MOÇÃO DE PESAR Nº 010/2021.
Senhores Vereadores,
Nos termos do Regimento Interno, requeiro à Mesa, uma vez ouvido o
soberano Plenário, que se encaminhe Moção de Pesar à família do Bebê VICENTE
MARESTONI SIMÕES GONZAGA, pelo seu falecimento, ocorrido no dia 28 de
março de 2021.
Vicente Marestoni Simões Gonzaga, nasceu em Juara-Mato Grosso
em 31 de Agosto de 2019, às 14h07 de um sábado ensolarado.
No dia seguinte ao nascimento, depois de alguns sinais como por
exemplo: ter nascido roxo, ter chorado pouco e através da ausculta, foi
diagnosticado com sopro, sendo encaminhado para Sinop-MT para consulta e
avaliação com cardiopediatra.
Sem diagnóstico fetal, com quatro dias de vida veio à confirmação de
uma cardiopatia congênita: transposição das grandes artérias, onde as principais
artérias do coração nascem em lugares opostos, impossibilitando a oxigenação do
sangue. Vicente só não morreu no parto, por ter também CIA e CIV (“o sopro
diagnosticado no início de tudo). Foi aí que começou sua luta e que grande luta.
No Mato Grosso não tem estrutura para cirurgia cardíaca e Vicente
precisava com urgência de uma vaga em um hospital de referência para que
pudesse corrigir sua cardiopatia. Foi então que após dois dias, conseguimos uma
vaga em Goiania-GO, porém, também não teve estrutura para sua cirurgia visto que
foi descoberta uma anomalia de coronária (osteo único) e que precisaria de um
aparelho chamado ECMO (que faz a função do coração) para o pós operatório.
Resultando em uma nova transferência e após 18 dias de internação em Goiânia,
Vicente foi novamente transferido, agora para São Paulo, capital.
A grande preocupação é que os dias foram passando e Vicente passou
a ser considerado um “bebê velho” por já estar com quase 1 mês de vida, visto que
deveria ter corrigido até os primeiros 15 dias de nascido.
Chegou na capital com insuficiência respiratória, necessitando ser
intubado nas primeiras horas. Com 4 dias em São Paulo passou por seu primeiro
procedimento, um Raskind à beira leito, para dilatar sua CIA que estava fechando e
comprometendo sua clínica.
No dia 02 de outubro de 2019, passou mal e acabou necessitando de
ECMO antes mesmo da cirurgia de correção da sua cardiopatia. Acabou tendo uma
parada cardíaca de 29 minutos no início do procedimento revertida pelo uso do
dispositivo, parada essa que acabou evoluindo em uma constante disfunção de sua
função cardíaca (mesmo que dias depois tenha corrigido totalmente seu coração)
impedindo que seu coração recuperasse totalmente sua força, batendo apenas com
35% de sua capacidade.
Após quatro meses e meio internado e algumas intercorrências, foi de
alta para casa pela primeira vez. Precisando voltar para o hospital com menos de
um mês devido a um novo episódio de piora. Foi novamente intubado, realizou
cateterismo e pôde voltar para casa depois de dois meses de internação. Quando
estava quase completando dois meses em casa, teve uma nova piora, seguida de
mais uma internação!
Visto que Vicente não conseguiria recuperar sua função cardíaca e
seriam inúmeras descompensações, foi encaminhado para ser avaliado pela equipe
de Transplante. A princípio não teve indicação, vindo a ter uma nova
descompensada durante uma consulta sendo necessário internar novamente e
então entrando efetivamente para a fila de transplante cardíaco pediátrico.
Nessa nova internação quase foi vencido por um choque séptico, que
mais uma vez, Deus nos mostrou que estava no comando. Vicente precisou
novamente, agora a segunda, fazer uso de ECMO, e depois transacionou para o
Berlin Heart - coração artificial.
Permaneceu internado por nove meses na UTI do InCor, por sete
meses aguardando na fila de transplante e durante seis meses fez uso de um
coração artificial chamado Berlin Heart para se manter mais estável enquanto
aguardava por um transplante cardíaco.
Até que aconteceu... Durante todo o tempo de espera tivemos alguns
doadores compatíveis, mas sempre com uma questão que não permitia o
transplante de fato. Até que no dia 04/02/2021, conseguimos o nosso tão sonhado e
esperado sim, conseguimos um doador e dessa vez Vicente receberia seu novo
coração.
Vicente viveu o milagre da vida todos os dias, a cada amanhecer e
entardecer com a permissão de Deus. É nossa fonte de fé e esperança de dias
melhores. Ele nos faz enxergar a vida de uma nova perspectiva, ele nos faz sermos
melhores a cada dia!
Nesse um ano e seis meses de existência fizemos muitos amigos,
anjos enviados pelo Senhor em nossa caminhada. Ficou quase três meses em casa
apenas. Fez seu primeiro aniversário no hospital, não conheceu seus primos que
nasceram depois dele e também não conheceu ninguém da família. Não conheceu
seu quarto que a mamãe montou com tanto amor e carinho e o papai pintou com
tanta dedicação.
Tínhamos muita fé em Deus de que o transplante nos traria a
possibilidade de vivermos tudo isso e mais um pouco fora do hospital, com
qualidade de vida e tendo a esperança de vê-lo crescer como uma criança normal.
Acho que nunca, em toda minha vida vou conseguir colocar em
palavras tudo o que vivi e senti nesse dia 04/02/2021. Que dia, QUE DIA!!! Desde a
notícia do potencial doador até a confirmação, uma certeza no meu coração de que
sentia que aquele era o momento dele e que aquele coração era realmente para ele.
É indescritível. Que sensação única, um misto muito intenso de alegria, felicidade,
medo, só sei que é surreal. Fico relembrando e é como se tivesse vivendo de novo,
é impossível não me emocionar, bem como olhar pro Vicente e não chorar de
emoção por tamanha gratidão, pelas bênçãos que o Senhor derrama sobre a vida
dele.
Foram 220 dias de espera por um coração na fila do transplante, foram
184 dias de uso de um coração artificial Berlin Heart pra se manter o mais estável
possível, até que Deus nos permitiu essa graça.
Iniciamos um novo processo, um novo caminho a percorrer com toda
proteção divina. Saber que no peito do Vicente batia a continuidade da vida e não
somente um coração, batia também a possibilidade e a esperança de dias melhores,
de uma vida fora do hospital, ir para a escola, fazer amigos, conhecer a família, fazer
muita bagunça, e com o transplante isso estaria cada vez mais perto. É como se
fosse possível avistar uma luz ao fim do túnel.
Mas infelizmente a vida tomou outro rumo. Vicente tinha uma infecção
aparentemente controlada no coração artificial que no transplante se alastrou pelo
corpo, sendo potencializada por causa da imunossupressão. Foi algo difícil de tratar,
porque ele precisava do imunossupressor para não rejeitar seu novo coração, mas
enquanto isso, a infecção tomava conta.
Foram dias muito difíceis, cheios de altos e baixos. Vicente saiu bem
do transplante, o órgão estava ótimo e o que ninguém esperava foi acontecendo, a
infecção foi trazendo complicações, como por exemplo vasoplegia em decorrência
de sepse, causando hipotensão e uma insuficiência renal importante. Vicente não
fazia absolutamente nada de xixi, precisando de hemodiálise e pela dificuldade
extrema de acesso e urgência no caso, acabou novamente sendo canulado em
ECMO, agora pela terceira vez.
Essa ecmo foi, de longe, a mais assustadora. Vicente teve
sangramento importante, inclusive na cabeça. Pelo baixo débito causado pela
infecção, acabou perdendo seu intestino grosso em uma cirurgia de urgência na
madrugada de 12 para 13 de fevereiro. Foi um dos dias mais difíceis. E mais difícil
ainda foi chegar até ele e dizer que se estivesse difícil e ele estivesse cansado, que
poderia descansar, que a mamãe ficaria bem... mas Deus nos honrou mais uma vez,
como sempre honrou e Vicente voltou da cirurgia e teve grandes melhoras.
Dias depois, após algumas falhas de decanulação, seguido de
convulsões e um medo imenso de como estava seu neurológico, Vicente conseguiu
sair do dispositivo. Evolui bem, conseguiu extubar, fazer fisioterapia sentado, apesar
de bravo (risos), voltou a fazer xixi sozinho e no nosso coração a esperança de que
o pior já havia passado.
Ele foi melhorando, trocamos de UTI, já que agora extubado não ficaria
sem a mamãe dele, o grande problema é que ele acabou potencializando demais
algumas medicações precisando ser intubado novamente.
Nesse período, Vicente acabou tendo novamente outro quadro
importante de sepse, que conseguimos reverter, porém sendo necessário voltar para
a hemodiálise. E voltava tudo à tona de novo. Além de toda dificuldade e
preocupação de equipe, tinha também a parte emocional. Não tinha um profissional
sequer dentro do InCor que não tenha se envolvido emocionalmente com o Vicente.
Ele era e continua sendo luz, calmaria, paciência, persistência, resiliência e dentre
tantas coisas, acima de tudo, Vicente foi muito feliz, o que era nítido de ver em seu
sorriso banguela e no brilho dos seus olhos.
Os dias foram passando e ficando cada vez mais difíceis, cada dia,
hora, plantão vivo era um milagre de Deus concedido ao nosso menino. Nessa altura
a equipe que muito me respeitava, já havia me chamado para uma conversa e dito
que “ainda não é o momento, temos o que fazer, mas de tudo não é descartado a
possibilidade de não termos mais o que fazer. Vicente usa todos os antibióticos
possíveis e não responde ao tratamento”.
Foi como se tirassem meu chão, não que eu não entendesse o que
estava acontecendo, entendia sim e muito, porém ser verbalizado, mesmo que com
todo cuidado, o que está acontecendo é muito difícil e doloroso.
Até que na manhã de 27 de Março de 2021, Vicente amanheceu
estranho, mais inchado, hipotenso, começaram então a aumentar droga, não
adiantava, aumentaram outra, sem sucesso. Diminuíram a remoção da
hemodinâmica e pouca diferença fez. Eram duas ou três pressões ruins e uma boa.
Recebeu sangue, plaquetas, expansão e nada adiantava. E eu ali, confiante de que
mais uma vez conseguiríamos reverter como tantas outras vezes, mas ao mesmo
tempo com uma dor no peito absurda e diferente de tudo o que já havia sentido em
todo o tempo em que esteve aqui conosco.
Depois de muita insistência, entraram com uma nova droga, mas para
Vicente que já não respondia as medicações, não fez diferença. Chegamos ao limite
da medicina humana. E era nítido que realmente era o fim, naquele momento só
havia o corpo, pois nosso menino já não estava mais ali, ele já havia partido. E partiu
no meu colo, agarrado em mim como sempre foi, no domingo, 28/03/2021 as 00h03.
Tudo o que eu enquanto mãe do Vicente sempre pedi a Deus é que
conduzisse tudo e que independente do desfecho, Vicente não sofresse e assim Ele
fez. Quando começou a ficar pesado e difícil, Deus levou.
Hoje nos resta a certeza de que fizemos do impossível possível. Que
Vicente lutou bravamente desde o início, cumprindo sua missão com excelência
nesse plano. E nesse curto tempo de 1 ano 6 meses nos ensinou muita coisa, muita
mesmo, sobretudo o que é o amor, confiança, entrega e nunca parar de sorrir,
mesmo quando tudo estiver difícil.
Vicente será sempre lembrado por uma equipe inteira, não somente
por ter cativado a todos, mas também por sua grande força e resistência. Aos olhos
de todos, Vicente foi a primeira criança a precisar de ecmo por três vezes, a primeira
criança a ter uma infecção em dispositivo extra-corpóreo do nível que teve. Foi
estudada e adaptada a nível mundial uma técnica de punção para o Vicente que
garantisse que ele tivesse um acesso para quando o coração chegasse. Vicente
ensinou muito e continuará ensinando, servindo de exemplo para muitos.
Agradeço de coração a todos que passaram em nosso caminho, todos
que se permitiram envolver com o caso do baby Vicente sem ao menos conhece-lo
pessoalmente. Obrigada por tanto carinho e tantas orações. Obrigada Deus por
tanto.
Peço que Deus em sua infinita bondade abençoe a família do doador e
os tenham em vossos braços, acalente vossos corações. E que assim como essa
família, outras possam doar os órgãos mesmo sendo um momento muito difícil, mas
possibilitando que a vida continue mesmo quando você pensa que ela chegou ao
fim! Que possam ver que transplantes realmente acontecem e salvam vidas, assim
como salvou a do Vicente por quase dois meses.
Peço para que Deus abençoe e cuide da vida do Vicente em sua nova
jornada, faça com que fique tudo bem, que não tenha dor e sofrimento e que ele
possa estar sorrindo e brincando, correndo por todos os lados e também, cuidando
de nós aqui embaixo.
Vá em paz Vicente, fique em paz. Nós te amamos muito e para quem
tem fé a vida nunca tem fim. Vivo, para sempre em nossos corações.
Ante a história de bravura do Baby Vicente, esta Casa de Leis não
poderia deixar de se associar ao pesar pelo seu passamento. Manifestamos nosso
profundo respeito, rogando a Deus que traga conforto aos corações enlutados.
Desejamos que a paz, o consolo e a força da fé reinem no meio de todos, primando
o amor a Deus sobre todas as coisas para que o Baby VICENTE MARESTONI
SIMÕES GONZAGA descanse em paz. Através desta Moção, a Câmara Municipal
de Juara expressa todo sentimento, pelo seu passamento ocorrido em 28 de março
de 2021.
Câmara Municipal de Juara, em 16 de abril de 2021.
Marta Dalpiaz Nepomuceno
(Marta Dalpiaz)
Vereadora
Valdir Leandro Cavichioli
(Léo Boy)
Presidente
José M. Galvão Filho
(Zé Galvão)
Vice-Presidente
Luciano A. de Oliveira
(Luciano Olivetto)
Primeiro Secretário
Eduardo Zimmerman Costa
(Eduardo do Boxe)
Segundo Secretário
Eraldo Francisco Alves
(Eraldo Markito)
Vereador
Mônica da Silva Costa
(Dra. Mônica Costa)
Vereadora
Sandy de P. A. Mainardes
(Sandy)
Vereadora
Welington José Martins
(Welington Martins)
Vereador