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materia nº 50/2004

Tipo Projeto de Lei de Vereador
Número / Ano 50 / 2004
Date 2004-06-02
EmentaVEREADOR RENATINHO DA A DENOMINAÇÃO DE ESCRITOR ROQUE CALLAGE, A UM LOGRADOURO PUBLICO DO MUNICIPIO
native_id32413

Autoria

Tramitação (latest 1)

DateStatusTurnoTexto
2025-04-15 Proposição aprovada ARQUIVADO NA PASTA DENOMINAÇÃO DE RUAS 2004. LEI N°5966/2004

Documents (1)

texto original #

status: extracted · method: native · backend: pypdfium2 · confidence: 1.00 · pages: 24

Estado do Rio Grande do Sul
v. PREFEITURA MUNICIPAL DO RIO GRANDE
l<IO(»'l<
PATRlMCbNIO
V \I
DO
) ii/ GABINETE DO PREFEITO
RIO GRANDE DO SUL
LEI N° 5.966, DE 19 DE JULHO DE 2004
DA A DENOMINACAO DE ESCRITOR
ROQUE CALLAGE A UM LOGRADOURO
PUBLICO DO MUNICIPIO.
O PREFEITO MUNICIPAL DO RIO GRANDE, usando das
alribui^oes quc Ihe confere a Lei Organica, em seu Art. 51, Inciso III,
Faz saber que a Camara Municipal aprovou e ele sanciona a
seguintc Lei:
Art. 1° - Fica denominado de Escritor Roque Callage um
logradouro publico do Municfpio.
i Art. 2° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publica$ao.
Gabincte do Prefeito, 19 de julho de 2004.
\
/
FA BIO DE~mjV#f^A BRANCO
PrefeTfo LMuiiicipal
\
\
SMF/SMCP/ULT/UCU/PJ/CMRG/Pubiica?ao/Famnia cc:
^ii
Estado do Rio Grande do Sul
CAMARA MUNICIPAL DO RIO GRANDE
Of. n.0 727/04 Rio Grande, 28 de junho de 2004.
Proc. n° 874/04
Senhor Prefeito,
Apraz-nos cumprimenta-lo oportunidade que
encaminhamos a Vossa Excelencia, Projeto de Lei em anexo, aprovado em
sessao plenaria realizada no dia de hoje, para sua devida apreciayao.
Sendo o que tinliamos para o momento,
aproveitamos o ensejo para renovar os protestos de elevada estima e distinta
considerate.
Ver. Claudir
Presiden
iz
*-v
ANEXO: Da a denomina^ao de Escritor Roque Callage a um logradouro
publico do municipio.
Exmo. Sr.
Fabio de Oliveira Branco
Prefeito Municipal
Nesta
Rma General Vitorino, 441 - CEP 96200 310 - Fone (53) 231-1711 - Fax (53) 231-1786 - Rio Grande - RS 
e-mail: cmrg@vetorialnet.com.br site: www.camara.riogrande.rs.gov.br
DOE 6rgAOS, DOE SANGUE: SALVE VIDAS!
Bstado do Rio Grande do Sul
CAMARA MUNICIPAL DO RIO GRANDE
PROJETO DE LEI
DA A DENOMINACAO DE ESCRITOR ROQUE
CALLAGE A UM LOGRADOURO PUBLICO DO
MUNICIPIO.
Art. 1°- Fica denominada de Escritor Roque Callage a um
logradouro publico do municipio.
Art. 2°- Esta Lei entra em vigor na data de sua publica9ao.
cAma pa municipal
DO SJOgP'4 f'OE
p*.oni
Rua General Vitorino, 441 - CEP 96200-310 - Fone (53) 231-1711 - Fax (53) 231-1786 - Rio Grande - RS
e-mail: cmTgCflVetorialnet.com.br site: www.camara.riogrande.rs.gov.br
DOE ORGAOS, DOE SANGUE: SALVE VIDAS!
f.
R4 CZ 4
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
CAMARA MUNICIPAL DO RIO GRANDE
PROJETO DE LE! - PLV /2004
___ PROTOCOLADO SOB N° /20Q4
EM OM oL- / O^-
ATA
EXFEDIENTE / 72001
ACEITO EM / /2C01
APROVADO EM / /2Q04
REJETTAnO EM / /2001
AROT.WO
EMENTA.
Exmo. Sr, Presidenle.
O Vereador abaixo as^inado requer a V. Exa, apos ouvida a casa, seja
encaminhado u seguinte:
PROJETO DE LEI
44 Dd a denomina^Cw de Escritor Roque
Callage, a urn logradouro publico do
Manic{pio.
Artigo 1° - Fica denominado de Escritor Roque Callage, um
logradouro publico no Municipio.
Artigo 2° - Esta Lei entra em vigor na data sua publicagao.
/
VER. RENA TINHO
Lidenio PPS
Sala das Sessoes, 0V de Jurdio de 2004.
OBS. Em anexo copia do curricmm vitae e certidao de obito.
VISTO
Presidente
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(9 Certidao
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^5 kadhaAel CoAado-, o{{icUd {litv-ail￾ix& da ftegidUa Civil de na^d^nmtati e a&itM dM
1.° e X° didttictad, 1.a ^ana d&sta cidade de T^cvda
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REPOBLICA FEDERATIVA DO BF r£cm k. mum ^
tlSTADO DO RIO ORANDE DO 81
REGISTRO CfVIL - SAO GABRIEL?
CARMEN M. V. PEREIRA
OFICIAL
Oafjyfpl
Oficial
EDUARDO PEREIRA BITENCOURT
Ofacial .Ajt#
Certidao de Casamento
Certifieo que, revendo em meu cartdrio, o livro riQ B. -05 , folhas
__18 Iv a 102 sob w2_. 20
MRrCUE CALLAGE E AMNITA BANAL T1
, de consta o assento de casamento de;
«X...5QLTE|RQS.0£5TE: Estado, RES I nEfaE.S nfsta cidadf.-
08 realizado em. ds MA 10#- de 19.JAt
ELE, nascido U-LS-TE E.STADQ, COM 25 A NOS DE... L.QA.D.E.^.
d6 • dhr.f-.Mtef ~
LUIS CALLAGE. fllho de.
E or : .-.P/ARIA CANDIDA CALLAGE.-
COM 23 Arjps DE_ I DADE
ELA, nascida neste Estado.
Mo dim » ~ -ritr-. -.- - IPi.
A/Aa CRESTES BAN'LI
E de: JOSEF INA BANAL I.
NAO CONSTA NO TERMO".- A nubente passou a chamar-se
Observances
&0 Resist^
Nada consta r^° r>
OFiCIAL
C A ]jij
0 referido 4 verdade e dou ft.
27 d* ABR I a e 19.92,. Sdo Gabriel^
U O-iiDDi
OFlClAl' .
Oh
A Camara Municipal de Vereadores do Rio Grande
Ao vereador Paulo Renato M. Gomes
Solicito atraves do presente projeto a inclusao do nome do escritor rio￾grandense ROQUE CALLAGE em um dos bairros ou logradouros do municipio do Rio Grande.
Este projeto esta baseado em estudos realizados no curso de pos-gradua9ao em Historia da
formagao social, politico e cultural do Rio Grande do Sul, da Universidade Catolica de Pelotas,
sob o titulo “A influencia do escritor Roque Callage na Literatura Rio-grandense (1886-1931),
o qual o mesmo obteve conceito maximo (A).
Roque Callage amou esta terra e fez desse amor a mola propulsora de sua
vida. Vida que durou pouco, mas desse pouco, fez muito para o Rio Grande. Roque atravessou as
fronteiras do Estado para levar seu pampa a sociedade em geral, pois sempre foi um de sens
propositos divulgar e apresentar sua terra natal. Apresentou seu Estado ate mesmo em momentos
revolucionarios, como o caso da Revolu^ao de 23, mas sempre deixando clara a potencialidade
gaucha de enfrentar os bons e maus periodos.
Constata-se, assim, a marcante influencia da conjuntura republicana no
contexto literario da obra callagiana. Retratando aspectos vivenciados por ele no respectivo
confronto, mostra-se como uma fonte relevante no resgate historiogr£fico deste momento.
Tambem, sob o contexto da trajetoria literaria sul-rio-grandense, percebeu￾se que Roque Callage representa um marco de enfatiza9ao das riquezas da terra gaucha,
interferindo em grande parte, na produ9ao literaria posterior.
Roque Callage, um escritor que viveu para e pelo Rio Grande, onde sua
contribui9ao reside nao so como fonte historiografica, mas tambem, e sobretudo, como esthnulo
ao apego e admira9ao a identidade gaucha.
Atenciosamente
TANO
M •
ROQUE CALLAGE: O ESCRITOR QUE FEZ DIFERENQA NA
LITERATURA RIO-GRANDENSE
Este trabalho e dedicado a uma das figuras mais importantes da
Literatura Rio-Grandense. Almeja-se comprovar tal afirmativa atraves da vida e obra do
autor, realizando breves anaKses de parte de suas obras e cronicasjornalisticas.
A literatura rio-grandense ganhou uma de suas maiores expressoes literarias
no dia 13 de dezembro de 18861, na cidade de Santa Maria, com o nascimento de Roque
Callage. Filho do imigrante italiano Luis Callage e de Maria Candida Leal de Oliveira.
Sua infancia foi de grandes dificuldades, pois nascido em ber9o desprovido
de recursos financeiros, teve de ingressar cedo no trabalho, e por isso, foi obrigado a abrir
mao dos estudos, cursando apenas o primario.
A maestria com as letras Ihe coube a partir do esfor90, boa vontade e
perseveran9a nas leituras que, consequentemente, o levaram ate o autodidatismo. E
interessante ressaltar que dentro da Historia da Literatura, tanto Universal como Brasileira,
sao grandes os exemplos de homens consagrados do mundo literario considerados
autodidatas. Machado de Assis e inn deles.
Roque Callage, mesmo tendo que enfrentar tantas barreiras foi um homem
de garra, um lutador, como podemos constatar na declara9ao de seu irmao, o tambem
escritor Fernando Callage:
... foi um infatigavel lutador, desde muito cedo,
saldo do colegio, teve que lutar pela vida,
ingressando no comercio. Por isso, sua
1 Como ja corrigiu a data do nascimento do autor Romeu Beltrao em Cronologia Historica de Santa Maria, 2a
ed., do proprio autor.
adolescencia foi marcada por uma tormentosa
serie de trabalhos e dissabores. Nesse tempo, - jd
trazia consigo os sintomas do mal que urn diet havia
de o vitimar.2
Ainda, esclarece Fernando, sobre a vida literaria do irmao:
No comercio, como caixeiro de balcdo, estudava
com afinco. Enquanto os sens colegas nas boras de
folga procuravam distragoes, Roque comprava
livros e fechava-se no seu quarto a ler, estudando
ate tardias boras da noite,, a luz mortiga de uma
vela estearina. Fugia sempre de bailes, de
quaisquer diversoes que pudessemprejudicar o seu
gosto pelo estudo. Era por temperamento avesso a
qualquer manifestagdo de ruido, de alegria. Ndo
podia estarparado cinco minutos sem nada ter que
fazer. Quando nao estudava, divertia-se
colecionando selos, gosto este que se Ihe prolongou
pela existencia a fora. Sua vida foi, em virtude
disso, um drama silencioso de sofrimento.3
A aprecia9ao pelo jomalismo teve como ponto inicial os jomais semanais
“O Estudante ” e “O Bohemio Posteriormente, prosseguiu no meio atraves de uma singela
contribunpao para “A Sogra”, semanario de cunho critico de AJcides Ramos. Neste se pode
ler inspirados versos resultantes do genero literario em destaque entre a juventude da epoca,
e “O Popular”, de Avelino Pereira, onde foram inumeros os textos publicados, sempre
com a marca do memoravel mestre portugues E9a de Queiros, sendo que este Ihe marcou a
fase de produ9ao literaria da juventude. Residindo ainda em Santa Maria, ingressa na
reda9ao do jomal “O Estado ”, dirigido pelo amigo Andrade Neves Neto.4
O brilhantismo de Roque foi mais uma vez evidenciado no ano de 1907, com
a abertura em Santa Maria, do Colegio Italo-Brasileiro, por Umberto Ancaram, agente
#
2 CALLAGE, Fernando, apud. MACHADO, Propicio da. Roque Callage: Vida, Obra e Antologia. Porto
Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Comissao Executiva para as Comemora96es do
Centenario da Imigra9ao Italiana, 1975, p. 34.
3 Idem notar anterior.
4 Joaquim Andrade Neves foi escritor, advogado e jornalista e grande amigo de Roque Callage, alem de ser
figura cultural importantissima para Santa Maria.
Em Terra Gaucha, o autor nos demonstra a vida campeira no initio do
seculo vinte, passando-nos toda a imagem fiel e precisa do pampa e do homem rio￾grandense. Constata-se a partir da breve analise dos contos Pessimismo de Guasca e
Civilizagao, os dramas gerados nos personagens pela transforma9ao do campo e o
progresso da colonia, como pode se observar:
Com o novo ramal da Viagao Ferrea, cortando
agora a larga exten-sdo do municipio, em demanda
das novas linhas que patiam para a fronteira
sulina, (...)
Depots que comegou a vertigem dos trens foi um
abandono tudo, um grande baque no sen incerto
ideal de grandeza futura... Apenas revia os belos
tempos perdidos, a mocidade que fugira, viagens e
viagens...10
E possivel perceber tambem, na obra de Roque, uma discreta analise
psicologica por parte do autor para com suas personagens como no exemplo:
Uma saudade pungia em cada queda da habitagdo
moribunda. Isidro deixou-se ficar, preso,
demoradamente, no seio andnimo daquelas ruinas,
falando com elas, vivendo pelo reateamento das
lembrangas, na mesma dor, no mesmo abalo
doloroso.11
Os ultimos acontecimentos importantes para Roque, na cidade de Sao
Gabriel, foram assumir a diregao de jomal “Didrio da Tarde”, onde permaneceu ate 1916,
e o matrimonio com “Anita Banalli” Ainda, neste mesmo ano, o autor se transfere para
Porto Alegre, enquanto sua familia permaneceria em Sao Gabriel.
Posteriormente, segue para o Rio de Janeiro a convite de Alcides Maya,
onde este o insere no jornalismo. Esse acontecimento Ihe presenteou com muitas amizades
influentes no meio jomalistico daquela cidade.
10 CALLAGE, Roque. Civilizasao. In. Terra Gaucha: cenas da vida Rio-Grandense. (Org.) Jose Newton
Cardoso Marchiori. Santa Maria: Ed. UFSM, 2000. pp. 48-9.
11 Idem, p. 70.
“O Combatente” era o nome do jomal dirigido pelo poeta Manoel do
Carmo, este foi o ultimo trabalho do autor em sua terra natal. Durante esse periodo
conheceu um dos grandes estimuladores de sua obra literaria, Marcelo da Gama. A partir
dai Callage vai se afastando - em etapas progressivas - da influencia que o autor portugues
Ega de Queiros exercia sobre suas produgoes.
Sua segunda obra chega no ano de 1910, chama-se Escombros; desta vez
Roque agradou a critica, mas mesmo assim continuou “um escritor romdntico, que ainda
o
nao achara um caminho definitivo ” .
Passados alguns anos, Roque transfere-se de Santa Maria para Sao Gabriel,
onde assume a fungao de jomalista nas redagoes de “A Tribuna ”, “O Comercio ” e “O
Didrio da Tarde”. Essa mudanga Ihe deu a chance de aprofundar-se na cultura rio￾grandense, entrando assim em contato com tropeiros, peoes de estancia e ate mesmo
participando de rodas ao pe do fogo dos galpoes.
Seu circulo de amizades na nova terra, fica maior e mais culto com a
presenga de Alcides Maya, que proporcionou ao autor um redirecionamento na sua
produgao literaria. E publicado entao Terra Gaucha (1914), onde surge um Callage
maduro, um descritivista do pampa gaucho, embora nao fosse resultado de uma tendencia
pessoal, mas antes, um modismo da epoca. O Rio Grande, marginalizado do resto do Pais
pela politica do “Cafe com leite”, onde se via no regionalismo uma forma de auto￾afirmagao. Assim, o autor consagra-se como Regionalista. Confonne referanda a citagao a
seguir:
Terminara-se o combate de Ponche Verde, onde as
hostes heroicas da cavalaria de Canabarro, depots
de um encontro violento, a cargos de langa e fogo,
cantaram vitoria sobre as forgas legalistas ao
mando de Bento Manuel, o valente guerreiro
bandeador que tanta perseguigdo deitara a
republica constituida de Piratini.9
8 CALLAGE, Roque. Terra Gaucha: cenas da vida Rio-grandense. (Org.) Jose Newton Cardoso Marchiori.
Santa Maria: Ed. UFSM, 2000, p. 12.
9 Idem, p. 24.
fh /y
Seu convivio com a sociedade carioca, apos dois anos, Ihe foi tirado com a
dramatica noticia do falecimento de seu filho primogenito Paulo. Desse mfortunio surge a
dor e a saudade de um pai privado pela morte do filho amado, neste contexto, em apenas
dois dias, Callage produz tres sonetos Anita, Sofrer insano e Amargura. Abaixo, segue
transcrito o soneto Amargura'.
Entre ditosas ilusdes erguemos
Nosso ninho de amor, - risonho altar,
E desse amor, ofruto que tivemos
Veto depots a morte arrebatar!
Longe de ti, nem lagrimas podemos
Em amargo consorcio derramar,
Lamentando o filhinho que perdemos,
Que de encantos enchia nosso lar!
Hoje, men pobre coragdo, enfermo,
Na soliddo vazia do meu ermo
Assim, sozinho triste, abandonado,
Vive ligado a dor, saudosa ausente,
Lembrando nas agruras do presente
As horas venturosas do passado.12
E importante esclarecer que Roque, mesmo sendo privado do convivio do
filho mais velho, ainda daria continuidade a patemidade com Alcides e Carlos Orestes
Callage.
A partir desse acontecimento dramatico, Roque deixa o Rio de Janeiro e
retorna ao Rio Grande tao amado, abandonando sua vida professional, mas levando em sua
bagagem jomalistica, a experiencia de trabalhar nas reda9oes dos jomais “A Noite”,
“Gazeta de Noticias " e “A Tribuna Fecha-se entao um ciclo importante na vida do autor,
periodo este repleto de reconhecimento e prestigio, contribumdo assim, para elevar o nivel
cultural de seu Estado.
12 CALLGE, Roque, apud MACHADO, Propicio da. Roque Callage Vida, Obra e Antologia. Porto Alegre.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Comissao Executiva para as Comemoragoes do Centenario da
Imigra<?ao Italiana, 1975, p. 60.
i
Meu pai esteve a /rente das operagdes da
Revolugdo, por correspondente do Correio do
Povo. Alt escreveu o livro Dramas Coxilhas, com o
subtitulo de Episodios da Revolugdo Rio￾Grandense de 1923.15
Tal obra reune episodios reais da revolu^ao de 23, os contos sao repletos de
cenas tragicas que revelam o barbarismo sem freios de tal acontecimento. A terra gaucha
foi encharcada com o sangiie de seus filhos, sao descritas cenas de odio e selvageria, como
fica explicito em trechos da obra:
Nenhum so homem escapou! Por ordem do general
commandante, num gesto de odio incontido
tomara-se uma medida formal afim de evitar o
incommodo de conduzir prisioneiros: todos elles,
sem excepcdo de um s6,foram degolados, passados
afaca!...
O inimigo ndo se poupa.
Era o lemma terrivel da epoca.16
Roque foi de total perspicacia em seu relato, o que comprova o dantesco
horror de uma revolu9ao, como no relato a seguir:
Um a um, dias depots, baixaram os corvos para o
repasto Que qfferecia o combatente insepulto.
Eram amontoados de sombras negras e sinistras,
precipitando-se porsobre o cadaver, destruindo a
bicadas o corpo que se putrefazia ao sol, sobre a
terra quefora seu bergo e o seu tumulo.17
15 Trecho da carta enviada a autora desta monografia em 10.10.2002.
16 CALLAGE, Roque. Boi Preto. In. O Drama das Coxilhas. Sao Paulo. Monteiro Lobato & Co. - Editores,
1923. p. 38.
17 CALLAGE, Roque. Aos corvos! In: O Drama das Coxilhas. Sao Paulo: Monteiro Lobato & Co. - Editores,
1923, p. 92.
terra que tanto amava e deixou aqueles amigos que tanto o amaram. Walter Spalding se
refere ao fato poeticamente:
Ckovia torrencialmente. Eram as lagrimas que a
natureza Gaucha - natureza que ele tanto amou, -
derramava, saudosa, sobre o tumulo daquele que
tanto a decantara em sens contos.19
Carlos O. Callage desabafa com emo^o ao lembrar a morte do pai:
Ah, se a asma ndo roubasse prematuramente do
men convtvio essa fascinante figura, morreu com
43 anos apenas. Tenho certeza: - ele tinha muito a
dar ao filho, principalmente a sua experiencia e
sensibilidade. Perdi, com a morte, urn tesouro de
ordem intelectual, que ndo se acha muito
facilmente, pois para obte-la ha diversos fatores
que se conjugam...20
O Rio Grande do Sul nao esqueceu seu filho prodigo, pois no ano posterior a
sua morte, mn grupo de amigos Ihe prestou uma homenagem, lan^aram o livro Roque
Callage, homenagem que Ihe presta um grupo de amigos ao comemorar-se o primeiro
aniversario de sua morte. Toda a saudade e apre9o pelo amigo esta contida na primeira
pagina da obra, transcrita a seguir:
In Memoriam
Esta homenagem dispensa quaesquer explicagoes,
tal a deslumbrante evidencia da suajustiga: Roque
Callage, o admirdvel paizagista da sua terra, que
elle amou e celebrou nos seus valores mais puros e
tradicionaes, tudo merece do Rio Grande do Sul.
Nos, amigos de Roque Callage, no 1° aniversario
de seu desapparecimento, resolvemos reunir em
volume tudo quanto a imprensa brasileira disse do
illustre escriptor...21
19 Idem. 19. p.251.
20Trecho de carta enviada a autora desta monografia Veridiana Caetano ao termino das ferias do ver&o de
2002.
21 CARRAZZONI, Andre et al. Roque Callage, homenagem que Ihe presta um grupo de amigos ao
comemorar-se o primeiro aniversario de sua morte. Porto Alegre: Globo, 1932, p. 5.
E confirmada a admira9ao dos amigos a Roque Callage. Isso comprova o
quanto Callage significou para a sociedade sulina em geral.
Produ^ao jornalistica Callagiana
Foram selecionados para uma sucinta analise, os seguintes artigos escritos
por Roque Callage: para uma sucinta analise: Aspectos praianos /Rio Grande - O Casino,
Sobre a costa oceanica - impressoes e flagrantes da cidade de Rio Grande, Em pouca
dgua... - aspectos e impressoes de nossa viafluvial', Nossa terra /Santa Cruz- aspectos da
sua vida urbana e da sua vida rural. Todos estes trabalhos foram publicados no mes de
fevereiro, no ano de 1931, no jomal (<Correio do Povo ” de Porto Alegre.
A ampla aceita9ao e o apre90 das cronicas de Callage, provem de sua
excelente apresenta9ao todos seus trabalhos jomalisticos se mostram bem estruturados, com
logica de um silogismo e unidade de assunto tematica.
Nos textos selecionados, encontra-se um autor diferente, em alguns aspectos,
daquele citado anteriormente. Roque Callage conserva na cronica jornalistica a linguagem
acesslvel que o caracteriza, entretanto, aquele vocabulario “tradicionalista”, caracterlstico
do sul, nao e localizado nos textos em destaque.
O autor conserva um tra90 peculiar descritivista, que sempre foi marcante na
prosa, como se pode constatar pela cita9ao a seguir, a qual relata as suas impressoes sobre
a cidade de Rio Grande:
Tudoparado agora.Nenhuma embarcagdo.
Desappareceram os vapores de grande calado, os
transatldnticos e os navios cargueiros de todas as
nacionalidades. E, em razdo disso cessou quase
que por complete o servigo de carga e descarga
nos armazens.22
22 Correio do Povo, 26/02/1931
ftli?
Dentro dessa perspectiva, cabe se fazer uma analogia com a obra Os Sertdes,
de Euclides da Cunha, tal obra disserta sobre a Guerra de Canudos, ocorrida entre 1896 e
1897, sendo um dos conflitos mais violentos da historia brasileira, ocasionando a morte de
15 mil pessoas, entre sertanejos e militares. Uma vez que a trajetoria deste tambem se
assemelha a Callage, ou seja, ambos correspondentes de batalhas, embora estas tenham
tido conota9oes diferenciadas. Sendo a primeira um movimento messianico e a segunda, a
revolu9ao de 23.
A produ9ao literaria de Roque e intensa, pois em 1924, publicou o livro
Rincao. Essa produ9ao contem ainda paginas que recordam a tragica epopeia
revolucionaria de 23, mas possui tambem tra90S e semelhan9as com seu segundo livro
Terra Gaucha.
No ano de 1925, foi criado em Porto Alegre o jornal “Didrio de Nottcias”.
Roque passou a assinar a coluna chamada A Cidade, com sugestoes e criticas sobre a
urbaniza9ao de Porto Alegre.
Como amante apaixonado do Rio Grande do Sul, Roque produz uma obra
extremamente importante para a literatura rio-grandense, Vocabuldrio Gaucho (1926), onde
constam termos e expressoes sulinas.
Em 1927, publica Quero-Ouero como sempre com narrativas envolventes e
encantadoras sobre o pampa. A seguir com uma diferen9a aproximada de dois anos,
celebra-nos com uma de suas melhores obras No Fogdo Gaucho, que traz uma coletanea
de ensaios. Sobre este livro, Spalding afirma que “o historiador, o sociologo e ofolclorista
18
se encontram ”
Em 1930, ja doente pelo mal que viria a Ihe vitimar, Roque continua
trabalhando intensamente nos meios de comunica9ao, e deixou sua ultima produ9ao
literaria para o povo rio-grande Episodios da Revolugao, obra que aborda a Revolii9ao de
outubro de 1930, onde e deposta a Repiiblica Velha.
O Rio Grande nao seria o mesmo a partir do ano de 1931, mais precisamente
a 23 de maio, quando a tuberculose pulmonar, o vitimou. Roque Callage foi para longe da
18 SPALDING, Walter. Os construtores do Rio Grande. Vol. 2. Porto Alegre: Sulina, 1969., p. 251.
D
Agora estabelecido em Porto Alegre, passou a fazer parte da reda^ao do
jomal “Correio do Povo ” Roque fora sempre um homem sedento de conhecimento, assim
passa a percorrer o Rio Grande do Sul em viagens de estudo, como jomalista e
conferencista, preenchendo o anseio de desvendar profimdamente a terra e o homem
gaucho, isso o auxiliaria em seus propositos literarios. Entretanto, tais atividades nao
proporcionavam ao autor e sua familia uma renda satisfatoria, como pode ser comprovado
pelo trecho abaixo declarado pelo unico filho, ainda vivo, Carlos Orestes Callage:
“Pobre como rato de igreja”, meu
paicostumava viajar por todo o Estado para
pronunciar
socials,(...) o tema das “palestras” era de
natureza cultural, e o meu pai, de improviso,
abordava a estetica na obra de Dante
Alighieri, ou ainda, a personalidade de
Euclydes da Cunha.,.13
Conferences nos clubes
No ano de 1920, o autor assina mais duas obras Cronicas e Contos, que
reune antigas prodi^oes e Terra Natal, que relata suas visitas ao interior do Rio Grande.
Em 1922, como fora citado em capitulo anterior, Borges de Medeiros resolve
candidatar-se mais uma vez ao Govemo do Estado, so nao contava com for9as opositoras.
Tais formas tinham a sua ffente Assis Brasil. Agora, o Rio Grande do Sul divide-se entre
“Assisistas” e “Borgistas”.
O clima no Estado nao era nada calmo, por conta disso, Roque foi preso no
Cafe A Barrosa, em Porto Alegre. Este estabelecimento era considerado o “QG dos
revoluciondrios, os assisistas. Borgista ali nao entrava ”, como salienta Walter Spalding14.
Mas foi solto, logo depois, por nada ter sido constatado contra Callage.
Indignado com tais acontecimentos, o autor junta-se aos revolucionarios
assisistas partindo para o conffonto da revolu9ao como enviado do correio do povo. Deste
fato nasce mais um dos livros de Roque O Drama das Coxilhas (1923); sobre esta obra, seu
filho Carlos O. Callage confinna:
13 Trecho da carta enviada a autora desta monografia Veridiana Gaetano ao termino das ferias de verao de
2002.
14 SPALDING, Walter. Construtores do Rio Grande. Vol. 2. Porto Alegre: Sulina , 1969. p. 251.
Em dois dos artigos selecionados Aspectos praianos / Rio Grande - O
Casino-, e Sobre a costa oceanica - impressoes e flagrantes da cidade de Rio Grande,
nota-se iim tom de admirasao e simpatia do autor tanto pela cidade de Rio Grande, quanto
pelos rio-grandinos, talvez isso acontetpa por ter exercido uma atividade educacional neste
municipio, a de Inspetor Federal, junto ao Colegio Lemos Junior, o que Ihe exigia visitas
periodicas a cidade. Constata-se, a seguir, o tom carinhoso e amavel de Callage:
Gente boa. Gente amavel. Gente sem vaidades, sem
artificios, sem a menor affectagdo. Por todas as
ruas ha vida, ha animagao, hatrabalho.23
Com o objetivo de analisar o perfil intelectual do autor no artigo Sobre a
costa oceanica, salienta-se que este explicita um discurso que Ihe confere um
posicionamento bastante critico, na medida em que tece comentarios sobre a sociedade
citadina, a politica e a economia de Rio Grande. Essas sao expressoes justificadas pela
fraca movimenta9ao portuaria da cidade. Da mesma forma, ao analisar a situa^o do
incipiente operariado rio-grandino, considerado por ele como vivenciando um periodo de
transforma9oes positivas, concorre por contribuir no resgate historiografico desta cidade
num de sens periodos mais expressivos, o qual se refere ao processo acelerado de
industrializa9ao. Isso, sem mencionar a tendencia poetica que acompanlia suas ideias,
elucidando seu profundo entusiasmo ao escrever.
A respeito de sua cronica Aspectos praianos /Rio Grande - O Casino, alem
da utiliza9§o de variados recursos metaforicos
autor menciona:
para descrever a praia do Cassino, o
E o communismo dos corpos sem as graves
ameaqas do Communismo vermelho da sangueira
moscovita, certamente sem os perigos de outros
communismos aina maisperigosos...24
23 Idem. 23.
Correio do Povo, 02/1931
24
^L 5 2^
A mais antiga do Estado
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
CAMARA MUNICIPAL DO RIO GRANDE
COMISSAO DE CONSTITUICAO E JUSTI^A
PARECER PROCESSO
Esta Comissao, apos apreciar o Projeto, constante do Processo acima enumerado,
declara nao haver impedimento a sua tramitapao.
I INCONSTITUCIONAL
[ I NTIJURIDICO
I 1 ANTJREGIMENTAL
I 1 INADEQIJADO A TECNICA LEGISLATIVA
Este e o parecer desta Comissao.
Sala das Comissoes,
ite
ice-Presidente
Secretario
Membro
Membro
fe.zi
V
Assim sendo, mais uma vez percebe-se o aprimoramento cultural do autor,
principalmente, em seu discurso historicista.
No intuito de evidenciar outras ideias callagianas explora-se a analise
referente a sua cronica Em pouca dgua... - aspectos e impressdes de nossa via fluvial.
Nesta, o autor relata suas impressdes a cerca da trajetoria de viagem no vapor da
Companhia Amt, o Italia, o qual deslizando pelas aguas do Guaiba, na linha do Alto
Taquari com destine a Bom Retiro, fomece ao autor um conjimto de visdes ambientais
interpretadas de maneira poetica, como Ihe e tipico e confirmado abaixo:
De uma e outra margem do Jacuhy, os quadros se
succedem num deslumbramento de colorido onde o
verde vem todas as tonalidades.25
Interessante mencionar que ser£ nesta cronica que o autor fara referencia a
um dos temas menos recorrentes em suas obras: a mulher. Sobre esta, a qual faz parte do
cenario apresentado na viagem, escreve:
No alto da barranca houve-se um choro monotono
de crianga, (...) A mae, acocorada, descobre logo o
que deseja a cria de peito,e, com toda a calma de
sua maternidade serena arranca de entre a blusa
esgarga o seio magro e cahido de cuja teta
esguicha oparco elixir consolador.26
Percebe-se, a partir do exposto, uma discreta ausencia de recursos poeticos
romanticos, quanto & descri^^o do chamado “sexo fragil”, uma vez que esta figura e
retratada sem a simbologia da meiguice e beleza feminina, tao tipica da idealiza^ao vigente.
Finalizando a analise ressalta-se que o autor, descrevendo o cotidiano
gaucho, tao apreciado, explicita as atividades comerciais e sociais, no momento em que
descreve as redoes entre mercadores e compradores e a enfase dada pela popula^ao aos
preparatives da Festa dos Navegantes, evidenciando assim, aspectos concementes a
conjuntura espa90-temporal da epoca.
%
25 Correio do Povo, 5/02/1931.
“idem. 26
fl
»+ A.
Ainda sob as percepfoes de viagem do autor, as quais retratam seu aprego
por esta pratica, resgata-se o artigo Nossa terra/Santa Cruz - aspectos da sua vida urbana
e da sua vida rural. Esta viagem retrata sua visita a cidade de Santa Cruz, enfatiza,
sobretudo, a Companhia de Fumo Santa Cruz. Vale mencionar que se considerou como
importancia de seu relato, a evidencia^ao das conduces que o operariado gaucho dessa
cidade usufruia:
Observe, com respeito, a ordem que reina em todas
As dependencies do estabelecimento e exulto por
saber que os operarios alem de trabalharem com
conforto sao cercados de todas as garantias e
assistencia, mormente em se tratando de accidentes
do trabalho.27
Assim, mais uma vez, ratifica-se a ideia da sugestao callagiana no resgate
historiografico, nao so do movimento do operariado rio-grandense, mas de todo o aspecto
sdcio-economico e politico da epoca em que apresentou sua obra.
Evidentemente, e licita a ideia de que Roque Callage se constitui num dos
mais importantes veiculos de resgate da cultura rio-grandense, o que justifica a escolha
desse autor para a analise do presente trabalho.
27 Correio do Povo, 1/02/1931.

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