CÂMARA MUNICIPAL
DO RIO GRANDE
PROJETO DE DECRETO LEGISLATIVO Nº 43 12025
PROTOCOLADO SOBONº 8780 12025
EM 2810 2025
“Concede Medalha de Mérito Comunitário à Sra. Flávia
Andréa Padilha Lucio.”
Art. 1º Concede Medalha de Mérito Comunitário à Sra. Flávia Andréa Padilha
Lucio.
Art. 2º Este Decreto Legislativo entra em vigor na data de sua publicação.
Rio Grande, 28 de outubro de 2025
Karina Rocha
Vereadora do PT
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JUSTIFICATIVA:
Flávia Andréa Padilha Lúcio, conhecida como Iyá Flávia de Oyá, é uma das
principais lideranças territoriais da comunidade de matriz africana no município do Rio
Grande/RS. Lidera o Ilé Asé Aloyá lfokânrán, espaço tradicional de resistência,
espiritualidade e promoção de saberes afro-brasileiros. É educadora popular,
palestrante, empreendedora, presidente do Coletivo Meninas D'Oyá, presidente do
Conselho de Segurança Alimentar (CONSEA) e coordenadora estadual de mulheres
do Fórum Nacional de Segurança Alimentar dos Povos Tradicionais de Matriz
Africana. Foi também vice-presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Município
do Rio Grande.
Em 2015, a Câmara Municipal de Vereadores de Rio Grande homenageou sua
bisavó, Antonieta Goulart da Trindade, durante sessão solene alusiva ao Dia da
Consciência Negra, reconhecendo sua relevância histórica e social na preservação
da religiosidade africana e da identidade negra na cidade. Hoje, Iyá Flávia representa
a continuidade dessa ancestralidade, conduzindo com firmeza e amor o legado
herdado de suas antepassadas.
Mãe, esposa, tia, madrinha, amiga e mulher negra, lyá Flávia é símbolo de
resistência, dignidade e superação. Sua trajetória expressa a luta de tantas mulheres
negras brasileiras que, mesmo diante das adversidades impostas pelo racismo
estrutural, seguem cultivando axé, sabedoria e compromisso com a coletividade.
Filha de lolanda Padilha Lúcio (Gringa) e Luiz Carlos Goulart da Trindade, neta de
Antonieta Goulart (Mãe Donga), Luiz Xavier, Júlio Ferreira Padilha e Diva Padilha, Iyá
Flávia é irmã de Alexandre Padilha (in memoriam), Carlos Eduardo Padilha e Luiz
César Trindade.
É mãe de Juliane Andreia Lúcio Soares e Darlan Vinícius Lúcio Soares, esposa
de Manoel Valim e avó de Andreas Nunes Lúcio.
Renascida na tradição do Batuque, em Rio Grande/RS, aos 13 anos de idade, no dia
10 de maio de 1987, foi iniciada como qmorisã Qya pelas mãos de sua avó paterna e
lyálórisã Donga de Oyá Dé, pertencente à bacia do Babálórisa Zé da Saia. Criada em
um terreiro de Batuque Jeje-Nagô e de Umbanda, desde pequena aprendeu o respeito
ao sagrado e a importância de preservar os territórios de matriz africana construídos
por seus ancestrais. Em 29 de janeiro de 1996, foi consagrada Iyálórisã do Ilé Asé
Aloyá Ifokânrán, tornando-se guardiã da tradição familiar e espiritual de Oyá.
A Iyá recorda uma das passagens mais significativas de sua trajetória espiritual:
“Em uma noite de sessão de Umbanda, na gira de Caboclos, meu avô Luiz
recebeu seu chefe espiritual, Junco Verde. Ele nos disse que havia uma árvore
plantada no meio do terreiro. Ninguém conseguia vê-la, mas ela estava ali. Disse que,
por mais que o tempo passasse, aquela árvore jamais morreria, e que cada um de
nós pertencia a um galho. [...] Doze anos atrás, quatro dias antes do falecimento da
minha avó e lyálórisã, sonhei com ela. Estávamos em uma casa antiga, e ela me
entregou uma muda, dizendo: “Isso é pra ti, é minha herança”. Com o tempo
compreendi que a árvore e a muda representam a continuidade daquilo que temos de
mais precioso: nossa ancestralidade.”
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iyá Flávia é herdeira do axé do Ilé de lansã, Ogum e Oxalá, seguidores da
Cabocla Jurema das Matas, do Caboclo Ubirajara e do Caboclo Junco Verde. Sua
comunidade é referência na cidade de Rio Grande, especialmente nas ações de
enfrentamento à insegurança alimentar e de promoção da saúde, exercendo um papel
social muitas vezes negligenciado pelo Estado.
“Foi na primeira infância que passei a formular perguntas e buscar respostas
sobre minhas origens e ancestralidade. O amor pela tradição foi inscrito em meu
corpo, desenhando os sentidos e significados do meu lugar, pertencimento e percurso
como lyálórisã. Meu àse está plantado nesta terra e continuará florescendo nas
crianças de ontem, de hoje e das que virão.”
Atuação Profissional
A trajetória profissional de Iyá Flávia acompanha a história de muitas mulheres
negras brasileiras. Iniciou sua vida laboral como trabalhadora doméstica e,
posteriormente, atuou no comércio local até se tornar empreendedora, inaugurando o
próprio salão de beleza, que se transformou em um espaço de convivência,
fortalecimento e autoestima para mulheres negras. Mais do que um empreendimento,
o salão foi um território de cuidado, onde o empreendedorismo se aliou à solidariedade
e à promoção da dignidade. Dali surgiram inspirações para dissertações acadêmicas,
formações profissionais e projetos sociais, como o “15 Anos Comunitário do Município
de Rio Grande” e o “Coletivo Meninas D'Oyá”.
Liderança Territorial e Comunitária
Como presidente do Coletivo Meninas D'Oyá, lyá Flávia atua ao lado da
professora de Filosofia Juliane Soares, diretora executiva do grupo. O coletivo é
formado por mulheres e homens que expressam arquétipos de divindades africanas
ligadas ao clã ancestral de Oyá.
O nome do coletivo assim como sua Biblioteca comunitaria homenageia Mãe
Donga D'Oyá, matriarca reverenciada da cidade de Rio Grande, e tem origem no Ilé
Asé Aloyá lfokânrán, também conhecido como “Casa da Senhora Resistência”. O
grupo atua na promoção da cultura, memória e saberes africanos, enfrentando o
racismo e o racismo religioso e fortalecendo o legado milenar dos povos tradicionais
de matriz africana.
O Coletivo Meninas D'Oyá tem como propósito central promover saúde, cultura,
educação e fortalecimento comunitário, valorizando a ancestralidade e impulsionando
a transformação social em territórios invisibilizados pelo poder público.
Ações e Projetos
A trajetória de lyá Flávia de Oyá é marcada por ações continuas de
fortalecimento comunitário, combate ao racismo religioso e promoção da dignidade
humana. Suas iniciativas, realizadas a partir do Ilé Asé Aloyá lfokânrán e do Coletivo
Meninas D'Oyá, têm alcance local, estadual e nacional, com foco em educação,
cultura, saúde, segurança alimentar e valorização das tradições afro-brasileiras.
Coletivo Meninas D'Oyá
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Criado no espaço sagrado do llé Asé Aloyá lfokânrán, o coletivo atua na
formação cidadã e cultural de mulheres e homens inspirados nas divindades africanas
ligadas ao clã ancestral de Oyá. O grupo desenvolve atividades voltadas ao
fortalecimento da autoestima, à promoção da saúde integral, à valorização da arte
afro-brasileira e à preservação da memória ancestral. As ações são fundamentadas
em práticas pedagógicas afrocentradas, que unem oralidade, corporeidade e
espiritualidade.
Contribuiu com a idealização 15 Anos Comunitário, projeto que celebra os ritos
de passagem de adolescentes negras de famílias periféricas, muitas vezes em
situação de vulnerabilidade social.
Campanhas de enfrentamento à Segurança Alimentar como a entrega de alimentos e
cestas básicas no bairro Maria dos Anjos. Desde 2018, Iyá Flávia atua de forma direta
no enfrentamento à fome também nos territórios de matriz africana.
Ainda em 2018 inspirada e em parceria com o teólogo e professor Jayro Pereira
de Jesus, promoveu uma aula com a Escola Ubuntu, realizada no llé Asé Aloyá,
dedicada ao estudo e à vivência das filosofias africanas, fortalecendo o diálogo entre
saberes tradicionais e acadêmicos.
Ciclo de Palestras “Meninas D'Oyá” (2019 — atual)
Série de encontros educativos realizados em escolas, universidades,
instituições públicas e espaços culturais. O ciclo promove o ensino da história e cultura
africana e afro-brasileira, além de debates sobre equidade racial, saúde da mulher e
enfrentamento ao racismo religioso. As palestras tornaram-se referência regional e
inspiraram a criação de grupos de estudos e projetos de extensão universitária sobre
saberes africanos.
Durante o período pandêmico, coordenou, junto ao Coletivo Meninas D'Oyá e
outras lideranças da comunidade remanescente de Quilombo Macanudos, a
distribuição de mais de cem cestas básicas e kits de higiene, beneficiando famílias em
situação de vulnerabilidade. Em paralelo, promoveu rodas de conversa sobre
alimentação saudável, cuidados coletivos e espiritualidade, articulando fé,
solidariedade e políticas públicas de segurança alimentar em eventos online.
Eventos Culturais e Formações
Evento “Matripotência - Sagradas Mulheres Águas” (2022)
Encontro voltado à saúde e espiritualidade da mulher negra, com oficinas de
autocuidado, partilhas sobre o sagrado feminino e discussões sobre ancestralidade e
corpo. O evento reuniu lideranças religiosas, terapeutas populares e pesquisadores,
tornando-se um espaço de cura, formação e pertencimento.
Festival Cultural dos Povos Bantu / Sonora Brasil (2023)
Participação destacada na programação nacional do festival, apresentando a
importância da dança, da música e do conto negro africano como linguagens de
resistência e educação.
O Ilé Asé Aloyá lfokânrán foi reconhecido como um espaço de referência para
o fortalecimento da cultura bantu no extremo sul do país.
Ações Integradas de Saúde e Educação no Terreiro — Parceria com o AgPopSUS
(2025)
Iniciativa de articulação entre o Sistema Único de Saúde e os terreiros, voltada
à promoção de saúde, bem-estar e educação popular. As atividades incluem
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atendimentos de saúde, rodas de conversa sobre espiritualidade e autocuidado, além
de formação para agentes comunitários e religiosas(os) de matriz africana.
Educação, Leitura e Memória
Biblioteca Vó Donga (criada em 2023)
Espaço de referência em educação antirracista e preservação da memória afro-
brasileira, sediado no Ilé Asé Aloyá lfokânrán. O acervo reúne obras de escritoras e
escritores negros brasileiros, fortalecendo a leitura como ferramenta de libertação e
pertencimento. A biblioteca também sedia rodas de leitura, oficinas de escrita, cursos
e atividades intergeracionais, valorizando a transmissão oral dos saberes.
Formações Comunitárias e Oficinas Pedagógicas
Sob a orientação de lyá Flávia, são desenvolvidas formações voltadas à
educação étnico-racial, ao combate ao racismo religioso e à valorização da filosofia
africana. As oficinas são direcionadas a educadores, jovens, lideranças comunitárias
e agentes públicos, promovendo reflexões sobre ancestralidade, corporeidade e
resistência.
As ações coordenadas por lyá Flávia de Oyá têm gerado impactos diretos na
comunidade do município de Rio Grande e região com ampliação do debate público
sobre laicidade, diversidade religiosa e políticas para povos tradicionais,
fortalecimento da autoestima e da formação cidadã de mulheres e jovens negras(os),
contribuição para a redução da insegurança alimentar e o incentivo à economia
solidária e promoção de educação antirracista em parceria com escolas e
universidades valorizando da preservação ambiental e espiritual dos territórios
tradicionais.
Textos de iyá Flávia de Oyá Publicado em livros:
O quinto volume da Série Pensamento Negro Descolonial, “Culturas Infantis de
Terreiro: agenciando memórias, histórias e narrativas”, visa provocar aberturas para
novos imaginários sobre as infâncias; produzir fissuras nos lugares por onde
perpassam os estudos sobre crianças e infâncias, num Brasil que pouco se reconhece
como forjado por tradições e culturas de matriz africana; provocar deslocamentos em
conceituações aprisionadas e mumificadas em uma infância universal, branca,
colonizada. Importa destacar que a infância, por si só, é uma referência de incômodo
ao que está estabelecido e definido no mundo adultocêntrico. Incômodo que é
ampliado quando tratamos de infâncias de terreiro e negras.
“Matripotência e Mulheres Olusg: Memória Ancestral e a Enunciação de Novos
Imaginários”, é resultado do aquilombamento de Mulheres de diferentes regiões do
Brasil, que compuseram o curso “Guardiás do Povo de Terreiro - OLUSG”, realizado
no segundo semestre de 2021. Propõe um mergulho pelas entranhas de experiências
grafadas no corpo, na corpa, na memória, na história, na travessia de mulheres pretas,
mulheres de axé, mulheres matriarcas, mulheres amefricanas na cena diaspórica.
A coletânea: “Minha História Minha Tradição" traz a visão de crianças e
adolescentes de quatro povos e comunidades tradicionais que vivem no município de
Rio Grande-RS. Crianças e adolescentes de terreiro, quilombolas, pescadores e
indígenas contam sua visão de mundo e qual o olhar deles sobre sua comunidade,
seus modos, seus fazeres e saberes, que se expressam em suas próprias palavras,
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donas de suas próprias narrativas, condensadas e organizadas em forma de obra
pública por iniciativa do Instituto Cultural Filhos de Aruanda e com o apoio do
COMDICA - Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Rio
Grande.
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