CÂMARA MUNICIPAL
Tangará da Serra - Estado de Mato Grosso
Rua Júlio Martinez Benevides, nº 195 – S, Centro - Telefax (65) 3311-4600
Rua Júlio Martinez Benevides, nº 195-S, Centro – (65) 3311-4600 Cep 78300-093-Tangará da Serra – MT 1
PROJETO DE LEI Nº , DE 2025
Autor: Vereador Esdras Moraes
DISPÕE SOBRE A NOMINAÇÃO DA RUA 03, NO BAIRRO VILA
ESMERALDA, E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.
A Câmara Municipal de Tangará da Serra, Estado de Mato Grosso, no uso
das atribuições que lhe são conferidas por Lei, apresenta para apreciação e deliberação do
Soberano Plenário o seguinte PROJETO DE LEI:
Art. 1º A Rua 0 3 , no bairro Vila Esmeralda, será nominada oficialmente
como Geralda Serafim dos Santos.
Art. 2º As despesas decorrentes da execução da presente lei correrão por
conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessária.
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
JUSTIFICATIVA
Geralda Serafim dos Santos, aquela que domina a lança ou aponta caminhos: a síntese da
caminhada em busca da terra prometida. Nos autos de seus 98 (noventa e oito) anos,
conclusos em 18 de abril de 2017, foi parteira, cozinheira, lavradora, dona de casa, mãe,
farinheira, rapadureira, conselheira, religiosa fervorosa. Esta é Geralda Serafim dos Santos.
Dona Geralda, como é conhecida, é uma dessas pessoas que teve seu percurso iluminado
pela esperança, pelo sonho. Se da fome fugiu. Se a situação de bicho não lhe tirou o encanto
pela vida e nem a afastou da lavoura; foi dominando a natureza bruta que a fartura à mesa
chegou; o frio do corpo afastou. Foram em terras alheias que brotaram o arroz e o feijão que
alimentaram seus seis filhos naturais e os quatro que a vida lhe ofereceu.
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EM BUSCA DA TERRA PROMETIDA
Se a precariedade material a fez deixar a terra natal, Água Boa – MG, em busca de um
pedaço de chão, na segunda metade da década de 60, foram as terras de garimpo no
município de Arenápolis - MT que seu Roque Ferreira dos Santos, esposo (in memorian),
buscou o leite e o mel. Sofreram a desventura da prometida fartura pelo ouro e pelo diamante
fácil. Neste mesmo município, após as aventuras na mineração, conquistaram um pedaço de
terra, de onde mais tarde foram despejados. Aventuraram por Alto Paraguai, em busca do
sorriso da sorte na mineração, conseguiram o suficiente para sustentar a família.
O desencanto com as pedras preciosas e o metal reluzente, e da terra retirada, a levou a
buscar aconchego em solo tangaraense no início da década de 70, mais precisamente na Vila
Esmeralda, adquirindo dois terrenos, medindo 900 m2, onde edificaram um casebre precário,
feito de pau-a-pique, e buscaram as terras “alheias” para lavrar o sustento. Ela relata que,
ainda na década de 70, a carne consumida era a de animais silvestres, como, por exemplo,
paca, tatu, cutia, capivara encontrados nas redondezas.
Quanto à paisagem do bairro onde escolheu para fixar moradia, Dona Geralda lembra que
a Vila Esmeralda não tinha ruas. Eram picadas, ligeiros aceiros que davam noção de rua, de
quadra; com o tempo, a vegetação ocupava seu lugar de origem. Em suas palavras, era tudo
“triero”. As ruas foram abertas em meados de 1980. Quanto à estrada que liga a Vila ao
Centro, somente em 1980, com abertura da MT 358. O acesso até ao centro era feito a pé, de
bicicleta, em carroças ou em cavalo. “Como a gente era muito pobre, quase ninguém tinha
carroça ou cavalo. Muitos dos moradores traziam suas compras nas costas. Era comum
encontrar uma família inteira vindo da cidade para a Vila, cada qual carregando um saco de
compra, desde os mais novos até o mais velho.
ACIMA DA SERRA: QUASE PARAÍSO
Com a mata dominada, arroz, feijão, milho, mandioca, batata, quiabo, abóbora brotavam da
terra cultivada. O arroz era pilado, retirado a casca em um pilão, abanado em uma peneira
para, em seguida, ser cozido. Da mandioca, além de bolos e trato para animais, era feita a
farinha. No terreiro cresciam as galinhas. Nos mangueirões ou chiqueiros, os porcos se
multiplicavam. Da colheita, parte ia para o dono da terra. Dos animais criados, não tinha para
quem vender. “Era uma fartura de dar gosto”, relembra dona Geralda. Com a terra e para
terra, lembra com saudade, da foice ao machado, da enxada ao enxadão, não tinha tempo
ruim. Ela, o marido e os filhos usavam, com propriedade, os instrumentos para roçar,
derrubar, carpir, cavar. “Com a gente não tinha tempo para a tristeza.
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MÃOS QUE GUIAM
Entre uma e outra travessia, dona Geralda exerceu um dos ofícios por ela considerados
mais nobre de todos. Contribuiu para que muitas crianças vissem a luz do mundo e mulheres
tantas tivessem partos assistidos. A data ela não sabe precisar. Ela declara que começou o
ofício, herdado da mãe, em Água Boa – MG, por ocasião do nascimento do primeiro filho,
quando teve que ajudar sua genitora a atender uma senhora em trabalho de parto. Ou seja,
foi parteira por mais de 60 anos. Segundo ela, também fez partos nos municípios de Alto
Paraguai, Arenápolis e Tangará da Serra – MT. Não sabe precisar, mas afirma que teve
semana que mais de três crianças vieram ao mundo através de suas mãos. “Não tinha hora.
Era só chamar e a gente deixava o que tava fazendo a ia ajudar no trabalho de parto,”
declara.
DO CULTO AO TEMPLO
Como ela afirma: Foi muito amor, meu filho. Muito amor que nos fez viver e servir a Deus!”
Expressão recorrente de Dona Geralda para amenizar os contratempos e os constantes
recomeços que marcaram a trajetória da família. Uma das memórias foi a iniciativa para
arrebanhar potenciais fieis para a fundação da Igreja Assembleia de Deus, na Vila Esmeralda.
“A gente saia de casa em casa convidando as pessoas para ir ao culto lá em casa. O culto era
celebrado a cada domingo...era uma maravilha”, relembra. Conforme seus relatos, na casa
precária, construída na segunda metade da década de 70, tinha um espaço, por ela chamado
de quarto onde eram realizados os primeiros cultos.
Se, por um lado, o empenho em organizar um rebanho ocupava parte de seu tempo e a
enchia de alegria. Por outro, viu seus bens serem dizimados pela voracidade do fogo.
Segundo seus relatos, “o fogo queimou tudo... A gente já não tinha nada, e o pouco que tinha
o fogo levou. Ficamos sem documento, sem comida...sem cama...sem nada”. Segundo ela,
ainda sobre os escombros, a, então prefeita Thais Barbosa enviou parte da madeira para
levantar outra casa. Com a ajuda do seu Stelo (in memorian), dono de uma serraria local, o
restante do material foi doado. E das cinzas, uma casa de madeira, através de muitas mãos,
foi levantada.
Recomposto o lar, o trabalho pastoral prosseguiu. Em contato com um dos responsáveis
pelo loteamento Vila Esmeralda, conseguiu a doação de um terreno para a edificação de um
templo. Em contato com o Pr. Jonas Moreira, a documentação foi regularizada e a construção
da Igreja Assembleia foi iniciada. “A água, minha filha e eu carregamos da casa do Júlio,
popular Fumaça, (in memorian). Levávamos nos baldes à tardezinha ou de madrugada.
Quando os homens chegavam, os galões já estavam cheios... E hoje temos aquela maravilha
que é nossa Igreja ali na Rua Três.”
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AS LIÇÕES QUE FICARAM
Em seu trajeto, a marca relevante é o sorriso. Em seu olhar, a ternura e a sabedoria de
quem aprendeu com os desencantos da vida, refletir a dádiva de quase um século de
caminhada. Na serenidade de sua voz, a voz das vozes que se fazem em movimento. Em
suas mãos, ligeiramente tremulas, nascimentos e pães. Em suma, uma mulher marcada pela
vida que, em plenitude, se fez ser.
Assim conto com o habitual apoio dos nobres pares, para aprovação do Referido Projeto de
Lei. (REGIME DE URGÊNCIA SIMPLES)
Tangará da Serra, 20 de janeiro de 2026.
ESDRAS MORAES
VEREADOR