo de uma mis￾são que, por tudo o que acon￾teceu nesses meses de dec~p￾ção amarga, tem a configura￾ção de uma missão sagrada, 
pétrea, definitiva. 
Isso quer dizer, acentuo, 
que o processo político brasi￾leiro terá de ser reavaliado e re￾virado de cabeça para baixo a 
partir das eleições municipais. 
Que podem ser municipais, 
mas serão igualmente, pelas 
circunstâncias, também elei￾ções sob a égide das contradi￾ções nacionais. Quem for às 
urnas para escolher prefeitos 
nosso País de 
brincadeirinha, já que, decorri￾dos mais de 365 dias, nada fez, 
a não ser operar como uma 
grande clínica freudiana que 
tentar curar velhos traumas exis￾tenciais de rufiões enrustidos, 
enquanto os especuladores 
deitam e rolam, com uma desen￾voltura jamais testemunhada. 
Quem for às umas e tiver o 
mínimo de auto-estima e lucidez 
haverá de lembrar que nem tudo 
está perdido. Ainda temos Brizo￾la como ícone maior do grandio￾so sonho do Brasil brasileiro. 
Pedro Porfirio 
(Publicado no Jornal do PDT 
em fevereiro de 2004) 
PUBl,,.ICADO 
Jornal ...da_ r b í ·~~~~~~~-..,,,....--
"'·º·-------------- Data_"2.~_/.QS2_/ 04 
Aulnatura. 

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